"Caminhamos a passos largos para a imunidade de grupo, mas não se pode abandonar regras de proteção"

A União Europeia quer atingir a imunidade de grupo até 14 de julho. Portugal no início do verão. É a nova fase, que poderá ser alcançada com 70% da população vacinada. Mas será que esta percentagem é suficiente? Pode não ser. Portanto, há que manter regras de proteção.

Quantas mais pessoas vacinadas, mais depressa se alcançará a imunidade de grupo e o mundo ficará protegido do SARS-CoV-2. Esta tem sido a tese científica que tem levado os países a querer acelerar o processo de vacinação. Alguns, vão conseguir concluí-lo mais cedo do que outros. Mas ainda nada é totalmente seguro em termos de imunidade relativamente a este vírus. Sabe-se que as vacinas dão proteção eficaz contra a manifestação da doença e óbitos, mas não se sabe até que ponto reduzem a transmissão da doença.

Portanto, e como referiram ao DN alguns especialistas, a percentagem de 70% não pode ser assumida como um valor absoluto, a partir do qual se decide alterar comportamentos, nem as regras de proteção podem ser abandonadas tão depressa. Esta é, pelo menos, a mensagem importante que este cientistas consideram necessário passar, para não se fazer perigar o que já foi conquistado até aqui, quer em Portugal quer em outros países da Europa e do mundo.

Importa recordar que, no início da pandemia, houve países que chegaram acreditar, como a Suécia, o Brasil e os Estados Unidos da América, que a imunidade de grupo ao SARS-CoV-2 seria alcançada sem regras de proteção e ao fazer com que a população gerasse anticorpos naturalmente para combater o vírus. O número de infetados e de mortes nestes países demonstrou rapidamente, que, afinal, não era bem assim.

A ânsia pela descoberta de uma vacina para combater a doença pressionou a ciência em busca de respostas e, quando tal aconteceu - as primeiras vacinas foram aprovadas nos Estados Unidos e na Europa, em novembro de 2020 - os cientistas lançaram logo as bases para uma nova fase ao estimarem que seria possível atingir a imunidade de grupo, ou maior índice de proteção para um país, para um continente ou para o mundo, quando 70% da população estivesse vacinada.

Aliás, foi com base nesta percentagem que o Reino Unido, no início de abril, chegou a anunciar que atingiria a imunidade de grupo a meio do mês. Mas, mais uma vez, e com o SARS CoV-2, afinal não foi bem assim.

O mesmo pressuposto fez também com que Joe Biden definisse a data de 4 de julho, feriado da independência, como aquela em que o país atingiria a imunidade de grupo. O Comissário Europeu para o Mercado Interno, Thierry Breton, talvez para "sossegar" e dar alguma confiança às economias, também veio dizer que a União Europeia poderia atingir a imunidade de grupo a 14 de julho.

O objetivo parecia ambicioso para alguns especialistas, mas com o acelerar dos processo de vacinação no últimos dias, vários Estados-membros vieram anunciar que a meta da imunidade de grupo estava mais próxima, incluindo Portugal. No início do processo de vacinação, em janeiro, as autoridades de saúde portuguesas estimava atingir os 70% de vacinados no final do verão, agora já passou para o início do verão. Mas, agora que esta meta se aproxima, são os cientistas que voltam a colocar questões, alertando para o facto de esta percentagem ter de ser revista. Ou melhor, para a necessidade de não ser assumida como um "valo absoluto, como um valor fixo, a partir do qual se mudem os comportamentos", explicou ao DN Luís Graça, imunologista e especialista em vacinas.

Percentagem de 70% não pode ser um valor fixo

Mas, a nível internacional, Anthony Faucci, o imunologista norte-americano, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA e conselheiro da Casa Branca, foi dos primeiros a alertar para este facto, argumentando mesmo que para estarmos mais protegidos do vírus, prevenindo novos surtos e novas variantes, o mais provável é que esta percentagem tenha de ser elevada para os 90%.

Em Portugal, Luís Graça, investigador do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM) e membro da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid-19, defende não podermos ficar agarrados "a um valor ou a uma percentagem fixa para a fase da imunidade de grupo, achando que quando esta for alcançada já se pode mudar comportamentos".

154 Milhões. Este é o número de casos de infetados no mundo. Mais de 3,3 milhões morreram. Em Portugal, o total de infetados é de 838 102 e de mortes é de 16 983. Ontem, foram registadas mais 397 novas infeções.

