Conversa à mesa do café leva suspeito a denunciar inspetor da PJ

Conversa numa pastelaria confirmou ligação de Ricardo Macedo a traficantes de droga. PJ vigiou Franclim Lobo

Sentados à mesa na Pastelaria do Restelo, em Lisboa, Carlos Gregório e Bruno (nome fictício) tentam perceber o que aconteceu a um carregamento de droga que desapareceu. Gregório desconhece, porém, que a conversa está a ser monitorizada à distância por elementos da Unidade Nacional contra a Corrupção (UNCC), que investigaram nos últimos anos o ex--colega Dias Santos e o inspetor Ricardo Macedo, ligados ao combate ao tráfico de droga - ambos foram detidos há dois meses por suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais. E foi sobre o último que a conversa foi mais produtiva, porque Gregório acabaria por confirmar a ligação de Macedo ao tráfico.

Bruno é um antigo inspetor da Polícia Judiciária que, após uns contactos com pessoas ligadas ao tráfico de droga, se viu envolvido como suspeito num desaparecimento de vários quilos de "produto". Acossado por elementos da rede em Portugal, e ameaçado por indivíduos colombianos - que estenderam as ameaças à sua irmã, uma juíza -, Bruno acabou por bater à porta da PJ, contando tudo o que sabia sobre a ligação de polícias ao tráfico de droga. Verificada a consistência da denúncia, o antigo inspetor acabou por ser colocado num programa de proteção de testemunhas, tendo sido ouvido em "declarações para memória futura". Antes disso, porém, Bruno funcionou como infiltrado da investigação no processo sobre corrupção na Polícia Judiciária, batizado como Operação Aquiles.

Na tal pastelaria, Carlos Gregório, um dos suspeitos do caso, começou por mostrar alguma relação de confiança com o inspetor Ricardo Macedo, dizendo que segundo aquele as operações da polícia "de calibre" só eram realizadas às terças, quartas e quintas. Gregório comentou ainda com Bruno que "tudo estava a correr bem", que "o pessoal ia pedindo informações e ia pagando", que se um contentor estivesse para chegar alguém perguntaria se "estava tudo bem" e que a resposta foi "que sim, que estava tudo bem". No meio da conversa, Bruno perguntou se o seu interlocutor estava a referir-se a Ricardo. Carlos Gregório confirmou, dizendo que a "chave" passava pela ligação de "Ricardo" a um "Gordinho", que a investigação considera ser Pedro Salgado, suspeito de fazer a ponte entre os elementos do tráfico de droga e o inspetor Ricardo Macedo.

Mas Carlos Gregório foi ainda escutado, em 2014, a falar com Dias Santos, de quem era vizinho, sobre uma descoberta que o próprio tinha feito no seu carro: um localizador de GPS. O ex-inspetor entrou em contacto com o diretor da unidade de vigilâncias da PJ. João Carreira garantiu-lhe que o dispositivo não era "seu" e que iria recolhê-lo. Dias Santos acabaria por comentar com Carlos Gregório não estar muito convencido disso e que a polícia até deveria colocar aqueles aparelhos noutras pessoas, "não em nós".

As suspeitas sobre as ligações de Carlos Gregório ao mundo do tráfico cimentaram-se quando o já arguido na Operação Aquiles foi escutado a perguntar a um interlocutor se precisava de "azeite". Ao que este respondeu: "paletes", ou seja, como anotou o Ministério Público, um termo que não se adequa ao comércio de azeite, mas que é usado no tráfico de estupefacientes.

No meio de tantos intervenientes, a Operação Aquiles acabaria também por cruzar-se com Franclim Lobo, considerado um dos maiores traficantes de droga nacionais. Este foi por várias vezes seguido, em Lisboa, em contactos pessoais, sobretudo com Vítor Caeiro, que a investigação considera ser o seu operacional em Portugal, já que Lobo reside há algum tempo em Espanha. Caeiro também foi escutado a falar com Carlos Gregório, em 2015, sobre a detenção de um elemento da organização, dizendo que o mesmo estava "internado, com uma doença grave". Gregório perguntou se isso não seria "contagioso", com isto querendo dizer se não poderiam existir mais detenções.

É então que é formado um triângulo entre Franclim Lobo, Vítor Caeiro e Dias Santos, no qual cada um representou um papel para a entrada de uma elevada quantidade de cocaína em Portugal. Porém, uma vez que os seus passos estavam a ser monitorizados ao pormenor, a droga acabaria por ser encontrada pela Judiciária.

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