Christian construiu o seu centésimo violino nos corredores do IPO

Os melhores músicos do mundo vêm a Lisboa encomendar-lhe violinos. O luthier Christian Bayon luta contra a leucemia e demorou seis meses a construir um violino, entre tratamentos

Christian Bayon segura na mão uns pedaços de madeira com a forma de uma viola. Está quase pronta. Hoje já deve ter fechado o tampo da viola, amanhã irá encaixar o braço e depois já terá as cordas e vai poder experimentá-la. "É sempre um momento emocionante. Esta é uma coisa completamente mágica: começar a trabalhar com pedaços de madeira e uns meses depois isso faz música. Mesmo 40 anos depois ainda acho que é algo fabuloso. Nunca me canso disto."

Christian Bayon é francês e descobriu a profissão de luthier quase por acaso. "Gostava muito de música rock e tocava guitarra. Um dia li uns artigos numas revistas que explicavam como se construía uma viola e decidi experimentar, como hobby, aos fins de semana. Os resultados eram terríveis mas eu interessava-me cada vez mais." Leu então um livro sobre a construção de violinos. Nunca tinha sequer pegado num violino mas ao saber que este era o instrumento mais difícil de construir decidiu que tinha de experimentar. "Levei um ano, o som ficou horrível mas eu adorei. A tal ponto que pensei que gostaria de fazer disso a minha vida." E, num ato de coragem, saiu da marinha, onde era técnico de aviões, para se dedicar a restaurar e construir instrumentos - tendo oportunidade de aprender com os melhores mestres e, aos poucos, de trabalhar para os melhores músicos. Em 1989 mudou-se para Portugal.

Ao longo destes 40 anos construiu cem instrumentos. A viola que está agora a terminar é o 101.º. Há duas semanas, sentou-se na plateia do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para ouvir a russa Tatiana Samouil tocar com um violino muito especial: não só porque aquele foi o seu 100.º instrumento mas, sobretudo, porque foi construído num período muito difícil da sua vida. Em março, Christian Bayon descobriu que tinha leucemia. De então para cá, passa grande parte do seu tempo em consultas e tratamentos de quimioterapia no IPO - Instituto Português de Oncologia. "Este violino número 100 foi feito durante a doença, foi uma construção muito mais complicada do que é costume", conta. "Vinha trabalhar entre dois tratamentos, logo que saía do hospital vinha para o ateliê."

De vez em quando, levava o violino para o hospital, era a sua companhia enquanto esperava pelo tratamento. "Houve umas coisas pequenas que eu consegui trabalhar lá, coisas simples, que dava para fazer lá, só precisava de uma mesa e mais nada. Obviamente não foi muito porque não se pode fazer pó nem usar produtos químicos, há muitas coisas que não se pode fazer num hospital. Mas mesmo fazendo pouco, ajuda a cabeça a pensar em coisas mais interessantes do que a doença", conta, com a sua voz tranquila e um ligeiro sotaque. "Normalmente demoro menos de dois meses para fazer um violino, este demorou mais de seis meses. Mesmo assim, ter conseguido foi muito bom."

Construir um instrumento é bom, mas o melhor mesmo é ouvi-lo tocar. "Na minha profissão há dois tipos de pessoas: as que fazem isto por amor ao trabalho com a madeira e outros por amor à música. Eu sou claramente pelo amor à música. A madeira é um meio de chegar à música." Christian Bayon lembra-se de todos os instrumentos que já construiu. "Obviamente aquele número 100 foi feito em condições muito especiais. Há outros que são tocados por pessoas mais famosas, que fazem concertos importantes, esses não foram especiais quando foram feitos mas a pessoa que o toca torna-o especial."

E a doença tem-lhe proporcionado outro tipo de experiências, como por exemplo o concerto que, em maio, organizou no serviço de hematologia do IPO. "A ideia foi da violinista polaca Veronika Schreiber, que é minha amiga e veio visitar-me quando fiquei doente", conta. "Ela ofereceu-se para ir lá tocar e reconfortar os doentes e as pessoas do hospital apoiaram-nos imenso. Escolhemos temas curtos e mais conhecidos mas não sabíamos como as pessoas iriam reagir. E foi muito emocionante. Ela tocou nos corredores, havia pessoas a passar, portas automáticas que se abriam, não são as condições ideais. Mas toda a gente - doentes, médicos, enfermeiros - ficou emocionada com o impacto que aquilo teve." De tal maneira que Christian já está a pensar em organizar mais concertos, quem sabe até alguma coisa "ambiciosa" para sensibilizar as pessoas para a doação de sangue e de medula.

Christian Bayon vai fazer 61 anos em breve. "Costumo brincar e dizer que vou receber uma medula de prenda no aniversário e cabelos no Natal." Isto porque o transplante está previsto para outubro e porque os tratamentos vão continuar e é provável que o cabelo caia mais um pouco. Mesmo sem saber bem o que vai acontecer, ele quer continuar a trabalhar. Começar a construir um novo instrumento ainda neste ano.

"Espero que o meu exemplo sirva também para animar as pessoas, mostrar que mesmo com uma doença pode-se fazer qualquer coisa, não é o fim do mundo, não adianta ficar prostrado", diz. Christian Bayon recusa-se a desistir: "Construir um instrumento dá-me um objetivo. Ter um projeto significa que vamos sobreviver a isto. É possível, há muitas pessoas que sobrevivem. Tenho a certeza de que isso me ajuda. A vantagem de ter uma vida interessante é que nós temos mais força para lutar. E eu quero a minha vida de volta, não tenho dúvidas sobre isso."

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