Da Síria, com amor

Exclusivo DN/The New York Times

A princípio, tudo o que sabia era que uma família de refugiados estava a caminho do nosso bairro em Atlanta. Tinha visto uma publicação de um grupo do Facebook em que se pedia ajuda para limpar o apartamento que eles iriam ocupar, e eu ofereci a minha família para a tarefa.

Secreta e irracionalmente, eu já os amava. Amava-os da maneira como se ama um futuro cônjuge que imaginamos para nós ou como amamos os nossos filhos antes de eles criarem raízes no nosso corpo e no nosso coração. Eram pessoas à procura de segurança, tal como os meus antepassados húngaros tinham tentado fazer na década de 1930 antes de serem levados para campos de concentração.

Com a mera menção da existência desta família, um misto de preocupação e de esperança começou a nascer dentro de mim. E o que será isso, senão os sinais do amor?

Lavei o frigorífico com lixívia e tirei migalhas das borrachas com um palito. O meu filho de 10 anos e a minha filha de 5 varreram o cotão e limparam os rodapés enquanto o meu marido tratava da casa de banho. Com os voluntários da igreja copatrocinadora, a minha família ateia limpou o apartamento de fotografias abandonadas e ímanes de frigorífico até o deixar neutro, sóbrio, um lugar de refúgio.

Mais tarde, ficámos a saber pela organização patrocinadora, a New American Pathways, que eles eram da Síria, uma família de quatro pessoas com dois filhos em idade escolar. Chegariam dentro de duas semanas.

À medida que a data se aproximava, pensei no frigorífico vazio, a cheirar a lixívia, e nos armários limpos mas desguarnecidos e fiz uma publicação no Facebook a pedir o básico.

As encomendas que começavam a chegar a minha casa diariamente eram um linimento que me protegia da indignidade crescente da campanha presidencial. "Não vos consigo ouvir", murmurava enquanto a minha conta de PayPal crescia com dinheiro destinado a comida, diversões e materiais educativos.
Uma doação etiquetada "Para os nossos amigos sírios" foi bloqueada como sendo suspeita e eu senti-me enfurecida. Então, o doador tentou "Para os nossos amigos" e a encomenda chegou. "Nós estamos a passar por cima de vocês", sussurrei para os nossos guardiães eletrónicos.

Fui com a minha vizinha ao mercado internacional com uma lista de mercearias que tínhamos tirado da net. Ela tem um sotaque do Sul, crianças loiras e um marido que lança bolas de basebol na rua ao anoitecer. Ali estávamos nós a comprar café turco, feijões secos, água de flor de laranjeira e pepinos persas.Publiquei fotografias do nosso carrinho de compras e mais doações chegaram.Fui a um grande armazém com os meus filhos e eles ajudaram-me a escolher um teclado elétrico de brincar, materiais de desenho e pintura, giz e plantas em vasos.

À porta de nossa casa, os nossos vizinhos deixavam animais de peluche, lençóis, panelas e talheres. Enchemos o apartamento com todas as coisas que esperávamos que passassem a nossa mensagem coletiva: vocês são bem-vindos aqui.

Enquanto limpávamos e fazíamos compras, os membros da família eram entrevistados e vacinados, na preparação da viagem para os Estados Unidos como refugiados. Soubemos os seus nomes e idades. O pai e a mãe, de 36 e 28 anos, tinham uma filha de 11 e um filho de 9. Anos antes, tinham deixado a Síria a pé, sem nada, e ido para a Jordânia. Eles não faziam ideia de que haveria alguém aqui para os receber.
No dia em que chegaram, cumprimentámo-los com uma frase que tínhamos decorado: "Ahlan wa sahlan", o que significa "Bem--vindos". Eles cumprimentaram-nos com uma palavra que também tinham memorizado: "Olá."

Mostrei-lhes como trabalhar com o fogão, o forno e a máquina de lavar louça. Eles sorriram, inclinando a cabeça. A mãe, Ruwaida, parecia uma mulher que, depois de passar quatro anos no limbo, tinha voado durante a noite de um país para outro para se ver num apartamento, em mais uma cidade estrangeira, no meio de estranhos.

"Quanto tempo podemos ficar?", perguntou ao tradutor.

"Um ano no apartamento, de graça", disse ele.

Ela respirou fundo de alegria e alívio. No chão, duas malas pretas continham todos os seus pertences.
De poucos em poucos dias, eu ia lá a casa com mais coisas oferecidas. À noite, lia sobre o islão até adormecer.

Eles aprenderam a dizer "obrigado" e ensinaram-me o seu equivalente em árabe, "shukran". Nós éramos todos como crianças pequenas no que respeitava à linguagem, conseguindo reunir talvez 20 palavras entre nós.

Levei-lhes medicamentos de venda livre, pensos rápidos, um termómetro e lancheiras. O meu telefone estava cheio de notas: impermeáveis, lanterna, papel higiénico. Procurei no Facebook outras pessoas que estivessem a ajudar refugiados, pessoas gentis que responderam a todas as minhas perguntas. Nawara, uma falante de árabe de Denver, deu-me o seu número de telemóvel e, apesar da nossa diferença horária, disse-me para lhe mandar uma mensagem sempre que precisasse de uma tradução.

