Curso de sobrevivência na lua-de-mel ajuda no casamento

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Ao fim de quatro dias de lua-de-mel, o meu marido e eu enfrentámos o fim do nosso casamento, o fim das nossas vidas. Hematomas enormes marcavam as minhas coxas e canelas. Uma folha corrosiva tinha queimado um triângulo de fogo no pescoço de Jeremy. Os mosquitos competiam pelo espaço na nossa pele cheia de pústulas.

Casei-me com um canadiano musculado, um naturalista amador de espírito aventureiro disfarçado por uma licenciatura em Direito e um trabalho das 9 às 21 em Times Square. No início da nossa relação tive um vislumbre do que se escondia atrás dessa fachada quando vi o seu iPhone cheio de fotografias em grande plano de insetos bizarros e répteis obscuros. Mais tarde descobri que as suas pesquisas recentes no Google incluíam o "grito do macaco-prego-branco" e os "hábitos de acasalamento dos tardígrados".

A nossa lua-de-mel começou com um acampamento de três dias na floresta amazónica. Jeremy reservou a expedição através de uma agência nos arredores de Iquitos, no Peru, o único operador turístico que encontrou que oferecia dormidas na floresta. Eu concordei, porque seria uma oportunidade para ver Jeremy num meio selvagem, o seu ambiente mais amado. Seria como visitarmos juntos a sua cidade natal pela primeira vez.

Voámos para Lima e, em seguida, para Iquitos, onde nos encontrámos com o nosso guia e viajámos com ele de barco até uma pequena enseada numa margem do rio Amazonas. O alojamento em mau estado estava parcialmente submerso, vítima das inundações invulgarmente violentas daquela estação. A subida das águas tinha feito desaparecer também o nosso trilho. Por insistência de Jeremy, o operador contratou um caçador local, Arnold, para nos conduzir através do território desconhecido, além do guia e do rastreador da agência. Arnold vivia sozinho na selva durante semanas seguidas. A vegetação imensa e os insetos de grande porte eram o seu território; ele guiava-nos como se estivesse no seu quintal.

Bastava olhar para nós e para as nossas mochilas Osprey e Kelty para se perceber que éramos amadores. O guia e o rastreador da agência usavam uns sacos gigantes pendurados nas costas, enquanto Arnold transportava apenas uma mochila de menina, de poliéster cor-de-rosa.

Admirei Jeremy na sua indumentária para a selva. As calças cobertas de sujidade incrustada estavam displicentemente entaladas dentro das botas de borracha de cano alto. Eu conseguia ver o brilho da sua aliança de casamento aparecer e desaparecer com o balanço das mãos, uma lembrança da festa extremamente alegre e feliz que tínhamos dado em Boston. Percorrendo os trilhos atrás dele, eu usava um chapéu de abas moles azul-escuro que eu pretendia que me desse um ar descontraído mas que, pelo contrário, me dava essencialmente o aspeto de uma "jardineira de meia-idade". Depois de cinco horas de caminhada, chegámos a uma clareira. Os nossos companheiros trabalharam rapidamente com as facas de mato e construíram um abrigo de troncos de árvores, redes e lonas. Era apenas o suficiente para nos proteger da chuva e dos mosquitos, das formigas--cabo-verde, dos escorpiões, das cobras-corais e da cacofonia de outras criaturas perigosas que fascinavam Jeremy e me aterrorizavam.

A agência tinha enviado os nossos guias para o terreno com rações mínimas: um saco de arroz, duas latas de atum e uma dúzia de ovos (dez deles partidos). Para complementar as provisões partimos para uma caçada noturna. Os nossos guias encontraram uma ave a dormir numa árvore com vários metros de altura, depois cortaram uma segunda árvore e usaram-na para derrubar a ave do seu poleiro. Jantar.

Jeremy acordou a meio da noite para fazer chichi. Apesar dos nossos esforços para manter o mosquiteiro fechado, metade da selva voou lá para dentro no momento em que uma ponta da rede foi levantada. Jeremy voltou a entrar, bexiga por aliviar, para começar a matar a nuvem de insetos, um por um.

No dia seguinte, Arnold estava perdido. Para evitar a inundação tínhamos deixado o trilho e tínhamo-lo seguido pelo sertão pantanoso, onde cada passo parecia idêntico ao anterior.

Quase sem comida e dependentes dos nossos confundidos guias para sobreviver, sugerimos cortar o caminho em direção a sul até chegarmos ao rio Amazonas. No entanto, os nossos guias não tinham levado uma bússola e a vegetação era demasiado densa para nos guiarmos pelo Sol. Assim, caminhámos sem rumo enquanto Arnold vasculhava a vegetação rasteira em busca de vestígios de um trilho. Não havia nada.

Na manhã seguinte acordámos com um tiro de espingarda. Arnold arrastava um animal a sangrar até ao acampamento. Era um javali amazónico e, como quase tudo na Amazónia, era maior e mais feroz do que o seu parente norte-americano. Com precisão e um toque de teatralidade, Arnold esfolou e eviscerou o animal de 40 quilos. Cortou grandes folhas das palmeiras e entrelaçou--as rapidamente dando forma a uma mochila que encheu com a carne gotejante e amarrou ao lado de fora da sua mochila de menina.

