Da inglesa à californiana: as variantes que ameaçam Portugal

Entre as novas variantes que estão a preocupar a comunidade científica internacional, a inglesa é a mais presente em Portugal, podendo representar já 43% dos casos. Mas a mais espalhada ainda é uma espanhola e há uma semelhante à californiana a crescer.

O alerta é global. O aparecimento de novas variantes do SARS-CoV-2 veio turvar o horizonte da pandemia de covid-19 numa altura em que o mundo se agarrava à esperança das vacinas como uma saída limpa para a crise pandémica. À variante britânica somaram-se a sul-africana, a brasileira, a californiana... Todas elas com importantes mutações genéticas que podem tornar o vírus mais contagioso ou mais resistente - ou, pior ainda, ambas as coisas.

Em Portugal, a ameaça principal parece residir, nesta altura, na variante inglesa, que os especialistas acreditam estar por trás da mortífera terceira vaga que colocou o país, em janeiro, num indesejado topo mundial de novos casos e mortes - e obrigou de novo a confinamento quase total.

Mas o último relatório do Instituto Nacional Doutor Ricardo Jorge (INSA) sobre a diversidade genética do vírus em Portugal mostrou também um "surpreendente" aumento de casos de uma variante familiar da californiana e, na última quarta-feira, ficou a saber-se que há dois casos suspeitos de presença da chamada variante brasileira cujas amostras estão ainda a ser analisadas pelo INSA e os resultados devem ser conhecidos na próxima semana - apesar de João Paulo Gomes, responsável do instituto, já ter admitido que a suspeita "tem bastante robustez".

Qual a variante mais presente em Portugal?

Apesar das preocupações crescentes com as novas variantes, em Portugal a estirpe mais prevalente continua a ser a A222V, que, segundo o último relatório do INSA (ver caixa ao lado), foi detetada em 54,7% das 532 amostras sequenciadas na semana de 10 a 19 de janeiro. Esta é uma variante que teve origem em Espanha e se espalhou internacionalmente a larga escala durante os meses de verão, provavelmente associada às deslocações de férias. Uma variante com esta mutação A222V esteve já na origem de um caso de reinfeção em Hong Kong, mas a mutação não está associada a uma maior resistência a anticorpos ou a especial carga de contágio.

Quais as variantes mais preocupantes? E porquê?

Mais preocupantes para a comunidade científica são "as variantes inglesa, brasileira e sul-africana", admite ao DN Daniela Fonseca e Silva, patologista clínica e coordenadora responsável pelo laboratório de testagem de covid-19 no IPO do Porto (que já recolheu mais de 39 mil amostras desde março passado). "Essas três estirpes têm em comum a mutação na posição 501", explica, referindo-se à mutação (N501Y) verificada no domínio de ligação (RBD) da proteína spike do vírus ao recetor ACE2 das células hospedeiras, permitindo, no fundo, que o vírus se agarre melhor às células humanas.

Em crescimento exponencial, a variante inglesa, conhecida como linhagem B.1.1.7, estava presente em 16% dos casos sequenciados em Portugal na segunda semana de janeiro, mas os modelos matemáticos do INSA estimam poder "representar 43% dos novos casos no país", como revelou o primeiro-ministro, António Costa, na última quinta-feira. Ainda assim, uma quebra face à projeção anterior do instituto, que era de 60% para esta semana - uma redução atribuída às "medidas de confinamento entretanto adotadas, como o fecho das escolas", diz fonte do Instituto Ricardo Jorge.

No IPO do Porto, onde o laboratório de Daniela Fonseca e Silva usa os chamados testes PCR-RT, mesmo sem uma sequenciação genómica completa (essa fica a cargo do INSA, para onde são enviadas as amostras suspeitas), foi possível observar a tendência de crescimento da variante inglesa, "devido a uma das suas mutações características, a deleção do gene S, um dos quatro genes analisados pelos nossos testes", refere a patologista, que dá conta também de "uma mais alta carga viral".

Ora, à mutação 501 que partilham com a variante inglesa, as "variantes sul-africana e brasileira acrescentam ainda a mutação E484K, que é uma mutação no domínio de ligação ao recetor que permite que o vírus não seja detetado, ou não tão facilmente, e possa assim resistir à ação de anticorpos neutralizantes", resume.

Em Portugal, a variante sul-africana (linhagem B.1.351) já foi detetada em dois casos, enquanto a brasileira (P.1) aguarda agora o resultado da sequenciação de duas amostras suspeitas. Mas o último relatório do Instituto Ricardo Jorge revelou a presença de uma variante "familiar" da brasileira, com cinco casos dessa que é conhecida como linhagem P.2, que apresenta a tal mutação E484K que oferece maior resistência à ação dos anticorpos.

