Convocatória por SMS falha e centros de saúde só conseguem vacinar dois dias por semana

Portugal deveria terminar a primeira fase no final de março. O prazo já foi esticado para abril. E o número de pessoas vacinadas está aquém do que se previa para esta altura: em vez de 1,4 milhões, há menos de um milhão. Unidades de saúde veem a tarefa cada vez mais dificultada.

A uma semana da data inicialmente prevista para o fim da primeira fase da vacinação (31 de março), apenas 30% da população que integra este grupo tem a vacinação completa e 61% recebeu a primeira dose. No início do processo, que arrancou ainda em dezembro com os profissionais de saúde e de lares a serem inoculados, estimava-se que nesta altura já houvesse 1,4 milhões de pessoas vacinadas. Mas não só esse número ainda está longe como o período anunciado para completar a primeira fase já foi prolongado até ao final de abril.

O argumento usado pelas autoridades de saúde tem sido sempre o mesmo: as falhas na entrega de vacinas. Mas quem está no terreno vê outros problemas a tornar o processo mais moroso. O sistema de convocatória por SMS, que impõe prazos para agendamento e que não é facilmente aceite pelos mais idosos, é um dos maiores constrangimentos. A seleção dos utentes por critérios clínicos, que leva tempo e cuja obrigatoriedade de sigilo determina que só possa ser feita por profissionais de saúde, é outra dificuldade. E neste momento "há centros de saúde que chegam a ficar só com um dia ou dois na semana para vacinar utentes", explica ao DN o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF).

A tarefa pode complicar-se ainda mais quando se chegar à fase da inoculação em massa e com a abertura dos 150 postos de vacinação previstos. O último balanço da vacinação, divulgado na terça-feira à noite, dá conta de que até agora Portugal recebeu 1 713 540 doses de vacinas distribuiu 1 462 079. Do total das distribuídas, a primeira dose chegou a 942 825 pessoas e há 471 204 com a imunização completa (duas doses).

No grupo dos maiores de 80 anos, porém, só 205 339 têm a vacinação completa e 415 314 receberam apenas a primeira dose. Nos restantes grupos etários, por exemplo dos 65 aos 79 anos, há apenas 3% com a vacinação completa (41 529) e 6% levaram uma só dose (97 230). Números distantes do que estava previsto, mas que também oscilam de concelho para concelho, como explica o médico de família. "Na região onde trabalho [Alentejo], há concelhos mais pequenos que vão parar a vacinação porque já não têm mais ninguém para vacinar nesta primeira fase. Portanto, aqui a operação já se cumpriu a 100%, mas em concelhos maiores, sobretudo de áreas metropolitanas, estamos muito longe disto, ficando-se nos 3% e nos 6% da população elegível."

Não é possível dizer quando termina a primeira fase

Com as vacinas a chegar a conta-gotas nesta fase e com todos os constrangimentos que marcam o processo, Nuno Jacinto diz ao DN que "é quase impossível avançar com um prazo para o final da primeira fase da vacinação". "O que está a acontecer agora é que só pelas 20h30 de cada sexta-feira é que os centros de saúde são informados sobre o número de doses que vão receber para a semana seguinte, mesmo que se comece logo na segunda-feira a convocar a população elegível para receber a vacina, a convocatória por SMS só nos permite fazer agendamentos com quatro dias de intervalo, ou seja para sexta-feira. Esta é uma questão incontornável imposta pelo sistema informático usado (SIM)." Além do mais, sublinha, "este sistema não está a ser bem aceite pelos mais idosos, que não respondem sequer ao SMS. Ou seja, a esmagadora maioria das convocatórias está a ser feita por telefone, o que leva muito mais tempo".

Nuno Jacinto dá exemplos: "Imagine que uma unidade tem 120 doentes para vacinar numa semana , isto significa ligar a 120 pessoas que muitas vezes não atendem à primeira, noutras não entendem o que se lhes está a dizer e temos de falar com familiares, noutras ainda têm dúvidas sobre o processo ou não estão disponíveis para o dia agendado ou não têm transporte para poderem ir levar a vacina. Nós temos de assegurar tudo isto e com a questão dos prazos para as convocatórias há centros de saúde que ficam com um ou dois dias para vacinar."

Uma realidade que o médico diz não ser só do país interior e rural, mas que afeta igualmente muitos concelhos das áreas metropolitanas, sobretudo no que toca à convocatória por SMS. "Os idosos não respondem. Pode ser que na próxima fase, com utentes mais jovens, seja diferente, mas com esta faixa etária a realidade é idêntica em todo o país."

Algumas unidades não têm sistema de SMS

Há porém ainda mais empecilhos logísticos, como unidades que nem sequer podem usar o sistema de convocatória por SMS porque a plataforma de que dispõem não integra esta tarefa. "Na região Norte, muitos agrupamentos usam o sistema informático SONHO, que nem sequer tem a função de sala de espera. Portanto, desde o início que estão impedidos de fazer convocatórias por SMS e têm feito tudo por telefone", explica o responsável, sublinhando: "Desta forma é muito difícil conseguirmos prever quando chegaremos ao final".

