Birras à mesa. É possível acabar com as guerras em seis semanas

A comida não pode ser uma moeda de troca nem servir de recompensa. Não se deve obrigar uma criança a comer, mas também não se pode desistir ao primeiro não

Quase todas as refeições eram um momento de ansiedade para Joana. A filha, Leonor, de 21 meses, recusava-se a comer alimentos sólidos, o que a obrigava a triturar tudo. Se sentisse um pequeno grumo, forçava logo o vómito. A hora de jantar tornou-se um pesadelo. Com a ajuda de Filipa Sommerfeldt Fernandes, especialista em ritmos de sono, Joana experimentou diferentes estratégias, entre as quais expor diariamente a filha aos diferentes alimentos. Aos poucos, Leonor começou a ter vontade de os descobrir. Quando viu a filha estender o garfo pela primeira vez para apanhar massa e frango, Joana ficou "em êxtase", mas não se manifestou.

"Há comportamentos nossos que não ajudam em nada a relação que os nossos filhos têm com a comida. A alimentação tem de ser algo natural. Não pode ser uma coisa forçada nem a todo o momento ser felicitada", diz ao DN a terapeuta, que há um ano e meio decidiu dedicar-se também ao tema da alimentação. Nas consultas do sono, Filipa apercebeu-se de que a hora da refeição era um pesadelo para muitos pais, o que a levou a procurar estratégias para os ajudar, que agora reuniu no livro Comer sem Birras. Quer ajudar os pais para que as crianças comam de forma variada e sem guerras, o que, assegura, pode ser conseguido com um plano de seis semanas.

A hora de jantar é, muitas vezes, um dos poucos momentos para estar em família, mas tende a ser um momento de tensão. "Os pais ficam enervados porque os miúdos fazem birras, não comem, atiram tudo para o chão, recusam os pratos oferecidos, só comem com o tablet à frente", diz a autora. A principal queixa dos pais é a rejeição dos alimentos mais saudáveis: a sopa, os legumes, a fruta. "Depois, é o facto de nunca aceitarem alimentos novos. E as birras à mesa, porque dizem que não querem comer, ou só comem duas garfadas." Há crianças, revela, que só comem a ver um vídeo no telefone ou tablet.

O primeiro conselho que dá aos pais é para relaxarem: "Uma criança saudável não vai recusar alimentos se tiver fome. Quando temos campainhas dentro de nós que soam cada vez que eles não estão a comer o que nós achamos que é o indicado, acabamos por stressar e tornar o ambiente pesado." Não os obrigar a comer, propõe, mas não desistir à primeira. No livro, a autora aconselha os pais a fingir que não estão enervados e que não se importam, "mesmo quando estão à beira de um ataque de nervos".

É importante acabar com os petiscos antes da hora de jantar. "Quando vêm da escola, comem uma bolachinha, queijo, uma maçã ou uma tosta. Depois chegam ao jantar tarde, cansados e com a barriga cheia de vários petiscos... E não querem." O ideal, diz a autora, é não dar o jantar muito tarde a crianças pequenas, porque "já estão muito cansadas e ficam rabujas".

Outra regra de ouro para preparar uma "boa boca" é deixar de usar a comida como moeda de troca. Esqueça a estratégia "se comeres os brócolos, dou-te gelado no final da refeição", porque vai "passar a ideia de que a comida saudável não sabe bem e tem de ser recompensada". O papel dos pais, diz a terapeuta, influencia imenso a perspetiva das crianças sobre a comida.

Quando chega ao capítulo do plano, o leitor deve começar por "limpar o ar", ou seja, deixar de se chatear com o filho por causa da comida. "Se quer comer no sofá, se quer sempre a mesma massa com salsicha ou evita uma maçã como um vampiro evita a luz do Sol... deixe-o." Seguem-se duas semanas em que a criança come apenas o que mais gosta, cozinhado de diferentes formas. Depois das tréguas, vem a introdução de novos alimentos, misturados com aqueles que a criança gosta. Depois é consolidar tudo o que foi aprendido, com a adoção das porções mais saudáveis.

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