"Como não esperar que um pai diga que a filha joga futebol para a salvar? É condenável? Eu não acho"

Diretor-geral do JRS diz que é possível acolher mais afegãos, entre lutas contra as "burocracias desnecessárias" e o vírus da "indiferença". Arranjar casa e reconhecer habilitações fundamentais na integração. Trabalho sazonal pode atrair população migrante jovem.

André Costa Jorge é diretor-geral do Serviço Jesuíta aos Refugiados desde 2008. É também coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados, tem 52 anos, formação em Antropologia e em novembro liderou o processo de acolhimento de 211 refugiados afegãos, nomeadamente um grupo de 26 alegadas jogadoras de futebol. Um processo mediático e polémico. E admite que o futuro delas "pode não passar pelo futebol".

Como está o dossiê de integração/colocação das 26 jogadoras de futebol do Afeganistão que Portugal acolheu com grande mediatismo em novembro?
O dossiê das jogadoras é apenas uma parte da questão. Elas vieram para Portugal em famílias. Para além de serem praticantes de um desporto amador ou semiprofissional, são pessoas resgatadas do Afeganistão. Há uma responsabilidade do Estado português perante estas pessoas e é necessário que elas possam viver, trabalhar e integrar-se em comunidade. E se escolherem Portugal como país de asilo, que possam ser portugueses como qualquer outro. Serem jogadoras preocupa-nos e temos feito esforços para que elas possam continuar a treinar e, se possível, serem integradas em clubes e competir.

Estava à espera que os clubes que têm futebol feminino se chegassem mais à frente depois de todo aquele carinho e acolhimento mediático? Elas foram treinar à Cidade do Futebol , a Alcochete, com o Sporting, e à Luz, com o Benfica...
A nossa preocupação é que elas treinem de forma informal, mas regular, e com a consciência de que o futuro pode não passar pelo futebol. O mais importante é que têm liberdade para o fazer, coisa que no Afeganistão não podiam, pelo quadro mental e ideológico talibã. É preciso dizer que o futebol e o desporto são desbloqueadores fundamentais para uma boa integração e com alguns casos de sucesso. Este ano tivemos dois refugiados nos Jogos Olímpicos [Dorian Keletela, congolês, que pediu asilo em 2016, e Pedro Pichardo, que pediu asilo em 2017 depois de desertar de Cuba] e um deles trouxe uma medalha de ouro para Portugal.

Elas foram apresentadas como jogadoras da seleção, mas, segundo uma reportagem do Sexta às 9, da RTP, só sete delas eram efetivamente da seleção. São, de facto, jogadoras da seleção ou alguém mentiu?
Depende da forma como quisermos olhar para a questão. A perspetiva do Sexta à 9 foi de que nem todas as raparigas eram da seleção afegã ou jogadoras. É verdade e é uma realidade de que nos apercebemos quando chegaram aqui, mas é uma realidade que tem de ser contextualizada. Algumas são jogadoras e algumas acabaram por trazer amigas, que aproveitaram a oportunidade de sair do Afeganistão. É humanamente compreensível. As notícias que nos chegam do Afeganistão são assustadoras do ponto de vista humanitária. As pessoas passam fome e há raparigas de 15 anos vendidas pelos familiares. Como não esperar que um pai diga que a filha joga futebol para a salvar? Isto é condenável? Eu não acho, à luz daquilo que se passava e passa no Afeganistão. A vida humana é mais importante que as fronteiras. Mentir para salvar a vida é compreensível e não é condenável, na minha perspetiva. O nosso critério é: na dúvida, salvam-se as pessoas.

"O nosso trabalho não pode esbarrar em burocracias desnecessárias. Não podemos esperar cinco anos por uma habitação municipal. Tem de haver capacidade de acolhimento de emergência."

