De turbante e unhas pintadas na Pediatria do IPO

As paredes do hospital de dia contam histórias "de pernas para o ar", como lhes chama a pintora. Ontem houve discursos (breves) e doutores palhaços para agradecer a quem ofereceu o valor das obras

Leonor, nove anos, não podia ser mais coquette. Com o seu turbante azul elétrico - tem muitos de outras cores - fala ao telemóvel numa atitude de diva. Sentada numa das 12 cadeiras de tratamentos do hospital de dia, ela espera mais uma sessão de quimioterapia por causa de um tumor renal. Antes, tem de ir um instante à sala do lado, para, com Beatriz, doze anos, oferecer pinturas - uma fada voadora e um barco de papel a navegar - a quem financiou os 100 mil euros de obras de renovação do pavilhão. Anabela Mota, a artista plástica que faz voluntariado há onze anos na casa, faz-lhes companhia.

A conclusão da obra era o mote da pequena cerimónia, tornada grandiosa pelo Dr. Chocapic e pelo Dr. Felix Férias, profissionais da Operação Nariz Vermelho vão duas vezes por semana à Pediatria do IPO. Os quadros foram para Ana Garcia Martins, vinda do planeta (do blogue) A Pipoca Mais Doce, que angariou 51 700 euros numa maratona corrida (num tempo "miserável") em setembro de 2015, e também para Inês Oom, administradora do banco Santander Totta. Juntando donativos de particulares, os 100 mil euros foram atingidos.

Para Francisco Ramos, presidente do hospital, os donativos externos são muito importantes porque o conforto não é a primeira prioridade dos orçamentos oficiais. "Estamos sempre confrontados com a necessidade de mais um aparelho, mais um investimento. Ainda assim, nos últimos quatro anos modernizámos todos os espaços de internamento, e todos os quartos têm agora casa de banho - só havia duas por piso." A preparar a assinatura, na próxima segunda-feira, de um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa para a construção do novo edifício para os serviços de ambulatório no recinto do IPO - no valor de 30 milhões de euros - Francisco Ramos revela que as doações atingem anualmente 500 mil euros. Mas "o IPO gasta 120 milhões ..."

Filomena Pereira (ver entrevista ao lado), diretora do serviço de Pediatria, contracena com facilidade com os doutores palhaços, está habituada. Mas não deixa de realçar: "Precisamos sempre de mais". Na sala de tratamentos, sublinha, podem estar 50 pessoas - doze doentes, um ou dois familiares de cada um, o pessoal.

Inês Oom trouxe 30 mil euros, uma parte do qual (1800 euros) foi doada pelos trabalhadores do Santander. A venda de etiquetas para presentes de Natal com desenhos feitos por crianças do IPO ajudou a juntar estes valores.

Terminada a cerimónia, Leonor voltou para a sua cadeira na sala de tratamentos. Não se mostra incomodada, tem um cateter já colocado. Terminou ontem o quarto de onze ciclos - cada um dura quatro horas e prolonga-se por três dias. Alterna este com outro que implica três dias de internamento.

Ana Veloso, a mãe, e Arminda Monteiro, avó paterna, não escondem como a vida se complicou. "É um turbilhão", diz a avó. Mas estão confiantes porque, explica Ana, 38 anos, farmacêutica, "esta doença tem uma taxa de cura de 82 por cento". O tumor renal foi diagnosticado em setembro e atacado com quatro sessões de quimioterapia. Seguiu-se uma cirurgia que retirou o tumor e o rim direito, e radioterapia. "Sofre muito com os enjoos e nunca anda de cabeça descoberta, mesmo em casa, porque não quer que os irmãos - dois gémeos de seis anos - a vejam. Perder o cabelo e separar-se dos amigos são o que mais a perturba, segundo a mãe.

Leonor só de vez em quando pode ir às aulas do 4.º ano mas a mãe conta que o Colégio Valsassina, em Lisboa, tem estado muito envolvido: "Os amigos são muito protetores, estão a aprender a lidar com a diferença, com um grande trabalho da professora." Com apoio familiar, Ana consegue ir trabalhar mas tenta estar presente nos momentos mais delicados - ela ou o marido.

Beatriz tem as unhas pintadas de azul, rosa e vermelho. Quem pintou? "Fui eu". Não frequenta a escola - está no 5.º ano - porque tem o sistema imunitário enfraquecido. Foi-lhe diagnosticada em julho uma leucemia. "Apareceram-lhe umas manchas nas pernas e pensou-se que era uma alergia", conta Nuno Louro. Foi para a urgência pediátrica do Hospital de Évora porque os pais estranharam o excessivo fluxo menstrual. Fez lá os primeiros exames e foi transferida para o IPO, onde o diagnóstico foi revelado aos pais. "Tiraram-me o tapete de baixo dos pés naquele dia", diz o pai. A vida passou a ser um vai vem entre Montemor-o-Novo e Lisboa. Com a mãe, vai organizando o apoio à outra filha - gémea de Beatriz -, de modo a poder trabalhar num centro de inspeções de automóveis em Alcochete. A mãe está desempregada, garante a maior parte da presença em casa. Beatriz estava, na manhã de ontem, a cumprir o ritual: análises pela manhã, consulta à tarde e depois tratamento. "Parece-me que está a correr bem com o novo medicamento, depois de ter reagido mal a uma primeira tentativa", conta o pai. Na cadeira ao lado está a pequenina Vitória, de dois anos e um mês, a fazer o mesmo tratamento de Beatriz.

Anabela Mota é artista plástica, professora, e reserva as quintas-feiras para a Pediatria do IPO. É voluntária há onze anos e põe literalmente as crianças, os familiares e os enfermeiros a pintar. Desenha os contornos e distribui "trabalho. Não esquece Rafael. Anabela fez um desenho no quarto dele, em casa, mas o rapaz não conseguiu terminar o trabalho e então distribuiu tarefas pelos irmãos. A mãe convidou-a para ir ver a parede do quarto, já sem Rafael. "O que é que uma pessoa pode pedir mais? É uma bênção, uma graça!", diz a pintora. É duro? "Eu não aguento, todos os dias não aguento, e volto sempre".

E os doutores palhaços? Responde Felix Férias, ou Andreas Piper, alemão, 50 anos: "Quer saber com estamos ligados a eles? Já fomos convidados para assistir a funerais de alguns meninos. Pode haver uma ligação maior?".

Mais Notícias

Outras Notícias GMG