De Paris às Caraíbas, o café que enfrentou piratas, sabotadores e temporais

O cafeeiro encontrou em dois franceses do séc. XVIII oportunidade para conquistar novos territórios. Antoine de Jussieu fez a classificação taxonómica da planta, Gabriel-Mathieu de Clieu levou-a até à Martinica, nas Antilhas.

A 26 de julho de 1998, o astrónomo belga Eric Walter Elst apontou aos céus setentrionais, tal como nas noites anteriores, o telescópio instalado no cimo de La Silla, montanha que bordeja o deserto de Atacama, no Chile. Longe, entre as órbitas dos planetas Marte e Júpiter, Elst descortinou um corpo celeste com perto de 11 km de diâmetro. A massa rochosa, entre milhões de outras tantas, executava uma lenta dança à boleia do Cinturão de Asteroides que habita o nosso sistema solar.

Na noite de inverno austral, o astrónomo europeu tornou-se o primeiro ser humano a descortinar o asteroide, massa solitária, com os vizinhos mais próximos instalados a cinco milhões de km. Destino comum a todos eles, a partilha de idade robusta, perto de 4500 milhões de anos. O pequeno corpo rochoso descoberto por Elst recebeu a sua designação numerada: 9470 Jussieu e com este batismo a homenagem à família do francês do século XVIII que se notabilizou como médico, botânico e naturalista.

Antoine de Jussieu, nascido em 1686, entregou o seu espírito crítico e curioso à ciência e viagens. Em 1716, encontramo-lo na Península Ibérica em expedição de recolha de flora do sul da Europa. Jussieu viajou por Portugal e Espanha para, mais tarde, entregar o produto da expedição aos cuidados do parisiense Jardim das Plantas, então também denominado Jardim do Rei. A instituição fundada em 1635 e aberta ao público cinco anos depois, acolhia nas estufas mandadas erigir por Luís XIV, exemplares botânicos de paragens exóticas. A par de árvores de pistácio, provenientes do sudoeste asiático, o microcosmos ao abrigo das estufas parisienses acolhia cedros do Líbano, bordos de Creta e, desde o início do século XVIII, um único pé de uma planta que, há muito, inebriava inúmeras culturas. No Jardim das Plantas, Jussieu rendeu a sua atenção ao cafeeiro cultivado e cuidado a partir de sementes obtidas no Jardim Botânico de Amesterdão, na Holanda.

Aos compêndios da história da botânica, o cientista francês, entregaria, em 1716, a primeira classificação taxonómica para o cafeeiro. A partir daquele ano, a planta com berço na Etiópia, em África, passava a ter a designação científica de Jasminum arabicanum, embora em 1737, o botânico e zoólogo sueco, Carl Lineau tenha reclassificado o cafeeiro, individualizando-a no género Coffea arábica.

Para os franceses, tal como para os vizinhos holandeses, mas também para os ingleses e portugueses, o café não era, na época, um exotismo apenas estimado no ambiente controlado das estufas. A Europa havia-se rendido aos grãos da planta que, da Etiópia viajou para a Península Arábica e aí cultivada desde o século I d.C. Consumido em grão, o café passou, na Pérsia do século XVI, a ser torrado e dissolvido em água, degustado como bebida. O velho continente, através do porto de Veneza, provou o café a partir de 1530, em Inglaterra a partir de 1652 e França, 20 anos depois. Contudo, o cultivo do cafeeiro mantinha-se em redutos controlados por povos árabes em regiões de clima quente e húmido.

Em 1616, o desenho mundial da geografia de plantação do café mudou. Os holandeses ganharam a disputa para obter pés de cafeeiro aos árabes. A planta do café, então em mãos holandesas, vingou em estufas e viajou para Oriente. Em 1699, a Holanda alargou o cultivo do cafeeiro à costa do Malabar (Índia) e à ilha de Java (Indonésia).

Em França, o cuidado que Antoine Jussieu entregou ao cafeeiro, encontrou empatia no conterrâneo Gabriel-Mathieu de Clieu. O oficial da marinha francesa protagonizaria episódio singular numa das primeiras travessias atlânticas da planta do café. Governador de Guadalupe (Caraíbas) de 1737 a 1752, De Clieu encetou na década de 1720 a aventura do transporte de dois frágeis pés de cafeeiro desde Paris até à ilha de Martinica, possessão francesa no Mar das Caraíbas.

Contrariando a vontade do monarca Luís XV, com a cumplicidade de um boticário do Jardim das Plantas, Gabriel-Mathieu embarcou clandestinamente os pés de cafeeiro na corveta Dromadaire. Uma arca de vidro protegia as plantas do clima ríspido. Ao longo da viagem, o oficial francês compreendeu que preservar as plantas lhe exigiria mais do que o ambiente controlado da pequena estufa que levava entre mãos. Na costa tunisina, a corveta sofreu o ataque de piratas, valendo à tripulação a bateria de 24 canhões que repudiou a investida. A bordo, De Clieu via-se a braços com a obstinação de um holandês, determinado em boicotar o transporte. Cada viagem do café para novos territórios por parte de potências europeias, constituía um abalo do monopólio de cultivo da planta detido pelos holandeses. Já ao largo de Martinica, um temporal tropical obrigou a tripulação da Dromadaire a desfazer-se de parte da carga, o que incluiu água potável, imprescindível à sobrevivência dos pés de cafeeiro. Não obstante, a epopeia do oficial francês foi bem-sucedida. Gabriel-Mathieu entregou o café ao clima tropical de Martinica, onde vingou. Em 1730, a Martinica iniciou a exportação de grãos de café para a metrópole. Meio século depois, estima-se que o território contasse com 18 a 19 milhões de pés de café.

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