Até quando viveremos em pandemia? A única certeza é a de que "não termina no mês que vem"

Há dois anos que o mundo luta contra o SARS-CoV-2, que tem infetado populações de todas as idades, embora de forma mais grave, idosos e vulneráveis. Mas o vírus continua a surpreender e a trocar as voltas ao mundo. A variante Ómicron é a nova ameaça. E, mesmo para Portugal, que é dos países com uma das maiores taxas de cobertura vacinal do mundo, o futuro da pandemia "não é previsível".

Falar do futuro da pandemia não é vago, é muito vago. A falibilidade é grande. Assim o diz ao DN o médico infecciologista António Silva Graça. E tanto era no início de 2020, quando o SARS-CoV-2 atingiu a Europa, como quase dois anos depois de este novo coronavírus ter sido identificado na província de Wuhan, na China. "O percurso das pandemias não é previsível", argumenta. Portanto, nesta altura, apenas há uma certeza: "Não é uma coisa que termine no mês que vem." O futuro da pandemia tanto pode ser determinado pelo aparecimento de uma nova variante, como pelo acesso da população mundial às vacinas que a previnem ou aos medicamentos que surgem para a tratar, como pelas medidas de controlo da infeção que cada país vai assumindo de acordo com a evolução da doença. Por tudo isto, e na opinião deste especialista, a sua evolução também "será muito desigual".

Em Portugal, e até este final de 2021, o SARS- CoV-2 já infetou perto de 1,3 milhões de pessoas e provocou quase 19 mil óbitos, mas mais de um milhão conseguiu recuperar da doença. O início do ano foi o pior momento da pandemia até hoje, tendo o pais chegado aos 16 mil casos diários e a mais de 200 óbitos por dia. O país teve de se adaptar à crise sanitária, com novo confinamento geral, para que os serviços de saúde tivessem capacidade para tratar de todos os infetados, mas com isso a assistência a outras doenças ficou para trás. O impacto desta situação ainda não está completamente determinado, mas quando se fala de futuro o que se espera é que tal não volte a acontecer.

Mas sobre isto, certezas também não as há. Tudo porque o SARS-CoV-2 não vai desaparecer de imediato, vai continuar por cá, não se sabe durante quanto tempo mais, porque é algo que não se consegue antecipar. "A pandemia vai continuar por mais tempo, mas não conseguimos antecipar quanto tempo mais. A situação pode é ser vivida de forma diferente do que vivemos no primeiro ano, mas tem de ser reconhecida como fazendo parte do presente e da qual não nos libertaremos de imediato", destaca o infecciologista, sublinhando até que "a grande inquietude e ansiedade das pessoas em atingir-se o fim da pandemia, apesar de ser um sentimento natural, torna a sua vivência mais difícil".

Por isso, diz, "se era importante no início transmitir-se às pessoas que não estávamos perante uma corrida de curta distância, mas perante uma corrida de fundo, uma maratona, que iria exigir muito fôlego e uma predisposição da nossa parte para fazer essa corrida, agora também o é". Tanto mais que há mensagens recorrentes sobre "a libertação", quando se inicia o desconfinamento, ou que "a pandemia terminou" aquando do aparecimento das vacinas ou de novos medicamentos, que não são benéficas. "Como forma de comunicação estas mensagens não são benéficas, porque levam as pessoas a crer que a pandemia está ultrapassada e a ficarem menos recetivas a manter os cuidados que continuam a ser importantes para evitar a transmissão do vírus". E este aspeto tem de ser sublinhado se queremos viver esta pandemia de forma mais fácil e diferente da forma como muitos a têm vivido.

A onda que estamos a viver vai durar até ao início do ano

Portugal vive uma nova onda epidémica. Ao longo de 2021 acumulou três ondas, a primeira ainda com início no final de 2020, a seguinte chegou ao entrar do verão e durante o desconfinamento, e a esta última, como explica Silva Graça, "começou em final de outubro, progrediu desde então e, muito provavelmente, vai prolongar-se ainda no início do novo ano".

O país poderá vir a ter mais ondas epidémicas no próximo ano. Não se sabe quantas. Tudo dependerá da evolução da doença, do aparecimento de novas estirpes, das medidas assumidas pelo país e até do comportamento de cada indivíduo. Mas para o início de 2022, o infecciologista acredita que "ainda vamos ter de viver com esta onda durante mais algumas semanas, e não me parece que haja uma nova onda logo a seguir", explicando: "Se esta onda epidémica mantiver o mesmo tipo de padrão que outras têm tido, deve manter-se no início do ano. É claro que não consigo prever a emergência de novas estirpes, mas consigo antecipar que se conseguirmos reduzir de forma significativa o número de novos casos é porque tivemos sucesso nas medidas aplicadas."

Mas é nesta altura da conversa com o DN que reforça: "As pandemias, e esta nomeadamente, têm um curso que não é previsível. Podemos arriscar antecipar a sua evolução, mas a falibilidade é muito grande".

A nova ameaça Ómicron

Neste momento, estamos perante uma nova ameaça, aquela que surgiu com a identificação de uma nova variante, a Ómicron, numa região da África do Sul, há cerca de um mês. Silva Graça sustenta que se trata de "uma situação que se sabia que poderia acontecer e que se pode repetir". Faz parte do percurso das pandemias, "sempre que uma infeção não está controlada e há grandes desigualdades na proteção da população, e estamos a falar de uma crise sanitária mundial, a possibilidade de emergirem novas estirpes do vírus, às vezes até por engano do próprio vírus no seu processo de multiplicação, é muito grande". São variantes que acabam por ter características que fazem com que venham a ocupar a posição maioritária de outras estirpes que já circulavam na comunidade.

