Chuva melhora reservas de água, mas a seca ainda não terminou

Em apenas nove dias, a maior parte das albufeiras recuperou parte do seu volume, mas ainda não chega. A tempestade Félix traz mais chuva e agitação marítima até segunda

A chuva que caiu no território continental desde o fim de fevereiro já se repercutiu no armazenamento das barragens. Das 61 albufeiras monitorizadas, 10 apresentam agora disponibilidades superiores a 80% do seu volume total (são mais cinco do que em 28 de fevereiro) e 12 mantêm disponibilidades inferiores a 40%, quando no início do mês eram 23. A situação porém, ainda não está resolvida e, mesmo com a tempestade Félix a fazer estragos, sobretudo em Lisboa, "a precipitação ainda não chega para dizer que a seca terminou", sublinhou ao DN Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista ZERO.

Na mesma linha, ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, considera, que é necessário continuar a manter cuidado no consumo da água porque, embora a chuva tenha estado a repor os níveis de água nas barragens, isso tem acontecido a um ritmo "muito lento", como frisou ontem em declarações aos jornalistas. "Temos que separar o país ao meio", afirmou o ministro, citado pela Lusa. "A norte do rio Tejo, as barragens estão muito próximas da sua capacidade máxima e algumas já a atingiram", afirmou aos jornalistas, à margem de uma conferência sobre alterações climáticas organizada pela Ordem dos Engenheiros.

Já no sul do país, embora esteja a haver "encaixes de água a cada dia", ainda há situações preocupantes, como a da barragem de Monte da Rocha, no concelho de Ourique, que abastece "um conjunto vasto de habitantes", e que ainda está com apenas 9,6 %da sua capacidade, afirmou o governante, notando que "o solo estava muito seco e absorveu muita água".

Por isso, frisou, embora as previsões meteorológicas sejam de mais chuva para os próximos dias, "a preocupação com a seca e a responsabilidade de cada um não se altera em nada".

Francisco Ferreira é da mesma opinião. "É preciso ter consciência de que esta precipitação faz parte do inverno, mas que só agora, em março, está a ocorrer", com vários meses para trás em que não choveu nada. "A chuva não vem na altura certa", chega agora associada a uma tempestade, e "acaba quase por configurar um fenómeno extremo", diz o ambientalista e professor universitário, que deixa um alerta: "A recuperação das disponibilidades nas albufeiras vai exigir ainda mais precipitação, mas arriscamo-nos a que as pessoas deixem de falar se de seca quando ela ainda não terminou".

Sobretudo no sul do país, os níveis das barragens continuam muito baixos. Na bacia do Sado, por exemplo, há oito albufeiras que se mantêm nessa situação, como Campilhas, que tem apenas 7% do total das suas disponibilidades, Monte da Rocha (10%), Monte Miguéis (12%) ou ainda Vale de Gaio (22%). Na bacia do Tejo a albufeira mais depauperada é a de Divor, com apenas 16% do volume, e na bacia do Guadiana há três com níveis abaixo dos 28%.

Esperada ondulação excecional

A tempestade Félix, entretanto, só vai dar tréguas a Portugal a partir de segunda-feira. Até a chuva e o vento vão aumentar de intensidade e as ondas vão ter uma dimensão excecional. Aliás, é a situação na faixa costeira a que está a provocar mais apreensão à Proteção Civil, que ontem, até ao final da tarde (18.00) registava 582 ocorrências, a grande maioria inundações e Lisboa a zona mais afetada.

No mar, os avisos são da Marinha e da Autoridade Marítima Nacional que alertaram para o agravamento do estado nos próximos dias, com a previsão de uma ondulação "excecionalmente" forte.

Quaresma dos Santos, do Instituto Hidrográfico, explicou que este tipo de ondulação é "excecional" e só ocorre "duas ou três vezes por ano", o que leva a que algumas barras que tradicionalmente não são fechadas venham a encerrar.

Segundo este responsável, o pico da agitação marítima vai ocorrer na noite de hoje e madrugada de domingo, atingindo toda a costa oeste, sendo o Algarve a região menos afetada. Quaresma dos Santos disse ainda que as ondas vão alcançar, durante esse período, dez a 15 metros de altura.

Derrocadas cortam trânsito

Ontem, numa das mais movimentadas artérias de Lisboa, a rua Garrett (Chiado), foi registado um abatimento do piso provocado pelas fortes chuvas, o que obrigou ao corte temporário da circulação. Situações semelhantes aconteceram nos Anjos (na Rua de Angola, uma das vias perpendiculares à Avenida Almirante Reis) e em Campo de Ourique (Rua do Arco do Carvalhão).Os abatimentos e a derrocada não provocaram danos materiais nem fizeram feridos, segundo informou a Proteção Civil municipal, referindo que as equipas se vão manter nas zonas afetadas a monitorizar a situação, uma vez que há sinais de que o piso pode continuar a abater.

A mesma fonte explicou também que, devido às previsões meteorológicas, nos próximos dias estarão no terreno, 24 sobre 24 horas, equipas de técnicos da Proteção Civil, com especial incidência nas zonas junto à faixa costeira.

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