Esse pormenor de nem todas serem jogadoras teve impacto ao nível do acolhimento?
Não. Quando chegaram, ficaram bastante entusiasmadas por estarem em paz e segurança. No Afeganistão, com a tomada do poder por parte dos talibãs, era impossível continuarem a jogar e corriam risco de vida só por praticarem desporto. Os talibãs não aceitam que as mulheres pratiquem desporto, muito menos futebol. E havia ainda outro risco. São mulheres muito jovens, dos 15 aos 18, e podiam ser obrigadas a contrair matrimónio. No acompanhamento que fazíamos, percebemos que muitas estavam a entrar numa situação de vulnerabilidade bastante complicada, quase em falência psicológica. Nem elas nem nós sabíamos se alguma vez poderíamos resgatar as famílias. Foi aí que começámos a trabalhar no sentido de garantir asilo e trazer os familiares. Com o apoio da fundação Romulus T Bess Weatherman, conseguimos garantir ao Estado português que havia condições de acolhimentos estruturais e financeiros, uma vez que a fundação norte-americana suportava os custos do resgate.

Quando diz que as jogadoras são apenas uma parte da questão...
Elas são 26 de um grupo de 211. Desde meados de agosto que a JRS estava a preparar-se para receber afegãos. Recebemos vários pedidos de auxílio de associações, fundações e de pessoas a título individual, que nos pediam ajuda para salvar familiares em risco de vida. Alguns deles com ligações aos militares portugueses. No total, chegaram 211 pessoas em novembro e nós tivemos de montar condições para as receber numa semana. Ficaram no centro de refugiados do Lumiar e no centro municipal covid-19 do Saldanha, que foi depois desativado pela Câmara Municipal de Lisboa. Depois, com a ajuda do Alto Comissariado para as Migrações, colocámo-los em dois centros, Ericeira e Fátima. Algumas famílias foram colocadas em residências municipais, como Sintra e Cascais, mas a maioria ficou nos centros de acolhimento. Depois entrámos na segunda etapa: retirá-los dos centros de acolhimento e dar-lhes condições para uma vida em família. Foi criada uma equipa com pessoal de apoio, psicólogos e professores de português, para iniciar as etapas de integração. E, no caso das jogadoras, sem esquecer dar condições para a prática desportiva, e até conseguimos uma articulação com um clube em Fátima onde está a maioria.

A integração passa por lhes arranjar casa?
Sim. Já lançámos uma campanha para arrendamento de casa para cada agregado familiar e estamos a preparar contratos e a arranjar casas com tudo o que isso implica: contratos de água, luz, gás... Temos de vencer a resistência dos senhorios, porque os refugiados não têm fiadores, já para não falar daqueles que recusam mesmo arrendar a refugiados. Temos uma equipa empenhada na procura de casas e procuramos senhorios amigos da causa dos refugiados. Neste momento faltam 26 habitações, mas de novembro até agora já encontrámos 22. Tentámos que ficassem em localidades com estruturas de apoio e por isso criámos também as comunidades de hospitalidade, que assenta no acolhimento voluntário, e assim conseguir mitigar o impacto de chegar a um local estranho. A ajuda em contexto local é muito importante.

A pandemia não ajudou a essa hospitalidade portuguesa tão famosa a nível mundial?
Na verdade, não temos sentido isso. Mais do que a covid-19, há um vírus que se chama indiferença, quando o assunto deixa de ser mediático. A agenda mediática do Afeganistão caiu a pique e parece que já não se passa nada ou não interessa a ninguém. Aconteceu com o assunto em Cabo Delgado (Moçambique) ou em Lesbos. É normal, é a vida, e o nosso papel é contrariar a indiferença e apelar à solidariedade.

"Se Portugal tem politicamente procurado estar do lado certo da história, na defesa dos direitos humanos precisa de aproximar quem acolhe de quem é acolhido."

Indiferença em que sentido? Deixa de estar na moda?
​​​​​​​No sentido em que se vive do imediatismo mediático. Para que estas pessoas cheguem a Portugal, há todo um caminho de sobrevivência que é complexo, burocrático e diplomático. Para conseguir que estas 211 pessoas chegassem, foi preciso o Estado dar aval, porque não podemos entrar num caminho de ilegalidade para salvar vidas, por mais atrativo do ponto de vista humanitário que isso possa parecer. A minha preocupação é garantir que cumprimos a missão segundo os nossos valores atempadamente, para que as pessoas não tenham de morrer a tentar salvar-se. É por isso importante que o Estado se mantenha ativo e empenhado, e não só do ponto de vista político.

