"Aumento de casos é o primeiro impacto do reforço da testagem"

Portugal registou nesta quarta-feira o maior número de casos desde o dia 6 de abril. Especialista Carlos Antunes diz ao DN que é uma situação normal, que tem a ver com o reforço da testagem em Lisboa, mas o pico ainda não foi atingido. Poderá acontecer na próxima semana, depois espera-se que estabilize e reduza.

Em 24 horas, Portugal passou de 445 para 724 novos casos de covid-19. O número registado ontem é o maior desde 6 de abril, altura em que o país começou a desconfinar. A incidência no continente, e muito por "culpa" de Lisboa, também passou de 60,4 para 63,7 casos por 100 mil habitantes, e de 63,3 para 66,4 a nível nacional. O R (t) também aumentou, embora ligeiramente, de 1,06 para 1,07 a nível nacional e de 1,07 para 1,08 no continente. Mas o aumento significativo de um dia para o outro no número de casos faz questionar se será uma tendência que se vai manter ou não.

Ao DN, o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Carlos Antunes, que faz a modelação da evolução da doença desde o início da pandemia, explica que esta situação se deve ao reforço da testagem iniciada na semana passada em Lisboa e, eventualmente, a algum aumento da transmissibilidade. "A explicação está no aumento significativo da testagem, que tem como consequência, numa primeira fase, o aumento no número de casos e da incidência, porque está a apanhar casos mais rapidamente, mas, a prazo, vamos ver que a incidência vai estabilizar e diminuir." Ou seja, é uma situação normal, porque, justifica, "a estratégia de testagem tem como objetivo quebrar cadeias de transmissão precocemente, portanto, o que observamos numa primeira fase é o aumento da incidência, numa segunda a sua redução e é isto que se espera que aconteça".

O especialista salvaguarda ainda que "há mais testagem, mas a positividade está estável, em 1,2% há quase uma semana", alertando, no entanto, para uma outra situação. "É o que se espera que venha a acontecer, mas, nos próximos dias, há várias situações que poderão aumentar o risco de contágio, como o turismo, os ajuntamentos por causa de Santos Populares, festejos académicos, etc." Carlos Antunes diz mesmo que não podemos descansar, porque a região de Lisboa e vale do Tejo é a grande preocupação - tem quase 50% dos casos registados no país e uma incidência de 110 casos por 100 mil habitantes. Dentro da região, o concelho de Lisboa está na frente, com 177 casos por 100 mil habitantes, podendo atingir os 240 nos dias 13 e 14 de junho. Mas há outros concelhos no país que estão a subir significativamente.

"Lisboa ainda é a preocupação, mas há mais concelhos que começam a subir paulatinamente. Cascais diminuiu um pouco o ritmo, mas continua a subir, já atingiu os 102 casos por 100 mil habitantes e poderá chegar aos 120 na próxima semana. No norte, por exemplo, que como região está com um R (t) acima de 1, Braga é dos concelhos com maior aumento de casos. Amanhã [hoje] deverá ser colocado na lista dos que atingiram os 120 casos por 100 mil habitantes. Odemira é outra preocupação, porque não está a conseguir controlar a situação", alerta Carlos Antunes.

Segundo explica, no dia 31 de maio, de acordo com os dados oficiais que recebe, e que só são divulgados, por norma, à sexta-feira, Odemira estava com 417 por 100 mil habitantes, quando há duas semanas estava abaixo dos 240 casos.

Portanto, "aumentou significativamente e como agora foi classificado como um concelho de baixa densidade [ver páginas 4 e 5] vai ser colocado abaixo dos 440 e não vai ter grandes restrições, o que irá potenciar o contágio". Ao passo que, especifica, "outros concelhos mais pequenos, como a Golegã, estão nos 240 casos por 100 mil habitantes e vão ter restrições".

Critério de baixa e alta densidade é problemático

Para o professor da Faculdade de Ciências de Lisboa, o critério de classificação de baixa e alta densidade, anunciado ontem pelo primeiro-ministro, António Costa, após a reunião do Conselho de Ministros, em que se decidiram as regras para um desconfinamento mais prolongado a partir do dia 14 de junho, poderia ser problemático "se estivéssemos no contexto de pico que vivemos de novembro a janeiro. Do ponto de vista da decisão politica é uma decisão que poderia comprometer o controlo da pandemia em termos de incidência. Só que, agora, temos a vacinação, que já protegeu os mais velhos, e acredito que tal não sucederá."

O especialista explica que é um erro considerar que a densidade populacional é diferente de vila para vila, mesmo que sejam de concelhos maiores. "As pessoas nessas zonas, e à exceção talvez do Alentejo, não vivem distanciadas, vivem nas freguesias, nas vilas. E a densidade populacional numa vila é a mesma praticamente em todo o país", comenta, sustentando que este critério terá sido acrescentado por alguma pressão dos municípios, mas que "é uma decisão que poderia sair cara ao país no contexto de uma situação da pandemia não controlada".

O importante é percebermos que "continuamos numa situação de alerta, porque se compararmos os dados de hoje com os de há uma semana ou há duas, no mesmo dia, até meados de abril sistematicamente superámos os casos do dia homólogo da semana anterior.

Nesta quarta-feira superámos a quarta da semana passada e esta já tinha superado a da semana anterior. É uma circunstância que se mantém, e quando se mantém significa que há indicadores que têm de ser observados para se saber o que está a acontecer". E Carlos Antunes faz, mais uma vez, um alerta: "É preciso maior vigilância, maior rastreio epidemiológico, mais testagem rápida e notificação e isolamento dos casos."

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