"As mulheres têm claramente desvantagens sérias"

Desde a linguagem corporativa à candidatura a cargos de liderança, Susana Pereira, especialista de recursos humanos da Medtronic, acredita que são as mulheres as mais prejudicadas em contexto profissional. "É importante trabalhar isto", afirma.

Contrariando as expectativas da sociedade, Susana Pereira começou por querer ser engenheira, uma área habitualmente com maioria masculina, mas foi nas ciências sociais que encontrou a vocação. "Acabei por achar que teria mais sucesso ou seria mais feliz noutra área e mudei para psicologia", recorda a atual diretora de recursos humanos da Medtronic para a Europa ocidental.

A especialista não só não se arrepende, como vê nesta função a possibilidade de contribuir para maior equidade entre homens e mulheres nas organizações - e não lhe falta o que fazer, já que a empresa de dispositivos médicos conta com 160 colaboradores em Portugal e cerca de 90 mil em mais de 150 países. Apesar de reconhecer que existem sempre desafios adicionais no percurso profissional feminino, a gestora esclarece que a organização "tem muitas políticas [de paridade de género] e faz muito para que as diferenças não sejam tão visíveis".

Porém, realça, "é preciso trabalhar na perceção" sobre estas questões, nomeadamente no que respeita à comunicação e ao espaço que é dado aos colaboradores para cuidarem da família. "Toda a linguagem das organizações é masculina. Os homens às vezes sentem o peso social quando, por exemplo, têm de ir buscar os filhos e acho importante desmistificar essa parte", defende.

Susana Pereira acredita ser necessário reforçar os "direitos dos homens enquanto membros de uma família", para que exista uma partilha de responsabilidades familiares mais equilibrada, diminuindo um dos obstáculos colocados, por norma, às mulheres. Já durante a pandemia, 80% dos apoios pagos aos pais que optassem por ficar em casa a tomar conta dos filhos foi entregue às mães, que ficaram mais sobrecarregadas neste período.

Mas os desafios adicionais não se ficam por aqui. Para a diretora de recursos humanos, é urgente endereçar a falta de "confiança" verificada entre as profissionais e que as impede de se candidatarem a posições de topo. "Temos um problema, que é a falta de candidaturas de mulheres a cargos de liderança. Temos de perceber porquê e como é que podemos mudar isso", afirma. Os estudos comprovam-no, com uma pesquisa publicada pelo Linkedin a garantir que elas têm menos 16% de probabilidade de se candidatarem a uma posição e que, de forma geral, só o fazem se sentirem que reúnem 100% dos requisitos. "Por outro lado, os homens candidatam-se na mesma", sublinha Susana Pereira, confirmando o que dizem os números.

A responsável não tem dúvidas sobre a importância de "trabalhar a confiança das mulheres" e tornar clara a mensagem de que "ninguém tem 100% das características requeridas por uma determinada função". "Quando estamos nessa função também nos desenvolvemos", acrescenta.

Essa foi, aliás, uma das principais razões que levou a psicóloga de formação a participar na primeira edição do Promova, uma iniciativa da CIP com a NOVA SBE para a formação de líderes no feminino. "O programa foi muito interessante, tem uma componente de desenvolvimento pessoal muito interessante e desenvolve toda a parte do personal brand, que acho muito importante para percebermos como é que queremos aparecer à organização e aos outros", detalha.

Por ser um projeto "muito necessário em Portugal", Susana Pereira adianta que a Medtronic pretende apoiar, ao nível da formação e da preparação pessoal, as suas trabalhadoras que tenham como meta atingir cargos de liderança. "As mulheres têm claramente desvantagens sérias", observa, reforçando que é "importante" eliminá-las em prol da paridade de género.

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