De que forma?
A sociedade civil tem sido muito generosa, temos recebido muitos apoios e doações de pessoas, mas não basta. É preciso que os decisores políticos percebam que o nosso trabalho não pode esbarrar em burocracias desnecessárias. Dou o exemplo dos programas de habitação municipais. A vida destas pessoas é muito instável nos primeiros três a quatro anos e precisamos de respostas rápidas. Não podemos esperar cinco anos por uma habitação municipal. Tem de haver capacidade de acolhimento de emergência. Quando são abertos, para esta população são demasiado lentos e burocráticos, precisam ser mais simples e mais rápidos. Por isso apelo a que possa haver maior e melhor articulação entre o Estado (através do IHRU) e os municípios, para criação de oportunidades habitacionais para a população refugiada e migrante, para não assistirmos a cenas sub-humanas e de alarme social como a dos migrantes trabalhadores sazonais a viver em barracões sem condições. O trabalho sazonal é uma das formas de atrair população migrante jovem e atenuar a situação demográfica e laboral das zonas rurais. Se Portugal tem politicamente procurado estar do lado certo da história, na defesa dos direitos humanos, precisa de aproximar quem acolhe de quem é acolhido. É do interesse nacional.

A integração passa também por ter autonomia financeira. Que apoios recebem?
Havia alguma expectativa de um acordo ou ação concertada da União Europeia para uniformizar esse apoio, o que ainda não aconteceu. O que está em vigor são seis mil euros por pessoa durante 18 meses [há situações classificadas de muito vulneráveis cujo valor é de oito mil euros por pessoa]. Felizmente, o Estado português no final de dezembro tomou a decisão de definir um quadro de apoio. Desde novembro até agora trabalhamos sem a definição clara do modelo de acolhimento, nomeadamente saber se podíamos iniciar o processo de arrendamento para as pessoas. O apoio da fundação norte-americana permitiu dar luz verde, mas é preciso que os apoios possam persistir no tempo. Além do acesso à habitação, é necessário o reconhecimento de competências para lhes permitir seguir com as ambições académicas e terem trabalho de acordo com as suas habilitações e competências. Tudo isso é fundamental para pensar na fixação destas pessoas.

A nacionalidade dos migrantes/refugiados é um entrave? Ser afegão e ser ucraniano é igual?
Os afegãos são extremamente dóceis, afáveis e de enorme gratidão para com Portugal, país com o qual não têm grande ligação histórica. Se isso serve como generalização... Temos mais de 100 nacionalidades acolhidas e sei que não há nacionalidades mais fáceis que outras, há é histórias mais fáceis e mais difíceis, que exigem da parte de quem acolhe uma predisposição diferente. A origem ou religião não mexe com a hospitalidade dos portugueses, mas é preciso que quem acolhe perceba que estas pessoas passaram por coisas brutais e não podemos esperar que só por estarem aqui agradeçam e comecem a trabalhar alegremente. Precisam de proteção ao nível da saúde mental. Muitos chegaram cá mas têm de lidar com o sentimento de perda. Imagine o que é vir no barco e ver um amigo, conhecido ou familiar cair e não ser resgatado ou alguém morrer a bordo e ser atirado do barco. Tudo isto é cruel só de imaginar, quanto mais ao vivê-lo. Só por isso, na minha opinião, merecem a nossa admiração. Durante a pandemia usou-se muito a palavra resiliência, mas estas pessoas são verdadeiras heroínas. Como eles dizem, começaram abaixo de zero e agora têm sonhos, e isso é admirável.

Está previsto receber mais algum grupo afegão?
​​​​​​​É possível acolher mais pessoas do Afeganistão. Temos recebido alguns pedidos de ajuda e nos últimos dias conversámos com algumas organizações internacionais que têm mostrado vontade de resgatar pessoas do Afeganistão com o apoio privado, mas temos de ver com o governo o que é possível fazer. Estamos em tempo de eleições e não sabemos como vai ficar depois disso. Mas, seja qual for a cor do próximo governo, que possa haver empenho em acolher seja quem for que esteja em risco de vida.

isaura.almeida@dn.pt

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