Desconfinar? Especialistas defendem que se deve planear já essa fase

As atividades deverão continuar fechadas mais 30 dias, há quem preveja mais 45 e até 60. Peritos defendem que desconfinamento comece já a ser planeado e com as escolas. Pedem, também, mais testes.

Os números da pandemia têm vindo a melhorar em Portugal, mais do que os especialistas previam há uma semana. E, nesta terça-feira, registaram-se menos 274 pessoas internadas e menos 15 em unidades de cuidados intensivos (UCI), que são as contas que mais interessam para a resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Indicadores que, a manterem-se, nos fazem sentir que estamos mais próximos de um desconfinamento. Mas os peritos são cautelosos ao dizer que tal só poderá acontecer a partir de março. Defendem que se deve começar a programar essa etapa para não continuar a correr atrás do prejuízo.

Nesta terça-feira, no final da reunião com os especialistas, no Infarmed, a ministra da Saúde, Marta Temido, disse que o confinamento iria prolongar-se durante o mês de fevereiro e, muito provavelmente, entrava por março. Uma síntese dos prazos apontados pelos estudos apresentados que questionaram quando poderíamos desconfinar. E como.

As análises mais pessimistas apontam para que sejam necessários dois meses para se pensar em desconfinar, ressalvando, sempre, que dependerá da evolução do SARS-CoV-2, que tem vindo a registar uma diminuição considerável de novos infetados. E, enquanto as previsões estatísticas são objetivas, o comportamento do vírus tem algumas nuances. Razões que levam o virologista do Instituto de Medicina Molecular Pedro Simas a vaticinar que estamos a assistir à melhor recuperação da terceira vaga da pandemia comparativamente com outros países.

"Respeito os modelos matemáticos, mas conheço a biologia dos vírus e sei que, se houver um confinamento severo, a cadeia de transmissão vai-se interromper abruptamente. O pico atinge-se ao fim de uma semana e começa a descer, foi isso que aconteceu com as medidas mais restritivas e as pessoas a ficarem em casa. Isto é biologia, e a biologia é factual", argumenta.

22 de janeiro foi decisivo

O Governo decretou as últimas restrições à circulação a 22 de janeiro, o que coincidiu com o encerramento das escolas. A 29, Portugal atingiu o pico de doentes ativos da covid-19 - 181 819 -, registo que é referenciado pela Direção-Geral da Saúde (DGS) como o pico da terceira vaga. O maior número de novos casos foi a 28, em que houve mais 16 432 infetados em 24 horas. O que significa que o pico das infeções foi há duas semanas e não na semana passada, como os epidemiologistas previam. Isto significa que os números não são estáticos e, a qualquer momento, as previsões podem ser alteradas, como frequentemente alerta o epidemiologista Manuel Carmo Gomes.
Pedro Simas lembra que sempre foi a "favor do desconfinamento, mas com cautela". Explica: "É importante desconfinar cumprindo as regras. E quais são as duas coisas importantes para controlar um planalto? Chegar a um número de infeções que maximize a proteção dos grupos de risco e que permita à sociedade voltar à sua atividade, porque há muitos efeitos negativos de confinar." Em segundo lugar, "a sociedade tem de cumprir as regras e as instituições que nos apoiam fazer testes e rastreios, o que é essencial para controlar uma epidemia. Os rastreios é que vão permitir bloquear as cadeias de transmissão".

Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, defende que se pense já no desconfinamento, mesmo que seja cedo para abrir as atividades. "É fundamental que seja planeado, faseado e que se possa implementar de forma dinâmica e atendendo à evolução epidemiológica. A expectativa é que os números possam continuar a baixar, mas também temos de fazer por isso", diz, acrescentando que os moldes em que será efetivado dependem da consolidação da descida dos números.

Ambos os peritos entendem que as medidas futuras devem ter como último objetivo evitar a saturação do SNS, tanto em camas nas enfermarias como nos UCI.

"Temos de olhar para vários indicadores, até podemos ter muitos casos, mas a pressão nos serviços de saúde, a mortalidade, é que são impactos que não podemos ignorar. Temos de fazer uma análise concertada dos diversos fatores, não olhar apenas para os números, até porque sabemos que têm uma evolução muito dinâmica", argumenta Ricardo Mexia.

As camas ocupadas em enfermarias e em UCI têm vindo a aumentar, mas nesta terça-feira registaram uma quebra. Tendencialmente, a hospitalização de doentes com covid-19 verifica-se duas a três semanas depois da infeção, o que explica que a redução de novos casos ainda não seja visível a nível hospitalar. O futuro dirá se a tendência de diminuição desta terça-feira se vai manter: os internamentos desceram para 6070 e as camas ocupadas em UCI para 862. O número de mortes diárias subiu dos 196 da véspera para 203, tendo o valor mais alto, 303, sido atingido a 31 e, de novo, a 28 de janeiro, quando a previsão do pico é de 330 óbitos por dia.