Na opinião deste investigador, "não faz sentido que aos 69% da população vacinada se tenha de cumprir todas as as regras de proteção individual e coletivas e que aos 70% isto acabe". Luís Graça dá o exemplo de Israel, que é dos países mais avançados na vacinação e com maior número de população protegida, e que tem vindo a aligeirar as medidas de proteção de forma progressiva. "Não podemos mudar de comportamentos de um de dia para o outro, nem que tenhamos de pensar noutras estratégias para proteger o país de novas infeções e de surtos".

Ana Paula Rodrigues, médica de saúde pública do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA) e coordenadora do primeiro inquérito serológico nacional - cujos resultados detetaram imunidade contra a doença em 15,5% da população, 13,5% com origem na infeção natural - também considera que os 70% de população vacinada pode não bastar para travar a doença.

A médica afirma ser um facto que "caminhamos a passos largos para a imunidade de grupo", mas que "as regras de proteção não são para abandonar tão depressa" - nomeadamente "o uso de máscara, o distanciamento físico e a higienização das mãos".

Porquê? Porque apesar de se ter conseguido proteger 70% da população e, provavelmente, todos os grupos de maior vulnerabilidade, o "vírus não desapareceu, continua entre nós, e logo há probabilidade de novas infeções", argumentam os dois especialistas.

Luís Graça explica: "Com esta percentagem de população vacinada, o vírus pode já não conseguir infetar no grupo de pessoas mais vulneráveis, mas pode infetar no seio de outros grupos ainda não vacinados e de grande densidade populacional levando à possibilidade de ocorrência de surtos", exemplificando com o grupo de estudantes universitários. "É um grupo de população muito jovem que ainda não está vacinado, portanto a probabilidade de ocorrer infeção neste meio continua a existir e a ocorrência de surtos também".

Até porque, "a variante predominante no nosso país é a do Reino Unido, que comprovadamente tem maior transmissibilidade do que o vírus inicial". É neste sentido que ambos os especialistas sustentam que a percentagem de 70% de vacinados poderá não dar imunidade de grupo.

No entanto, a médica Ana Paula Rodrigues defende que o otimismo tem de prevalecer. "Em Portugal, o processo de vacinação está a correr bem e estão a chegar vacinas de dose única, o que também irá dar proteção total a um maior número de pessoas, mas, sublinha, ser preciso "entender o conceito de imunidade de grupo, que não é muito fácil, e que pode gerar expectativas que depois poderão não ser concretizáveis".

Ou seja, é um conceito de há muito da saúde pública - a primeira vez em que terá sido usado foi em 1910 e em relação à proteção de animais perante uma doença, daí a designação ainda tantas vezes usada, imunidade de rebanho - "usado para definir o estado de uma população em relação a uma doença, neste caso a um agente infeccioso, que é o SARS CoV-2. Quando a maior parte das pessoas está protegida contra esse agente isso vai impedir que este circule na comunidade e junto de pessoas que ainda não estão imunizadas, ou porque não foram vacinadas ou porque não foram infetadas e não ficaram naturalmente protegidas".

Mas, no caso da infeção por SARS CoV-2, alerta a médica, a questão da imunidade de grupo ou a possibilidade de se mudar de comportamentos pode não ser uma realidade com os 70% da população vacinada, por várias razões.

Em primeiro lugar, "porque tudo o que observamos com a eficácia das vacinas é respeitante a um período de tempo ainda muito curto, não se sabendo o que irá acontecer com o evoluir do tempo", nomeadamente quanto tempo poderá durar a imunização pela vacina.

Em segundo, refere Ana Paula Rodrigues, no caso do SARS CoV-2 e das vacinas que estão a ser usadas contra este vírus ainda não foi observado efetivamente que "as pessoas vacinadas não venham a desenvolver à mesma a infeção e até a transmiti-la, sobretudo a outras pessoas de grupos altamente vulneráveis. É claro que, se isto acontecer, será em menor probabilidade, porque as pessoas estão vacinadas e à partida terão uma expressão mais ligeira do vírus e com menos hipóteses de transmissibilidade, mas é algo que pode acontecer".