O presidente da APMGF acredita que a task force que tem a seu cargo o processo de vacinação também gostaria de saber antecipadamente quantas vacinas poderá disponibilizar: "Se o fornecimento fosse constante, seria possível fazer uma programação vacinal a duas ou três semanas", sem os constrangimentos que agora existem. Para Nuno Jacinto não se pode dizer que sejam tais constrangimentos que estão a atrasar o processo, mas não tem dúvidas de que o estão a tornar mais difícil. "A população a que se destina a vacina nesta fase e o espaço temporal que temos para convocar as pessoas têm dificultado a tarefa", sublinha.

A necessidade de programar com mais tempo "é uma das questões que os médicos de família têm colocado todas as semanas em cima da mesa", mas que ainda não foi possível resolver. A esta questão junta-se a da convocatória, a qual pode ocupar metade de uma equipa de uma unidade durante dois ou mais dias numa semana. Uma situação que poderia ser contornada se pudesse ser desempenhada por outros profissionais que não os de saúde - mas não pode, dada a obrigatoriedade da seleção por patologias associada à idade.

Tanto a APMGF como a Ordem dos Médicos têm defendido que Portugal deveria seguir os critérios usados por outros países europeus, que optaram por seguir parâmetros de idade, tornando assim a função mais fácil e independente de dados confidenciais.

"A seleção dos utentes por critérios clínicos dificulta logo a tarefa de seleção - e depois temos muitos utentes a queixarem-se que ainda não foram contactados. Os critérios clínicos exigem que o utente esteja registado como diabético ou como doente cardíaco, por exemplo, e muitos não estão, ou porque recorrem a médicos privados ou porque não vão ao médico. E todas estas informações têm de ser verificadas. Só com o critério da idade, estas questões não se colocariam. Aliás, sem a obrigação de sigilo, esta tarefa poderia ser feita por militares ou funcionários de municípios, mas não podemos passar-lhes para a mão uma listagem de diabéticos e pedir-lhes que os convoquem. Os dados são confidenciais."

Sindicatos questionam sobre pessoal para novos postos

Nesta altura, Portugal já deveria estar a finalizar a primeira fase de vacinação, o que não acontecerá. Mas a abertura de 150 postos de vacinação em locais a indicar pelas autarquias, como pavilhões desportivos, juntas de freguesia, etc. poderá ajudar a tornar o processo mais rápido. A esta altura, porém, os médicos de família ainda não sabem quem vai estar nesses postos para vacinar, se são ou não enfermeiros dos SNS. E alguns sindicatos da classe já vieram dizer não há pessoal suficiente e questionam se são os médicos de família que serão recrutados para dar apoio nesses espaços.

"A grande questão é mesmo: com que recursos humanos é que esses 150 postos vão funcionar? Quem vai fazer as convocatórias, quem vai vacinar e que médicos vão dar apoio? Ainda não temos qualquer informação sobre isto. O que se adivinha é que serão os centros de saúde a continuar a fazer as convocatórias, os enfermeiros dos cuidados primários a ser alocados para ali e os médicos de família a continuar a dar apoio. Se assim for, não nos irá aliviar em nada. Teremos muito mais convocatórias a fazer, muitos mais utentes para vacinar, durante mais horas, mais dias... o que só vai sobrecarregar as unidades e agravar as tarefas", afirma Nuno Jacinto.

Neste aspeto, o médico diz saber o que se passa na sua região. "Sei da minha realidade local, pode ser uma visão enviesada, mas até ao momento não fomos contactados" por autoridades de saúde ou autarquias sobre o que vem a seguir.

A abertura dos 150 postos especiais tem em vista a vacinação em massa, mas um dos constrangimentos poderá ser portanto o número de recursos disponíveis para levar esta fase por diante. O secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, veio ontem garantir que "a falta de recursos humanos, nomeadamente de enfermeiros, não será um problema".

O governante disse ter sido estimada a necessidade de 2500 profissionais de enfermagem para assegurar a segunda fase de inoculação nos 150 postos que irão desempenhar esta tarefa juntamente com os centros de saúde, e que "com certeza, quer dentro do Serviço Nacional de Saúde quer fora, teremos capacidade para recrutar enfermeiros".

Quanto ao resto das questões colocadas pelos médicos de família - o tempo que ainda irá levar a primeira fase da vacinação, quantas pessoas falta vacinar nesta fase e como poderão ser integrados outros grupos que venham a ser considerados de risco -, o DN pediu respostas à task force liderada pelo vice-almirante Gouveia e Melo mas não obteve respostas até ao fecho desta edição. Por agora mantém-se inalterada a meta dos 70% da população vacinada até fim de setembro para alcançar imunidade de grupo.

anamafaldainacio@dn.pt

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