"As mulheres tiveram que trabalhar, cuidar e ser professoras dos filhos, houve um retrocesso"

Sofia Marinho participou no inquérito do Instituto de Ciências Sociais e do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresas sobre os impactos sociais da pandemia na vida das pessoas.​ A socióloga da família entende que a sobrecarga de trabalho foi maior para a mulher do que para homem. Houve um retrocesso no caminho para a igualdade de género.

Nesta pandemia, podemos falar em consequências diferentes consoante os géneros, complicou-se para as mulheres?
Sim, mas tem a ver com estruturas sociais, como o emprego. Uma das grandes mudanças foi a introdução do teletrabalho e este foi um dos eixos da criação de maior vulnerabilidade para as famílias, sobretudo as mulheres. Não quer dizer que os homens não ficassem em teletrabalho, mas ficaram em menor proporção. A maior vulnerabilidade nos homens foi o impedimento de trabalhar porque certas atividades económicas foram proibidas. As mulheres deixaram de poder trabalhar fora de casa, tiveram que trabalhar em casa, cuidar e ser professoras dos filhos. Desse ponto de vista, houve um retrocesso.

Retrocesso para a paridade?
Exato. Lembro-me de uma das pessoas que respondeu ao inquérito, dizer : "Pareço que estou nos anos 50". As mulheres viram-se confinadas em casa, em que a divisão temporal e espacial entre a família, trabalho e vida pessoal, se dissipou. Passou a haver uma simultaneidade de papéis. A casa passou a ser uma outra coisa, um outro espaço em que, apesar da estarem todos lá, passou a haver menos tempo em família, para o lazer, etc. A mulher viu-se sobrecarregada e limitada na sua liberdade de trabalhar fora de casa.

Até porque um dos fatores que mais contribuiu para a emancipação da mulher foi trabalhar fora de casa..
Precisamente, com os confinamentos muitas mulheres passaram a ter que trabalhar, cuidar e acompanhar a escola dos filhos, fazer as tarefas domésticas, tudo ao mesmo tempo, foi muito complicado, sobretudo nas famílias monoparentais. Também bastantes casais ficaram os dois membros ficaram em teletrabalho, ai poderia haver uma maior partilha, mas nem sempre. Houve situações em que, estando os dois em teletrabalho, recaia sobre a mulher a maior responsabilidade de gerir o quotidiano. Em geral, as mulheres tiveram uma sobrecarga, tanto parental como a nível do trabalho.

No segundo confinamento é igual?
Sim, a única questão é que, desta vez, as pessoas já sabiam o que esperar, mas estas questões têm muito a ver com a forma como foram desenhadas as próprias políticas de confinamento. O Estado também depositou sobre as mulheres esse retrocesso, o cuidar dos filhos, e não se pensou nas próprias crianças, no sentido em que se os pais têm de trabalhar. Nas escolas, as crianças estão acompanhadas, ficaram em casa com mães e os pais que, estando em casa, também não podiam dispensar a atenção que os filhos necessitam. Aliás, os sociólogos nunca foram chamados para a tomada de decisões, é uma pena, porque podiam ter previsto estas coisas e terem chamado um melhor desenho das políticas.

Que políticas?
Haveria que ter uma perceção do diferente posicionamento de mulheres e homens no mercado de trabalho.

O que é que podiam ser feito para evitar essa sobrecarga?
Uma das coisas era as crianças virem para casa e não ter ensino à distância. O acompanhamento escolar criou muita tensão nos pais, diziam que quase se tornava impossível acompanhar as crianças e trabalhar ao mesmo tempo, é incompatível, isto nas crianças mais pequenas.

O que está a dizer é que tradicionalmente é a mulher quem tem o papel de cuidar, educar, independentemente das circunstâncias?
Não é por aí, houve uma grande evolução, os homens nunca cuidaram tanto dos filhos como agora. Não quer dizer que se tenha chegado a uma igualdade plena, mas a evolução da entrada dos homens no quotidiano doméstico é muito positiva. Ainda há uma grande fatia de mulheres que têm uma maior sobrecarga, mas isso tem a ver com modelos culturais de família. As mulheres cada vez estão mais exigentes na partilha das tarefas e os homens estão mais participativos e a assumir as responsabilidades de forma partilhada. Ainda não estamos numa situação de plena igualdade, até porque são processos lentos de mudança e a mudança dá-se na combinação de modelos do passado com modelos presentes.

Quais são os setores da população mais distantes dessa partilha não já assim tão importante?
Em Portugal, há sempre essa questão, tendo em conta a classe social e a partir da escolaridade, existem duas franjas da população nas atitudes relativamente aos modelos de família e à partilha. A geração mais velha e a menos escolarizada, em média, estão ligadas a modelos de menos partilha, de papéis de homens e mulheres mais diferenciados, mas do ponto de vista do resto da população é o modelo de igualdade que predomina.

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