Vacina reduz transmissão mas não se sabe quanto

O imunologista Luís Graça esclarece que o que se sabe hoje sobre as vacinas é que estas são "especialmente eficazes a evitar complicações graves da doença" - o que é possível perceber pela redução do número de internamentos em enfermarias, em unidades de cuidados intensivos e de óbitos, sobretudo na faixa etária acima dos 80 anos, que era também a mais atingida peça doença - mas também já "se sabe que as vacinas usadas reduzem a transmissão da doença, embora ainda não se consiga saber concretamente em que medida".

Para o cientista, a mensagem importante a transmitir é a de que a prioridade tem de ser a vacinação da população e que a percentagem inicialmente definida não pode ser assumida como um valor fixo.

Tal mensagem é tão importante quanto mais tivermos presente que a disseminação da doença acontece através da mobilização das pessoas. Um dos casos mais recentes é o da variante da Índia, que está a ser responsável pelo impacto atual da doença naquele país, que chegou a atingir mais de 400 mil casos de infeção por dia e mais de três mil mortes, e que em pouco tempo se estima que já está espalhada em em mais de 20 países, inclusive Portugal, onde na sua semana passada havia seis casos. Ana Paula Rodrigues recorda que, apesar da vacina, a única forma de evitar a transmissão da doença é o distanciamento físico.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) também veio alertar os países que a meta para a imunidade grupo a nível mundial não será atingida em 2021, sendo muito clara ao afirmar que o mundo não está ao mesmo ritmo, quer na doença quer na vacinação, sublinhando a necessidade de uma distribuição mais equitativa de vacinas.

Europa quase toda ao mesmo nível na imunidade

Relativamente à Europa, o pneumologista Filipe Froes, que integra também a comissão do Plano Nacional de Vacinação, considera que os países da UE estão mais ao menos todos ao mesmo nível, "quando uns atingirem os 70% de população vacinada, os outros estarão muito perto", admitindo, no entanto, que em matéria de vacinas, não há dúvida de que "os países que mais investiram na investigação e na sua produção foram privilegiados, na medida em que tiveram acesso às vacinas mais cedo".

284 Milhões. Este é o número de população com vacinação completa no mundo inteiro. China, Estados Unidos e Índia são os países que mais vacinaram. Portugal já ultrapassou os 3,5 milhões de doses administradas, embora só 3,6% da população tenha vacinação completa.

O Reino Unido "foi o primeiro país da Europa a iniciar a vacinação, porque teve acesso precoce às vacinas, e é normal que atinja mais cedo a imunidade de grupo do que qualquer outro país". Para o médico, "a vantagem dos países que começaram mais cedo a campanha de vacinação em massa é que vão conseguir iniciar a recuperação económica também mais cedo".

Ana Paula Rodrigues reforça ao mesmo tempo que o que se sabe das vacinas são boas notícias. "Os resultados que vão aparecendo dizem-nos que conferem uma boa proteção. Em Portugal, basta ver o que está a acontecer nos lares, onde já há muito poucos surtos e óbitos".

Portanto, "a vacinação está a ter este efeito e podemos dizer que caminhamos a passos largos para uma maior proteção da população, mas, ainda assim, e durante algum tempo, precisaremos de manter as medidas de proteção, até para protegermos os que nos são mais próximos e não estão vacinados". Reforçando: "O mais importante neste momento é não darmos como certo que a imunidade de grupo vai ser atingida no mês X ou no mês Y. Não tem de acontecer em julho, pode acontecer mais tarde, porque só o facto de estarmos a proteger a população contra a doença é muito favorável para o sistema de saúde e para o seu funcionamento".

Por outro lado, "mesmo que não se atinja já a imunidade de grupo, o importante também é que não vamos voltar a ter números de infeção e de óbitos tão elevados como os que observámos no passado".

A vacina é uma arma potentíssima de combate à pandemia, mas, pelos vistos, ainda não é suficiente para se mudar de comportamentos e poder deixar as máscaras de lado o distanciamento físico. Como reforçam os especialistas portugueses, "as medidas de proteção e de higiene individuais e coletivas devem ser mantidas, pelo menos, em alguns momentos e em algumas situações".

O imunologista Ugur Sahin, que ajudou a criar a vacina da Pfizer, explicou haver estudos que demonstram que a imunidade diminui ao longo dos meses, assumindo que será necessária uma terceira dose para esta vacina já no próximo ano ou que serão necessárias doses sucessivas a cada ano ou ano e meio, ou algo semelhante ao que acontece com a vacina da gripe, até a doença estar controlada.

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