Casa do Gil. Crianças em risco vão ter apoio em saúde mental

Quando surgiu há 11 anos era o único centro de acolhimento infantil com cuidados de enfermagem. Agora quer alargar área de apoio

Criar uma Unidade de Desenvolvimento Infantil para ajudar as crianças que são acolhidas no seu centro de acolhimento temporário é o próximo projeto da Casa do Gil, instituição que hoje comemora o 11.º aniversário.

"Será um alargamento das nossas valências para uma intervenção completa, o que será único. Fomos o primeiro centro de acolhimento temporário (CAT) a ter cuidados de enfermagem há 11 anos, mas essa área já está hoje mais coberta no geral. Na área da saúde mental é que há um vazio", explica a presidente executiva da Casa do Gil, Patrícia Boura, que quer ter este projeto ambicioso a funcionar no próximo ano.

A instituição acolhe 16 crianças em permanência dos 0 aos 12 anos, que são ali colocadas pela Segurança Social, depois de as sinalizar como menores em perigo. É no CAT que ficam a aguardar o desfecho do seu processo, que devia demorar meses, mas que pode acabar por se arrastar por anos. Maus-tratos, abandono, negligência são as causas habituais de retirada aos pais biológicos. São meninos que vêm fragilizados e com feridas invisíveis, para além das lesões físicas.

"A Unidade de Desenvolvimento Infantil (UDI) terá seis gabinetes e a ideia é que seja aberta à sociedade civil. Terá um psiquiatra, um terapeuta comportamental, um fisioterapeuta pediátrico, um psicólogo, etc. Será num modelo de parceria com quem sabe fazer isto, ainda não posso revelar quem. As pessoas pagarão as consultas a preços normais de mercado mas iremos tentar também acordos com serviços de saúde e seguros. E vamos garantir que esses técnicos disponibilizem umas quantas horas do seu dia para trabalhar com os nossos meninos", adiantou Patrícia Boura.

A angariação de fundos para o projeto da UDI que só deverá arrancar no início de 2018 - e cujo investimento inicial está estimado em 100 mil euros -, vai começar agora. Será um negócio social que depois irá gerar receitas para sustentar outros projetos da Casa do Gil. "Percebemos que estas crianças vêm com uma grande carência emocional, questões comportamentais e de saúde mental porque sofreram maus tratos e negligência. Os relatórios da Segurança Social são muito claros nisso: há uma grande percentagem de crianças em centros de acolhimento que têm problemas mentais", salientou a responsável.

As situações penosas por que passaram contribuem para os problemas de comportamento destes menores. Na Casa do Gil estão, por exemplo, dois irmãos que foram vítimas de maus-tratos severos pelos pais, que não os queriam. Também já estiveram na instituição três irmãos, cada um filho de um pai diferente, dois dos quais foram reintegrados com sucesso na família, no Algarve, o ano passado. "2016 foi o ano em que mais crianças passaram por aqui: tivemos 35 mas sempre na lógica das 16 de cada vez, vindas de todo o país. Ou seja, isto estava sempre em fila de espera".

Chegam a ficar três anos

Por lei, estas crianças devem estar acolhidas num CAT o máximo de seis meses. "Mas como os tribunais estão sempre a promover novas medidas com a família biológica das crianças, de seis em seis meses, essa espera pode ir até aos três anos ou mais", explicou Patrícia Boura.

A Casa do Gil só tem regras para o limite da idade de admissão dos menores mas não para o tempo que as crianças podem ficar, depois de admitidas. "O tempo médio de permanência das crianças aqui é de 10 meses. Mas já tivemos meninos cujo processo demora três anos a ser resolvido, o que é assustador. Não é o desejável, por causa da dificuldade de interação que depois têm com os mais novos, mas não mandamos ninguém embora", sublinhou a presidente executiva da Casa do Gil. "Na maior parte dos casos, estes meninos voltam para as famílias. Estudamos o processo e tentamos perceber se é possível recuperar o pai ou a mãe. Quando não é, vemos se há um tio ou tia, se há avós."

Durante um ano ou ano e meio depois de a criança sair da instituição, a Casa do Gil continua o acompanhamento do menor. "A nossa assistente social visita depois a família e verifica se está tudo a correr bem."

Um outro projeto que a Casa do Gil quer ter a funcionar no início do próximo ano é um pavilhão multiusos no jardim, no Parque da Saúde, na Avenida do Brasil. "Será um pavilhão aberto à sociedade e que as famílias podem usar para festas de aniversário, ateliês de férias para as crianças e outras atividades, ao longo de todo o ano. A ideia é gerar receitas com o aluguer do espaço a particulares e às empresas numa lógica também de negócio social", explicou Patrícia Boura.

Está também previsto um alargamento da ação das unidades móveis de apoio ao domicílio, que a Casa do Gil tem a funcionar em Lisboa e no Porto, para ajudar crianças com doenças crónicas que não podem sair de casa. A instituição pretende agora ter também ter unidades móveis de cuidados paliativos pediátricos. A primeira carrinha com equipa começa a funcionar em setembro, no Porto.

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