A caçada provocou uma divisão nas nossas fileiras. Com uma velocidade que nós não conseguíamos acompanhar, Arnold e o rastreador avançaram, deixando o nosso guia, Jeremy e eu com uma única faca de mato para abrirmos caminho. O nosso guia gritou para os chamar antes de se virar pesarosamente para nós: "Acho que eles nos abandonaram para encontrar o caminho de casa antes que a carne se estrague", disse.

A certa altura, Jeremy e eu passámos do estatuto de clientes para o de bagagem na mente do nosso guia. Tendo crescido na selva, ele poderia alimentar-se durante dias de plantas e roedores, mas não podia sustentar-nos aos três durante muito tempo.

Resignados, montámos acampamento. Eu não conseguia continuar a fingir ser amante de uma vida ao ar livre, por isso dei a única contribuição que pude: tornei-me uma dona de casa amazónica. Limpei a sujidade da lona e em seguida estiquei o lençol e alisei as rugas com as mãos. Coloquei a pomada para as picadas de inseto na cabeceira da cama e uma garrafa para urinar aos pés. Pus o livro de Jeremy do lado direito e o meu à esquerda, uma imitação do ambiente noturno que tínhamos no nosso quarto de Nova Iorque.

Vestimos a nossa indumentária sexy apropriada para uma lua-de--mel: roupas íntimas de secagem rápida, e acendemos a lanterna. Jeremy leu O Rio da Dúvida, sobre a traumática expedição de Theodore Roosevelt para mapear um dos afluentes do Amazonas. Eu li Louca por Compras.

"Estás com medo?", perguntei.

Jeremy semicerrou os olhos, levantando a mão para tapar a luz da minha lanterna. "Claro que não", respondeu. "O pior que pode acontecer é regressarmos com alguns dias de atraso e com alguma fome. Provavelmente existem informações suficientes no meu livro para encontrarmos alimentos comestíveis."

Só vários dias mais tarde, enquanto bebíamos pisco sours numa mesa à janela no Restaurante Fitzcarraldo, em Iquitos, é que ele admitiria o medo que tinha sentido. Medo de que eu fosse mordida por uma cobra venenosa e que estivéssemos demasiado longe para eu poder ser socorrida. Medo de que morrêssemos de fome porque não havia nada no seu livro sobre Roosevelt que nos dissesse como procurar alimentos. "É mais sobre pessoas que morrem de maneiras terríveis", disse ele com um sorriso.

Naquela noite, deitados sobre uma lona no meio da selva, sentimo-nos totalmente inúteis e infantis, incapazes de comer ou caminhar sem um guia. Então, arquitetámos juntos uma falsa realidade em que desempenhávamos respetivamente os importantes papéis de confortador e protetor e de beneficiário de conforto e proteção.

Falámos sobre as nossas vidas. Numa altura em que o nosso futuro parecia frágil, fomos em frente e criámo-lo conversando sobre quantos filhos teríamos e o que lhes iríamos ensinar. Como lhes incutiríamos o amor pela aventura e a compreensão da diferença entre o risco e a imprudência, algo que estávamos apenas a começar a entender.

"Fazes-me rir?", pedi.

Jeremy fechou as mãos e ergueu-as atrás das orelhas. "Quem sou eu?"

Ri-me, num bem-vindo momento de alívio. "Um cão."

"Agora é a tua vez", disse ele.

Lá fora, ouvimos um zumbido abafado à distância.

"Um barco!", exclamou o nosso guia. "Nós não podemos estar a mais de oito ou dez horas do rio Amazonas. Amanhã, seguimos o som para sul em busca de um caminho para o rio. A partir daí, podemos encontrar um barco de volta para o alojamento."

Chegada a madrugada, foi exatamente isso que fizemos.

Ao pormos os pés na doca naquela noite, a alegria tomou conta de nós. Atirámos as mochilas para o chão e vimo-nos livres das nossas galochas molhadas. Sentámo-nos no chão, silenciosos e exaustos, num temor reverencial até recuperarmos as forças para nos arrastarmos para a suite de lua-de-mel, uma divisão grande que tinha água corrente mas não tinha eletricidade.

Tomámos um duche. Deitados lado a lado num colchão cheio de altos, examinámos as nossas mossas. Estávamos a salvo, juntos. Eu tinha pago as minhas dívidas para com o meu marido amante da natureza e ambos ganhámos com isso.

Na manhã da nossa partida, optámos por uma última curta caminhada com o nosso guia. Ao longo do caminho, ele chamou-nos apontando com uma vara para uma cobra-coral que descansava sob uma grande folha. Aproximámo-nos.

Jeremy confirmou a beleza do animal e explicou que o seu veneno era neurotóxico. Pode morrer-se em poucas horas de paragem respiratória, pois os pulmões deixam de conseguir expandir-se e os principais órgãos entram em falência por hipoxia. Havia um capítulo inteiro sobre isso no livro sobre Roosevelt.

Com outro toque da vara, a cobra saltou na nossa direção, levantando o corpo mais de 30 centímetros. "Corram, corram, corram!", gritou o guia. A cobra deslizou para longe. E nós também, primeiro para Iquitos, depois para um hotel de quatro estrelas na Colômbia e finalmente, armados com as nossas recém-adquiridas capacidades de sobrevivência, para o desorientador terreno virgem da vida de casados.

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