Cientista portuguesa perde bolsa por suspeita de manipulação de dados

A investigadora Sónia Melo retirou recentemente um artigo da revista 'Nature' após denúncias de manipulação de imagens

A investigadora portuguesa Sónia Melo, cujo trabalho lhe valeu no ano passado o prémio L'Oréal para mulheres na ciência, está sob suspeita de ter manipulado imagens num artigo científico da sua autoria publicado em 2009 na revista científica Nature Genetics, segundo conta esta quinta-feira o jornal Público. Outros quatro artigos de Sónia Melo estarão sob suspeita de manipulação, e entretanto foi suspensa das suas funções no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S).

As dúvidas iniciais acerca do trabalho de Sónia Melo, que já levaram a que perdesse uma bolsa de 50 mil euros atribuída pela Organização Europeia de Biologia Molecular, surgiram em setembro num site de revisão de artigos científicos após a sua publicação, o PubPeer. No site, foram divulgados indícios de que imagens microscópicas de uma mutação genética de um cancro tinham sido repetidas no seu artigo de 2009. A repetição, rotação ou inversão das mesmas imagens dentro do artigo científico seria usada para reforçar a solidez dos resultados alcançados na investigação, apontam os utilizadores do PubPeer.

As críticas às imagens repetidas neste artigo aumentaram quando Sónia Melo foi uma dos nove cientistas europeus a receber, em dezembro de 2015, uma bolsa de 50 mil euros para investigação atribuída pela Organização Europeia de Biologia Molecular (EMBO, na sigla inglesa). O artigo da Nature Genetics de 2009 acabaria por ser criticado noutros sites de revisão por pares como o Retraction Watch, e a 27 de janeiro foi mesmo retirado da revista, com uma nota assinada por todos os autores. "Soubemos recentemente da presença de imagens duplicadas", lê-se na nota. "Retiramos por isso a publicação, em nome dos altos padrões que esperamos da investigação e das revistas científicas".

Perde bolsa de 50 mil euros após investigação

Após a retração, a EMBO retirou a bolsa a Sónia Melo. "O nosso comité concluiu que no corpo do trabalho em que se baseou a atribuição da bolsa de instalação há provas de negligência no manuseamento e na apresentação de dados que o excluíram da recomendação para um prémio", disse ao Público o diretor de comunicação da EMBO, Tilmann Kiessling, que disse que a decisão de retirar a bolsa se seguiu a uma investigação "cuidadosa e abrangente" do caso de Sónia Melo.

Ao site Retraction Watch, Sónia Melo já se distanciara, através de uma declaração, do artigo de 2008, o seu primeiro enquanto estudante de doutoramento. "Lamento a falta de diligência que demonstrei no manuscrito da Nature Genetics", escreveu a investigadora. "O erro embaraçoso não foi identificado por ninguém que reviu o documento antes da publicação, especialmente não por mim, que enquanto autora principal tinha uma grande responsabilidade em rever o manuscrito finalizado com cuidado".

Mas o Público chama a atenção para outros artigos de Sónia Melo que estão a ser criticados no site PubPeer: dois publicados na Cancer Cell, em 2010 e 2014, outro na Proceedings of the National Academy of Sciences em 2011, e um na Nature, de 2015. Alguns dos utilizadores do site de revisão por pares apontam imagens e visualizações de dados que aparentam ter grandes semelhanças entre si, que seria improvável, dizem, verificarem-se por coincidência.

Caso vai ser investigado no consórcio I3S

Entretanto, no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S), no Porto, onde Sónia Melo estava no processo de instalar o seu grupo de investigação, o caso da cientista vai ser avaliado. Em comunicado enviado às redações, o I3S esclarece que a análise do caso vai ser realizada por uma comissão composta por elementos externos ao consórcio. Com base no parecer dessa comissão, a direção do I3S tomará uma decisão sobre o vínculo de Sónia Melo com o consórcio.

O comunicado do I3S acrescenta que Sónia Melo decidiu ela própria, com o acordo do coordenador do grupo em que se insere atualmente e da Direção do consórcio, suspender as suas funções de investigadora principal. Essa suspensão não afeta o seu trabalho dentro do grupo de investigação em que está inserida, coordenado por outrem.

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