Astronautas, cientistas e exploradores voltam a fazer cimeira em Portugal

Uns foram ao espaço, outros ao fundo do mar, outros ainda sonham conhecer Marte. Em Lisboa e nos Açores volta-se a mostrar que o espírito magalhânico está vivo.

O brilhantismo dos portugueses de há 500 anos foi a compreensão dos recursos limitados do seu ambiente local e da quantidade de recursos que de certeza existiriam para lá das fronteiras do desconhecido", disse numa recente entrevista ao DN o astronauta Richard Garriot, presidente do Clube de Exploradores de Nova Iorque e um dos oradores da Glex Summit 2021 que começa amanhã em Lisboa e termina sábado em Ponta Delgada. Ora, a ideia de juntar os navegadores portugueses com os descobridores do espaço nasceu de Manuel Vaz, um portuense de 46 anos, fundador da Expanding, parceira do The Explorers Club of New York (nome oficial da entidade a que Garriot preside). Por isso, a primeira cimeira Glex em Lisboa, realizada na Aula Magna, aconteceu no ano de dupla efeméride de 2019. E já então recheada de grandes nomes da ciência.

"A Global Exploration Summit é um acontecimento sem precedentes no planeta. No momento em que a nossa civilização celebrava os 500 anos da primeira viagem de circunavegação e os 50 anos do homem na Lua, conseguimos de uma forma arrojada reunir em Portugal uma seleção incrível de seres humanos visionários com um ADN magalhânico, que em vida têm já um legado extraordinário de conquista do inimaginável tal como há 500 anos os navegadores portugueses e como Gagarine e os bravos da missão Apollo na década de sessenta", explica Manuel Vaz.

Para logo acrescentar, com o entusiasmo que aqueles que o conhecem dizem ser a sua imagem de marca: "No Glex Summit reunimos ainda essa geração que escolheu a Lua mas também a que está neste preciso momento da nossa história a mudar todas as regras do jogo daquilo que se julgava ainda ha pouco ser arrojado. Quer na exploração espacial, quer dos oceanos, estamos numa época que ficará nos livros como o começo de uma nova era. O GLEX é essa visão prática do futuro, de gente curiosa, corajosa e capaz de transformar e de fazer acreditar que a humanidade junta tem a capacidade de resolver os problemas que num futuro próximo serão uma realidade. Portugal conquista, nesta espécie de Davos da exploração, esse palco de acolhimento e partilha de experiências e de tecnologias de ponta, dos Oceanos ao nosso sistema solar, passando pela conservação da natureza, e onde mesmo no meio de uma pandemia todos regressam ainda mais motivados. Portugal não só se afirma como um meeting point do futuro, mas também como um país de inclusão".

Em formato misto, com oradores presentes e outros à distância, o Glex Summit 2021 teve de reinventar-se para chegar ao público, que pode ver tudo online por cem euros o bilhete para todo o evento ou pagando 40 euros por um bilhete diário (e dia 8 o acesso é gratuito). Os locais físicos são a Gare Marítima de Alcântara, em Lisboa, e o Teatro Micaelense, em Ponta Delgada. Nos Açores acontecerá uma das iniciativas mais arrojadas, uma subida ao Pico, com os seus 2351 metros o ponto mais alto de Portugal.

O governo regional dos Açores é um dos parceiros, mas o principal apoio vem do Turismo de Portugal, liderado por Luís Araújo, com o objetivo de associar Portugal a uma ideia de inovação. Afinal não é todos os dias que vão estar em Lisboa nomes como Nina Lanza, principal investigadora do instrumento ChemCam a bordo do Mars Science Laboratory Curiosity rover e membro do instrumento SuperCam a bordo do Mars 2020 Perseverance rover, ou Mike Lopez Alegria astronauta que realizou dez caminhadas espaciais. E nos Açores estará Sylvia Earle, bióloga e investigadora marinha americana, promotora do projeto Mission Bleu de defesa e preservação dos oceanos e da distinção Blue Hope Spots. Na cerimónia de abertura, intervirá à distância Amanda Gorman, a ativista e jovem poeta americana que participou na cerimónia de tomada de posse de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos. Claro, há também participantes portugueses, como Tiago Pitta e Cunha, CEO da Fundação Oceano Azul.

Muitos destes nomes estrangeiros sonantes passaram a ser visitantes regulares de Portugal (e mais seriam ainda, não fossem os entraves às viagens que a covid-19 continua a criar). E também a fazer parte do círculo de amizades de Manuel Vaz, que deixa aqui o seu testemunho de quanto gratificante tem sido ver a sua ideia ganhar corpo: "Este tem sido um dos projetos mais inspiradores que tive o privilégio e a felicidade de concretizar, em muitos, nos últimos 25 anos. Principalmente pelas pessoas incríveis e inspiradoras com quem tenho hoje o privilégio de semanalmente conviver e trabalhar com alguns ídolos antigos (como Bertrand Piccard ou Richard Garriott ). Laurence Bergreen ( best seller americano ) e o Dr. James Garvin chief scientist da NASA (depois de Marte, agora líder da missão Davinci - Venus ) hoje grandes amigos, foram essenciais e inspiradores, para que todas as peças se juntassem e a ideia surgisse, após um documentário, e um dia pudesse bater à porta e desafiar o Explorers Club em Nova Iorque, que é uma Justice League dos exploradores da humanidade, a fazer algo nunca feito... How about? Não menos importante é o desafio e o empenho da Estrutura de Missão do V Centenário, na pessoa do magalhânico José Marques e o apoio e energia contagiante da equipa do Turismo de Portugal, que permitiu construir em conjunto com o Explorers Club algo maior do que todos! E depois de anos a seguir as tentativas da primeira volta ao mundo em balão poder privar com o Piccard ou com o incrível Garriott que decidiu criar o seu próprio programa espacial... Toda a perpetiva da vida e do nosso planeta mudou para mim".

Garriot, que comecei por citar neste artigo e Manuel Vaz refere também, é filho de um astronauta e sonhava imitar o pai mas o médico da NASA, que era o médico da família, um dia disse-lhe, ainda adolescente, que um pouco de miopia nunca o deixaria ser recrutado. Foi a melhor forma de o motivar. Fez fortuna com jogos vídeos e em 2008 foi ao espaço por conta própria. "Se não podia ser astronauta pela NASA, tinha de criar a minha própria agência espacial", explicou na tal entrevista. É este tipo de gente determinada, e com alto nível científico, que anima a Glex Summit. Toda a informação em https://www.glexsummit.com/program-2021

leonidio.ferreira@dn.pt

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