"Surpreendente", nas palavras do próprio responsável do INSA João Paulo Gomes, foi o surgimento de uma variante "prima" de outra que se tem espalhado pela Califórnia. Caracteriza-se por uma mutação denominada L452R que aumenta a capacidade de ligação às células humanas. Além disso, encontra-se precisamente no local onde decorre a ligação entre a proteína spike (coroa) do vírus e os recetores das células e, ainda por cima, "está associada à falha na ligação com os nossos anticorpos", disse João Paulo Gomes na última reunião do Infarmed. Estava presente em 6,8% das amostras de 10 a 19 de janeiro.

Podem interferir com a eficácia das vacinas?

"Essa é a maior preocupação em relação a estas novas estirpes", reconhece Daniela Fonseca e Silva. "Principalmente com a sul-africana, em relação à qual alguns estudos parecem sugerir menos eficácia das vacinas." Assim, os doentes que se recuperam de outras variantes e aqueles que recebem as vacinas podem não ser capazes de se defender da B.1.351 porque esta mutação do vírus parece "enganar" melhor os anticorpos. Os dados disponíveis ainda são escassos, "seja ao nível de eficácia das vacinas face a essas variantes seja até ao nível da própria duração da imunidade nas pessoas infetadas e vacinadas", aponta a patologista do IPO Porto.

O que ainda não se sabe também, lembra Daniela Silva, é se a tão ambicionada imunidade de grupo é alcançável e qual a percentagem da população que precisa de ser vacinada para atingir esse objetivo. "Este vírus não é igual a outros e a vacina por si só pode não impedir que alguém possa ser portador ou infetado. O mais provável é que as vacinas possam evitar situações mais graves da doença, mas não mais do que isso", refere.

Posição, de resto, veiculada ontem também pela própria Organização Mundial da Saúde, cuja cientista-chefe, a indiana Soumya Swaminathan, admitiu que mesmo após a vacinação "pode haver infeção, mas com uma carga viral inferior". Por isso, alerta a responsável pelo laboratório de testagem do IPO Porto, "continuará a ser importante as pessoas, mesmo vacinadas, continuarem a adotar medidas de proteção, como o uso de máscara, o distanciamento físico, a etiqueta respiratória e a lavagem frequente das mãos".

De resto, admite Daniela Fonseca e Silva, "é muito provável que a covid-19 se torne uma doença endémica e que tenhamos de conviver com ela como fazemos atualmente com a gripe". Importante é reduzir ao mínimo possível a transmissão, pois só assim se podem "limitar as mutações naturais do vírus, que não são mais do que formas que ele encontra para contornar as defesas que vamos formando".

Raio-x às principais variantes no país

A222V Presente em 54,7% das amostras analisadas pelo Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge (INSA) na semana de 10 a 19 de janeiro (são os dados mais recentes), esta variante teve origem em Espanha em meados de junho e revelou elevada disseminação na Europa, provavelmente devido às viagens de verão. Já foi associada a um caso de reinfeção em Hong Kong.

N501Y.V1 (linhagem B.1.1.7) A chamada variante inglesa, detetada em setembro no Reino Unido, estava presente em 16% das amostras do INSA reportadas no último relatório de diversidade genética. Apresenta várias mutações na proteína spike (coroa) que podem reforçar a capacidade do vírus em ligar-se ao recetor ACE2 das células. Será até 50% mais transmissível, segundo estudos disponíveis.

S477N (linhagem B.1.160) Representando 13,2% das amostras na semana de 10 a 19 de janeiro, esta variante tem considerável disseminação internacional (da Austrália a vários países europeus). A mutação S477N na spike parece aumentar a ligação às células do hospedeiro.
L452R Com 57 casos detetados até 19 de janeiro, teve evolução "surpreendente" e representava 6,8% das amostras nessa data. É considerada uma variante prima da que se tem espalhado na Califórnia (CAL.20C). A mutação L452R na spike pode reforçar a ligação ao recetor e pode oferecer também maior resistência a anticorpos neutralizantes.

N501Y.V2 + E484K (linhagem B.1.351) A variante sul-africana foi detetada até agora em duas amostras em Portugal. A comunidade científica tem revelado preocupações sobre esta variante porque conjuga a mutação N501Y, associada a eventual maior transmissão, com a E484K, que parece ajudar o vírus a escapar a alguns anticorpos.

E484K (linhagem P.2) É uma parente da variante brasileira mais conhecida (P.1) e, apesar de aparentemente menos grave do que esta, contém a mutação E484K, que oferece maior resistência a anticorpos. Associada a alguns casos de reinfeção no Brasil, foi detetada em cinco amostras em Portugal.

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