Bebé nasceu 15 semanas depois de mãe ficar em morte cerebral

Parto realizou-se no hospital de São José e bebé internado nos cuidados intensivos neonatais da Maternidade Alfredo da Costa. É um recorde manter a gravidez tanto tempo

Esta é certamente uma história que emocionou todos os que acompanharam as últimas 15 semanas de S., de 37 anos, e do bebé que nasceu ontem no hospital de São José. Irá certamente continuar a emocionar. O bebé, um menino, nasceu às 32 semanas de gestação, depois de mais de três meses a crescer no útero da mãe que foi declarada em morte cerebral a 20 de fevereiro, às 23.43. A partir desse momento foram os médicos, os enfermeiros e as máquinas que levaram a bom termo o que se pode chamar um milagre da ciência e dos homens.

A morte cerebral de S. [mãe da criança] foi consequência de uma hemorragia intracerebral, explica o comunicado do Centro Hospitalar Lisboa Central (CHLC), a que pertencem as duas unidades. A jovem de 37 anos deu entrada no hospital de São José, ao que o DN apurou, vítima de um acidente grave, com multitraumatismos. Estava grávida de 17 semanas.

"Perante a gravidez em curso, S. foi avaliada pela especialidade de obstetrícia, que considerou que o feto se encontrava em aparente condição de saúde. Após parecer da Comissão de Ética e direção clínica do CHLC e numa decisão concertada com a família de S. e família paterna da criança, foi acordada a manutenção da gravidez até às 32 semanas, por forma a garantir a viabilidade do feto", explica o centro hospitalar, que não adiantou mais detalhes sobre a situação, além do referido no comunicado.

O mesmo acrescenta que a administração nomeou um conselho científico para acompanhamento do processo, composto por um representante da Ordem dos Médicos, um representante da Comissão de Ética, um obstetra e a equipa de intensivistas.

Parto sem problemas

A jovem ficou internada nos cuidados intensivos de neurocirurgia do São José, ligada às máquinas que asseguraram a respiração artificial, assim como a alimentação que garantiu que o bebé se desenvolvesse. A situação sensibilizou todos e os enfermeiros terão até feito um pequeno enxoval para o bebé.

"O bebé - do sexo masculino - nasceu com 2,350 quilos, após uma gestação de 32 semanas, sem complicações durante e após o ato cirúrgico", refere o centro hospitalar. Após o nascimento, o bebé foi encaminhado para a unidade de cuidados intensivos de neonatologia da Maternidade Alfredo da Costa, onde deverá ficar internado pelo menos até às 36 semanas, como acontece habitualmente aos prematuros do mesmo tempo.

Um recorde em Portugal

"De acordo com as equipas médicas que acompanharam o caso, trata-se do período mais longo alguma vez registado em Portugal - 15 semanas - de sobrevivência de um feto em que a mãe está em morte cerebral", salienta o comunicado do CHLC. "É um longo período e casos como este são raros. É um recorde fazer durar tanto tempo - foram 15 semanas - uma gravidez nestas condições e manter o bebé a crescer. O que mostra a belíssima qualidade dos médicos internistas e da restante equipa do Centro Hospitalar Lisboa Central", diz Luís Graça, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia, referindo que se lembra de uma situação semelhante em 2007-2008 "no Santa Maria, mas foram duas a três semanas até ao nascimento".

O médico refere que com 32 semanas já não se trata de um grande prematuro e o peso que apresenta é bom, até superior ao que bebés com o mesmo período de gestação por vezes têm, com um processo tão complexo. "A mãe foi mantida artificialmente viva, com apoio de respiração e alimentação de forma a garantir que a circulação útero--placentária estivesse assegurada, permitindo levar a gravidez até ao momento em que era seguro o bebé nascer. Dou os parabéns aos meus colegas por este êxito", acrescenta, salientando que a decisão foi tomada numa altura muito precoce da gravidez. "Quando a situação acontece às 24, 25 semanas, o instinto é prosseguir com a gravidez. Tomar a decisão às 17 semanas, foi um ato de confiança do serviço e da família da mulher e do pai da criança. Esta é uma decisão que tem de ser sempre da família."

Sobre a possibilidade de levar a gravidez até ao fim (40 semanas de gestação), Luís Graça explica que a opção tomada de antecipar o parto foi a mais correta. "Não faria sentido levar a gravidez até ao fim porque poderia haver um acidente inadvertido, como uma infeção ou o funcionamento do organismo, mesmo com apoio, começar a ser insuficiente para o feto crescer", explica o médico obstetra.

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