Depois de viagem espacial, gémeos Kelly começam nova missão

Astronauta bateu recorde de permanência em órbita para a NASA. Agora, Scott e Mark vão ser estudados ao pormenor, para se perceber melhor os efeitos de passar 340 dias no espaço

O astronauta norte-americano Scott Kelly regressou ontem à Terra, depois de uma missão em órbita em que estabeleceu um recorde e deixou algumas marcas pessoais. Agora, ele e o irmão gémeo Mark, também um antigo astronauta da NASA, vão embarcar na segunda fase da viagem: a do estudo detalhado da fisiologia, genética e outros detalhes de saúde de cada um deles, para se perceber o que a longa permanência no espaço faz realmente ao organismo humano. Para a agência espacial dos Estados Unidos esta é uma oportunidade única para preparar as futuras viagens tripuladas a Marte, e mais além.

Ao fim de quase um ano na estação espacial internacional ISS, Scott Kelly tornou-se o astronauta da NASA com mais tempo de permanência em órbita - 340 dias certos -, mas o comandante da missão número 46 da NASA à ISS não se ficou por aí. Kelly foi também durante este ano um dos fotógrafos espaciais mais ativos e, sobretudo, deu um contributo para as futuras missões tripuladas a outros planetas do sistema solar, porque se submeteu regularmente a uma monitorização detalhada de todos os seus parâmetros fisiológicos.

Cá em baixo, a seguir a par e passo a missão de Scott, o seu gémeo Mark submeteu-se com a mesma regularidade a análises e estudos idênticos, o que vai permitir agora fazer uma comparação rigorosa da evolução dos parâmetros fisiológicos entre ambos, depois de quase um ano de vivências radicalmente opostas.

Poucas horas antes do regresso do astronauta Scott Kelly e do cosmonauta russo Mikhail Kornienko à Terra - a Soyuz que os transportava tocou o solo numa zona remota do Cazaquistão, ao início da manhã de ontem, pela hora local -, a NASA TV iniciou uma transmissão especial para acompanhar a chegada. Entrevistado para a emissão, Mark Kelly mostrou-se radiante com o regresso do irmão e falou da experiência em que ambos estão a participar, a Twins Study (estudo de gémeos).

"Vieram cá a casa regularmente recolher amostras de sangue e de saliva para análise, e eu próprio fui também por várias vezes a Houston, para fazer outro tipo de exames, como ressonâncias magnéticas", explicou Mark Kelly, que se mostrou "totalmente disponível para continuar a colaborar com a NASA nos próximos meses ou anos, se for necessário", de forma a prosseguir este es-tudo.

Ao longo desta missão na ISS, Scott Kelly esteve sujeito às condições duras da microgravidade em órbita, que causa perda acentuada de massa muscular e óssea, interfere com o metabolismo e sujeita os astronautas a maiores níveis de radiação cósmica. Todos esses efeitos foram regularmente monitorizados durante os 340 dias da missão, enquanto o gémeo em Terra foi também observado, como ele próprio explicou.

Uma das particularidades únicas do Twins Study é a que decorre de Scott e Mark terem um genoma idêntico por serem gémeos monozigóticos, ou verdadeiros, como se diz vulgarmente. É essa particularidade que empresta maior valor ao estudo: ela permitirá agora uma comparação meticulosa do ADN de cada um dos gémeos, para identificar, em eventuais diferenças, a marca do espaço no ADN.

Saudando o regresso do astronauta à Terra, o patrão da NASA, Charles Bolden, sublinhou que "Scott se tornou o primeiro astronauta americano a permanecer um ano no espaço e, ao fazê-lo, permitiu-nos dar um passo de gigante para podermos imprimir um dia as nossas pegadas em Marte", afirmou Bolden.

No âmbito do programa específico de preparação para essa futura jornada ao Planeta Vermelho, além do estudo que envolve a comparação dos dois gémeos, Scott e a sua tripulação realizaram durante este período de 340 dias mais de 400 experiências para determinar os efeitos da longa permanência em órbita na performance do corpo humano, incluindo os efeitos da micro- gravidade, das condições de grande isolamento e do stress que ele provoca, bem como as consequências físicas, fisiológicas e genéticas da maior exposição à radiação cósmica. Além do trabalho intenso, Scott ainda teve tempo para captar mais de mil fotografias, que foi publicando no Twitter, e que mostram a enorme beleza e diversidade da Terra.

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