Os números mágicos

A evolução positiva na diminuição das infeções por SARS-CoV-2 levou os próprios especialistas a definir metas e prioridades. Uma das medidas que defendem é uma testagem em massa e uma maior capacidade de rastreio dos contactos dos infetados, o que, entretanto, foi prometido por António Costa. Portugal tem uma média de 749 044 testes por milhão de habitantes, das mais altas dos países da União Europeia. Nos últimos meses, a capacidade de positividade por testes é elevada, o que pode significar que se está a testar pouco tendo em conta o número de contágios.

Segundo Carmo Gomes, era de 17% a 12 de janeiro, três vezes mais do que seria ideal. Considera ser a testagem massiva uma boa estratégia para se controlar a pandemia. Na análise estatística que fez, percebeu que houve uma diminuição de testes à medida que diminuiu o número de infetados.

Baltazar Nunes, epidemiologista do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, defende que Portugal ainda precisa de dois meses de confinamento para respirar de alívio. Mas essa situação está dependente de três requisitos: o índice de transmissibilidade (Rt, contágios por infetado) baixar para os 0,66, as camas ocupadas em UCI serem 200 ou menos e os novos casos de infeção acumulados a 14 dias reduzirem para 60 por cem mil habitantes. No dia 3 de fevereiro, o Rt era de 0,72 e já foi de 1,24, o mais alto.
"Precisamos de medidas restritivas equivalentes às tomadas e o fecho das escolas", disse Baltazar Nunes na reunião desta terça-feira no Infarmed. Salientou que "a redução de incidência demora tempo até existir uma redução no peso da doença: hospitalização e óbitos".

Na mesma discussão de peritos, Manuel Carmo Gomes, professor e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, foi bastante crítico da atuação do Governo em face da previsão de novas vagas da pandemia. Na última reunião em que participou, considerou que foi uma resposta gradual à medida que o número de infetados aumentou, quando devia ter sido o inverso. E defende uma "resposta agressiva guiada por critérios objetivos", sublinhando: "Têm de ser estabelecidas linhas vermelhas e, se forem ultrapassadas, tem de se reagir de forma agressiva."

As linhas vermelhas são um índice de transmissão de 1,1, ou pelo menos este valor durante cinco dias; positivos por testes acima dos 10% (o ideal seria 5%) e dois mil novos infetados por dia, o que corresponderá a cerca de 1500 pessoas internadas e cerca de 200 em UCI.

Pedro Simas faz o mesmo tipo de crítica. Entende que a sociedade e as instituições foram proativas na primeira vaga, que considera ser a estratégia correta. O que já não aconteceu nas segunda e terceira vagas. "O vírus tem um comportamento exponencial, não podemos ser reativos, temos de ser proativos. Estamos numa situação de estabilidade, num planalto, e se virmos que há uma tendência de aumento, temos de nos antecipar e corrigir as medidas de confinamento, não podemos de maneira nenhuma relaxar, como aconteceu na segunda e terceira vagas. Aprendemos por experiência própria e não há melhor maneira de aprender, tanto da parte da sociedade como das instituições . Depois, temos a vacina, mas não pudemos ficar eufóricos. Confio que as instituições estejam a fazer o melhor para vacinar o mais rapidamente possível as pessoas, mas até lá temos de desconfinar com muito cuidado. E há uma base científica: o risco é muito grande porque pelo menos 75% da população portuguesa - e estou a ser otimista - não tem imunidade de grupo, está desprotegida."

Escolas, as primeiras a abrir

Ricardo Mexia e Pedro Simas defendem que se deva começar a desconfinar pelas escolas, até porque foram as últimas a fechar. Isto apesar de Baltazar Nunes salientar a grande melhoria dos indicadores com o enceramento das escolas.
Argumenta o virologista: "Foi a última coisa a confinar , não há alternativa. Vamos desconfinar o quê? Na lógica de que as escolas são as últimas coisas a desconfinar, deveriam ser as primeiras a abrir. Mas, seja qual for o desconfinamento, não vale a pena se não cumprirmos as regras. É possível desconfinar controlando o número de infeção, o planalto, há países na Europa a fazer isso, mas o risco continua a ser muito grande."
Mexia justifica: "Tem de ser uma abordagem concertada, mas o processo é mais ou menos inverso ao que fizemos no confinamento: com

Mexia justifica: "Tem de ser uma abordagem concertada, mas o processo é mais ou menos inverso ao que fizemos no confinamento: começar pelas escolas dada toda a disrupção que causa, talvez pelos mais pequeninos, que são também quem mais beneficia de estar no meio escolar, mas essas decisões tem de ser tomadas de forma faseada. A lógica é um pouco a da reversão, agora dependerá de aspetos mais mais concretos em algumas atividades que possam ir ser retomadas. E, provavelmente, com uma abordagem regional."

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