O infecciologista explica: "Ocupam essa posição porque se transmitem mais facilmente e, em pouco tempo, assumem a posição dominante, por vezes, até de uma forma absoluta na comunidade. Portanto, este é um dos riscos que corremos de forma repetida, porque a evolução do vírus torna possível que tal aconteça". Contudo, salvaguarda, o futuro da pandemia também pode não passar por aqui. "Este é o percurso natural deste vírus, não há dúvida, mas nada nos garante que seja esta a evolução da pandemia. Se não houver condições para o aparecimento de novas estirpes, que se venham também a tornar dominantes, o tipo de evolução pode não ser por ondas epidémicas sucessivas. É difícil de prever e arriscado fazê-lo, e sem segurança de que seja este o comportamento".

Silva Graça especifica que o comportamento alternativo à recorrência de ondas epidémicas é o da evolução a que nos habituaram outros vírus do grupo dos coronavírus, com picos nos tempos frios, no inverno. "Estes vírus não são novos, convivemos com outros vírus que são do mesmo grupo e que estão de forma recorrente presentes na nossa vida, particularmente no inverno. São vírus que se comportam sem gerar ondas epidémicas, mas que vivem connosco numa situação de endemia e com alguma constância em algumas épocas do ano". Relativamente ao coronavírus SARS-CoV-2, o médico sublinha que "a sua evolução vai ser muito desigual. Não só pela importância que têm as diferentes medidas que as autoridades de saúde tomam, mas também por razões culturais, responsáveis pela adoção mais ou menos fácil dos programas de vacinação, e pela aceitação das medidas de proteção que cada um de nós tem de tomar".

Começamos a ter mais meios para controlar a pandemia

A questão importante para o futuro é saber que caminho seguir para controlar a pandemia. Neste momento, e como refere Silva Graça, "começamos a ter mais formas de a controlar. Ou, pelo menos, de controlar as manifestações mais graves da doença. Isto foi evidente com o aparecimento das vacinas, e é agora também com o surgimento de novos fármacos antivirais que vão poder ser administrados, não só em contexto hospitalar, mas antes, sempre que se antecipe que se está perante uma infeção que pode progredir para uma forma clínica grave, que possa vir a necessitar de internamento".

Em 2021, o percurso da pandemia mudou com a vacinação que previne a doença grave, com o surgimento de novos fármacos antivirais dirigidos à infeção e até com o recurso à biologia molecular na área do diagnóstico, permitindo uma testagem rápida e segura. Nesta e noutras áreas, a investigação científica tem um caminho ainda a fazer. Até porque há ainda perguntas sobre o SARS-CoV-2, nomeadamente sobre a sua origem, para as quais ainda não há uma resposta definitiva. "Persistem algumas dúvidas, embora nesta fase já não sejam tão acentuadas, nomeadamente sobre a origem deste coronavírus, se é um vírus que saltou a barreira das espécies, passando do animal para o homem, que é o mais provável, ou se poderá ter sido 'criado' a nível laboratorial. Para isto, ainda não temos resposta segura, embora tudo pareça apontar para a primeira hipótese", afirma o infecciologista.

É claro que quase dois anos depois, "há coisas que já conhecemos, como a sua capacidade de multiplicação, o modo de gerar diferenças e mutações. Ao longo deste ano e meio, também fomos aprendendo muito sobre a infeção que provoca, que é mais do que uma infeção respiratória clássica. O SARS-CoV-2 tem algumas características, como a sua agressividade ou a forma como infeta algumas células do nosso organismo, que tornam diferente a sua infeção, sendo este um dos campos que é preciso continuar a investigar".

Vamos ter de investir em vacinas mais protetoras

Em relação às vacinas, António Silva Graça considera que, "mais do que estarmos a pensar em adaptá-las sucessivamente às novas estirpes emergentes, vamos ter de investir em vacinas diferentes. As atuais foram mais rápidas de desenvolver, mas desencadeiam no nosso organismo uma resposta limitada, desenvolvendo anticorpos apenas para aquelas proteínas que estão presentes na parte do vírus que se fixa às nossas células". Na sua opinião, no futuro será importante haver vacinas geradoras de resposta mais abrangente, capazes de estimular a produção de anticorpos de forma mais global. Concluindo: "Apesar de ter sido um sucesso a rapidez com que conseguimos obter as atuais vacinas, penso que vamos ter de investir em vacinas mais clássicas para o futuro, em vez de estarmos a modificar as de RNA mensageiro sempre que admitimos a emergência de uma estirpe que escapa à sua proteção".

Se há algo que já aprendemos com o decorrer da pandemia é que a investigação científica não se pode dirigir só num sentido. É preciso continuar em busca de respostas mais certas para a origem do vírus, mas também respostas para outras interrogações, como: qual a razão por que algumas pessoas desenvolvem doença grave e outras não?, qual a razão por que algumas pessoas são mais facilmente infetadas do que outras. O infecciologista espera que o próximo ano nos traga algumas respostas e também soluções, nomeadamente no âmbito da prevenção e do tratamento da covid-19.

anamafaldainacio@dn.pt

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