Casal russo que recebeu ucranianos em Setúbal diz que seguiu guião do SEF

Semanas depois da polémica, Igor e Yulia Khashin quebraram silêncio, garantindo que não remetaram nenhuma informação para o regime russo. Alto Comissariado para as Migrações diz que não lhe compete avaliar as ligações das associações responsáveis pela integração de pessoas ucranianas.

Tudo aquilo que foi perguntado aos refugiados ucranianos recebidos em Setúbal foi definido previamente pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e durante o processo de acolhimento destas pessoas "esteve sempre presente uma portuguesa, que preenchia os fomulários". "Foram tiradas fotocópias do passaporte e da certidão de registo de proteção temporária, que foram juntas ao processo e guardadas na câmara". As afirmações são de Yulia Khashin, em entrevista conjunta com o marido, Igor, aos jornais Setubalense e Público. O casal russo entrou na ordem do dia após ser revelada, pelo jornal Expresso, a sua participação no acolhimento de refugiados vindos da guerra na Ucrânia, sendo que a Associação de Ucranianos em Portugal (AUP) os acusa de ter ligações ao regime russo. Yulia e Igor dirigem a associação Edinstvo, criada em 2002, que colabora com o município de Setúbal desde 2005 e que tem sob a sua alçada a integração de imigrantes.

Na primeira entrevista após a polémica, o casal explicou a sua atuação, garantindo que as questões colocadas aos refugiados são as indicadas pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF): "Temos de digitalizar os documentos e anexar na plataforma. As questões, colocadas pela plataforma do SEF, e não por nós, são o nome da mãe, nome do pai, local de nascimento, agregado familiar. Tem de ir tudo preenchido". Igor disse ainda que não é espião russo e que não enviou dados para qualquer autoridade russa. "Ficámos numa situação em que nós é que temos que provar que não somos maus. Fiquei chocada", desabafou Yulia, lamentando: "O nosso trabalho de 20 anos foi destruído num dia".

O caso de Setúbal é apenas um entre vários, espalhados pelo território nacional, mas nenhum outro teve as mesmas repercussões. As alegadas ligações da associação parceira da câmara ao regime russo levaram os partidos da oposição (PS e PSD) a apresentarem, cada um, uma moção de censura ao executivo liderado por André Martins (eleito pela CDU) - ambas foram chumbadas. Além disso, foi ainda posta em cima da mesa a possibilidade da queda do executivo camarário, com todos os vereadores do PSD, à exceção de Fernando Negrão, a entregarem a demissão à concelhia do partido, esperando que os vereadores do PS também renunciassem aos cargos. Além da situação de Setúbal, terão também existido problemas no acolhimento de refugiados nas autarquias de Portimão (PS), Albufeira (PSD), Guarda (Movimento Pela Guarda), Aveiro (PSD) e Gondomar (PS), alega a AUP. Na sequência das denúncias feitas pela associação liderada por Pavlo Sadokha, o DN contactou as autarquias em questão. Nos casos de Portimão e Albufeira, não foi possível obter quaisquer respostas às questões apresentadas.

No caso de Aveiro, fonte da autarquia explicou ao DN que "a colaboração era feita com a junta de freguesia de São Bernardo" e que, entretanto, terminou o protocolo. Em comunicado, a junta de freguesia explicou que, mesmo não tendo provas concretas das alegadas ligações da Associação de Apoio ao Imigrante à Rússia, "decidiu suspender a atividade" de cooperação "até que tudo se esclareça". Em Gondomar, o executivo socialista estabeleceu um protocolo de colaboração com a Associação Amizade, também visada pela AUP. Quando questionada pelo DN sobre a eventual proximidade entre a associação em causa e o regime de Putin, a vereadora com o pelouro da Coesão Social, Cláudia Vieira, foi perentória: "Não temos conhecimento de quaisquer ligações entre a Associação Amizade e o Estado russo". De acordo com a autarca, "o acolhimento no município é acompanhado por técnicos da Câmara Municipal, o que, só por si, é uma garantia de cumprimento de todos os protocolos de confidencialidade". Até ao momento, a autarquia acolheu 200 refugiados vindos da Ucrânia, "todos eles já encaminhados".

A denúncia mais recente de alegadas falhas no acolhimento de refugiados ucranianos aconteceu na Guarda, onde terão existido pressões da autarquia para que dez refugiadas saíssem da cidade e se fixassem na localidade de Fornos de Algodres. Ao Observador, uma das mulheres disse que a mudança foi comunicada pelo chefe de gabinete do presidente da autarquia, sendo uma "ordem" do Alto Comissariado para as Migrações (ACM) que, contactado pelo DN, também não respondeu às questões enviadas.

Em comunicado no site do município, a autarquia explicou que a decisão de transferir "um grupo de 10 pessoas" foi "proposta e trabalhada em conjunto". Na mesma declaração - assinada em conjunto com o ACM -, a autarquia esclarece que foram recebidas no município 170 pessoas, todas elas "de braços abertos" com o objetivo de dar aos refugiados "uma vida autónoma, feliz, com paz e perfeitamente integrados na sociedade".

"Só soube dos problemas pela imprensa"

Depois de todas as acusações, o Parlamento quis ouvir Sónia Pereira, Alta-Comissária para as Migrações. No mesmo dia em que a PJ fez buscas na Linha Municipal de Apoio a Refugiados da Câmara de Setúbal, a responsável explicou que o ACM só tomou conhecimento em relação ao que foi noticiado "no momento em que saiu na imprensa".

No entanto, Sónia Pereira admitiu que "desde 2011 que o ACM tem sido alertado para o facto de haver algumas associações identificadas como pró-Putin", explicando que, apesar disso, o ACM não consegue avaliar se pelo menos 50% dos associados são da comunidade ucraniano, tornando-a representativa da população. "Se essas pessoas ucranianas têm ligações a Putin é algo que não está no mandato do ACM avaliar", frisou.

rui.godinho@dn.pt

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