A família acabou por receber um telemóvel e eu comecei a receber mensagens em árabe que diziam "bem-vinda", percebi que eram convites para os visitar. E assim fiz. Enquanto falava ao telefone com Ruwaida e o seu marido, Khaled, para dizer as coisas mais simples, o filho deles, Mohammad, e a filha, Zainab, brincavam no pátio.

Muitas vezes abanávamos a cabeça vigorosamente, tentando impedir a voz do tradutor robótico de transmitir alguma interpretação errada: "Não consigo pensar na palavra" passava a "não consigo pensar na lavra". Aprendemos a ser pacientes.

Comecei a aparecer regularmente, sempre com alguma coisa nas mãos, conseguindo apaziguar os meus receios muito americanos de aparecer sem aviso. Levei-os à piscina e ofereci a Zainab um body cor-de-rosa de manga comprida e uns collants sem pés da mesma cor, que tinha comprado quando percebi, em pânico, que os nossos fatos de banho não seriam culturalmente apropriados.

Ela pegou na roupa, hesitante. O fato de licra parecia tão pequeno. Mas quando ela saiu da casa de banho (parecendo uma tira de pastilha elástica cor-de-rosa) sorria abertamente. Eu não tinha percebido o quanto ela estava desnutrida, com as costelas e os quadris salientes. Perguntei-me se os pais permitiriam que ela fosse assim, não totalmente coberta. Mas Khaled, com os calções do meu marido vestidos, fez um sorridente sinal de aprovação e lá fomos nós.

Quando Zainab desenvolveu uma tosse persistente, eu falei com o coordenador do copatrocínio da igreja sobre o aspeto dela, sobre como ela andava a alimentar-se, e conversámos sobre levá-la ao médico com urgência. Ele e eu funcionávamos como ex-cônjuges amigáveis, resolvendo em conjunto os detalhes das vidas daqueles de quem gostávamos.

Quando o coordenador da igreja ligou para me dizer que Khaled havia recebido uma mensagem urgente de um médico dizendo que ele poderia ter uma hemorragia interna, o meu marido levou-o ao hospital, onde fizeram amizade com uma família que falava árabe e descobriram uma hipótese de um emprego num restaurante.

Depois de cinco horas na sala de espera, com Khaled a insistir que se sentia bem, um médico finalmente tirou-lhe sangue para análise. Só algumas semanas depois ficámos a saber que a chamada tinha sido um erro administrativo. Khaled perguntou se aquilo acontecia muito por aqui e eu respondi: "Não. Você é especial." Ele riu-se.

Foi a primeira vez que o humor tinha passado na tradução, a primeira vez que a nossa comunicação passou do nível mais básico.

Uma noite, o telemóvel do meu marido começou a receber mensagens urgentes da sua mãe e das suas irmãs enquanto dormíamos: o pai, um imigrante indiano, tinha ficado gravemente doente durante uma visita ao seu país de origem. Discutimos os prós e os contras de o meu marido lá ir até que o telefone tocou: as coisas estavam a ficar piores. E ele foi.

Na noite seguinte, eu estava sozinha e aterrorizada a dar banho à minha filha quando Khaled me enviou uma mensagem. Ele perguntava porque não tinha eu ido visitá--los nos últimos dois dias.

Contei-lhe tudo, passando o meu texto pelo Google Translate, e, em seguida, copiando o resultado para uma mensagem. Disse-lhe que estava triste e assustada. A minha mãe tinha morrido. O meu pai não fazia parte da minha vida há anos. O meu sogro era tudo para mim, e agora eu poderia perdê-lo também. O meu marido estava do outro lado do oceano seguindo uma ambulância de um hospital para outro, pensando: "Vá depressa", "Fica bem" e "Por favor".

Eu sabia que a fraca tradução seria difícil para ele entender, mas eu precisava de dizer tudo aquilo, mesmo que em árabe. E de alguma forma ele entendeu. Enviou-me orações, palavras gentis.

Eu respondi, "Obrigada", quando o que eu queria realmente dizer era: "Eu estou tão grata por ter a sua família do outro lado deste telefone." Ele disse, "Muito obrigado", o que eu entendi como: "Nós estamos tão gratos por estarmos aqui para si."

Um dia, passei por casa deles quando uma senhora de língua árabe, membro da igreja, estava de visita. Apesar de a minha amiga de Denver, Nawara, ter sido maravilhosa a esclarecer as nossas falhas de comunicação, nunca tínhamos tido o luxo de um tradutor em pessoa.

Ruwaida serviu biscoitos enquanto Khaled preparava o café. O ar cheirava a cardamomo. A paroquiana traduziu informações sobre cartões médicos e marcações, almoços escolares e aulas de inglês. E então Khaled pediu-lhe para traduzir uma mensagem para mim.

Ela ouviu até ele ter terminado. Depois, virou-se para mim e disse: "Quando saímos da Síria, deixámos todos os que amávamos. Viemos para aqui sem família. Mesmo que venha a nossa casa sem nada nas mãos, ficamos felizes em vê-la. Vocês são a nossa família agora."

Amanda Avutu é escritora e vive em Atlanta.
Exclusivo DN/The New York Times

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