AstraZeneca. Os receios que levam a Europa a atrasar-se mais na vacinação

Especialistas não veem base científica para a pausa na administração da vacina da AstraZeneca que reforça dúvidas sobre os objetivos traçados para a imunização na Europa. Coordenador da task force acredita que atraso pode ser recuperado "em cinco ou seis dias".

Aagência Europeia do Medicamento (EMA), pela voz da sua diretora executiva, Emer Cooke, continua "firmemente convencida de que os benefícios ultrapassam os riscos" quando se fala da vacina da Oxford/AstraZeneca. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, voltou a sair em defesa da vacina anglo-sueca, escrevendo um artigo no jornal The Times onde a qualificou de "segura e extremamente eficaz". No Canadá, foi recomendada a sua toma mesmo para as pessoas com mais de 65 anos. E até o primeiro-ministro português António Costa veio a público lembrar que tomou a primeira dose da vacina da AstraZeneca e está "ansioso" pela segunda, sublinhando que a evidência científica disponível mostra que ela é segura.

Apesar disto, em Portugal e no seio da União Europeia o processo seguiu maioritariamente o rumo contrário desde que a Dinamarca, na semana passada, anunciou uma pausa da administração da vacina da Oxford/AstraZeneca depois de terem sido reportados alguns casos de coagulação sanguínea em pessoas inoculadas com a vacina anglo-sueca. Desde então, mesmo sem uma relação causa-efeito associada nem números que evidenciem uma incidência superior ao normal, já mais de 20 países anunciaram uma pausa na utilização da vacina, levando a mais um atraso num processo de vacinação que tem seguido na Europa um ritmo bem mais lento do que noutras paragens, como Estados Unidos, Reino Unido ou Israel.

Em Portugal, o atraso já se faz notar nos números da última semana de vacinação, ontem revelados: 131531 doses administradas, entre primeiras e segundas tomas, o que representa um decréscimo superior a 2000 face à semana anterior.

O coordenador da task force de vacinação em Portugal, Henrique Gouveia e Melo, procurou ontem minimizar os efeitos desta pausa, assegurando que o atraso "pode ser recuperado em cinco ou seis dias", caso a EMA dê uma resposta tranquilizadora sobre o uso da vacina anglo-sueca na reunião extraordinária que agendou para esta quinta-feira. Contudo, admitiu consequências negativas se a pausa se prolongar por muito tempo, reconhecendo que, além do assumido atraso na vacinação dos docentes e auxiliares do pré-escolar e primeiro ciclo prevista para este fim de semana, "afetará necessariamente o mês de abril", levando a primeira fase a acabar "uma semana depois" do previsto.

Para já, vinga a "precaução", o motivo apresentado nos vários países para sustentar uma decisão mais política do que científica. Da Agência Europeia do Medicamento à Organização Mundial de Saúde, passando por vários especialistas ouvidos em várias partes do mundo, a opinião praticamente unânime é a de que "não há evidência científica" que sustente esta pausa no uso das doses da AstraZeneca. A Bélgica, que se recusou a seguir a onda de choque europeia, foi mais dura, qualificando mesmo de "irresponsável" parar a imunização da população por entre o aumento de casos que afeta vários destes países. Em França, a especialista Odile Launay, do comité de vacinação, lamentou que "independentemente da avaliação que venha a ser feita pela EMA, o dano na confiança da população já tenha sido causado", com os possíveis efeitos negativos que isso representa para os almejados objetivos da imunização coletiva.

O que está afinal em causa e que motivos estiveram na base de mais este retrocesso no plano de vacinação europeu?

"Não há base científica"

A 7 de março, a Áustria suspendeu o uso de um lote da vacina depois de uma pessoa ter morrido e de outra ter ficado gravemente doente, com tromboses após a vacinação. Casos de coagulação sanguínea em pessoas inoculadas foram depois reportados em outros países. Na Alemanha, o surgimento de sete casos de trombose venosa cerebral (com três mortes), num universo de mais de 1,6 milhões de doses, suportou a decisão do ministro da Saúde, Jens Spahn.

"À data de hoje, não podemos chamar a estes episódios efeitos secundários da vacinação", refere ao DN Margarida Saraiva, presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia. "Não temos ainda dados que provem uma relação de causa-efeito entre esses casos e a vacinação", sublinha, acrescentando: "E se forem provados como um efeito secundário da vacina, trata-se ainda assim um efeito secundário extremamente raro", nota, face aos números reportados.

Por isso, para a imunologista, não há dúvida: "Não há base científica para esta decisão, nesta altura." "Percebo o princípio de precaução que está a ser aplicado", diz, "mas isso tem que ser posto em perspetiva quando do outro lado estamos a lidar com uma pandemia". O mais importante, revela, "é fazer uma análise de risco/benefício" e questionarmos "o que é melhor nesta altura: parar a imunização por causa de um risco mínimo que nem sequer está comprovado ou continuar com a vacinação da população no meio de uma pandemia com um risco de mortalidade maior e com graves efeitos na disrupção da sociedade?"

Efeitos secundários das vacinas

No Reino Unido, onde o programa de vacinação está mais adiantado do que na União Europeia, até ao final de fevereiro tinham sido administradas 10,7 milhões de primeiras doses da vacina Pfizer / BioNTech e 9,7 milhões de doses da vacina da Universidade de Oxford / AstraZeneca, além de cerca de 800 mil segundas doses (sobretudo da Pfizer). Neste universo, foram reportados 33.207 reações relativas à vacina da Pfizer e 54.180 sobre a vacina da AstraZeneca.

No entanto, segundo a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos para a Saúde do Reino Unido (MHRA), foram detetados mais casos de coágulos sanguíneos em pessoas que receberam a vacina da Pfizer (38 casos) do que na da AstraZeneca (30). Em Portugal, o DN pediu a mesma informação ao Infarmed, não obtendo resposta.

Margarida Saraiva lembra que "efeitos secundários existem sempre, em qualquer medicamento. Basta ler a bula". E defende a eficácia conhecida das vacinas contra a covid-19. "Apesar de terem sido feitas em tempo recorde, os métodos em que se basearam não nasceram agora. Tanto as de adenovírus como as de MRNA são fruto de conhecimento produzido ao longo de muitos anos". E lembra que a diferença "é que tudo está ser analisado em tempo real num universo de amostra que é literalmente o mundo inteiro".

Por isso, alerta, "as vacinas que temos são eficazes e são o melhor recurso que temos para salvar vidas e preservar a sociedade como a conhecemos e nos lembramos ainda dela". Uma urgência que na Europa vai somando retrocessos.

rui.frias@dn.pt

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