"As empresas deviam dar mais valor aos seus trabalhadores"

"Há uma enorme falta de civismo dos automobilistas em relação aos ciclistas que andam na estrada. Há falta de respeito pelo outro e é preciso que isso mude, é preciso que haja mais civismo na sociedade portuguesa", diz Rui Ramos, instrutor de bicicleta

O paredão é um bulício de gente que passa, desencontrada. Muitos correm, de sapatilhas e gadgets no antebraço, a contar passadas e a medir pulsações. Outros vêm de bicicleta, pedalando, descontraídos, para cima e para baixo, ora rumo ao MAAT ora na direção da ponte. Mas a maioria está só em passeio de fim de tarde, a desfrutar a brisa e o cenário luminoso do rio. É aqui, frente ao Tejo, num pequeno largo quase sempre vazio junto ao paredão, que Rui Ramos, 29 anos, passa os fins de semana. "É o sítio perfeito", diz, satisfeito. Tudo aqui bate certo com a atividade a que ele se dedica, aos sábados e domingos, desde 2010: ensinar quem não sabe a andar de bicicleta.

O largo é espaçoso e tranquilo. Ali ao lado, na Belém Bike, quem não tem pode alugar uma bicicleta, e o ambiente, só por si, é uma inspiração. Para o instrutor, é também a combinação ideal: a bicicleta, desde sempre "uma paixão" e "uma terapia", e a convicção de que está "a passar aos outros", miúdos ou graúdos, "uma experiência marcante, que fica para o resto da vida". Não se trata só de aprender a andar de bicicleta, é tudo o que isso traz consigo: autoconfiança, um novo horizonte de liberdade e ensinamentos para a vida.

"Equilíbrio todos temos, o mais importante é a autoconfiança", garante Rui Ramos. "Quando ensino a andar de bicicleta, miúdos ou adultos, falo-lhes sempre disso, de como não podemos ficar focados nos obstáculos e nas dificuldades, de como é preciso olhar para lá deles, e encontrar soluções. Se rasgar um pneu a 20 quilómetros de casa, como já me aconteceu, vou ter de lá chegar na mesma. Transmito-lhes confiança e digo-lhes que é assim na bicicleta e é assim na vida." Ele sabe-o bem, por experiência própria.

Desde sempre um apaixonado pela modalidade, Rui Ramos quis a certa altura dedicar-se à prática daquele desporto. "Tinha 13 anos e cheguei a falar disso ao meu pai, mas ele já estava doente, com um cancro, e acabou por não ser possível", recorda. O pai faleceu pouco tempo depois, tinha ele 15 anos. "Fiz o 12., e tive de deixar de estudar, fui trabalhar para ajudar a minha mãe."

Claro que a bicicleta continuou a fazer parte da sua vida. Aos 20 anos começou a praticar BTT, fez muitos percursos em estrada e, em 2010, um amigo convidou-o para dar aulas numa empresa de desporto. "Nunca tinha pensado nisso, mas não hesitei." E nunca mais parou. Acabou por deixar aquele trabalho - "não gostei daquela maneira de funcionar, só a pensar no dinheiro"- e decidiu fazer a sua própria empresa, a Bike in Rio, onde faz as coisas como acredita que devem ser feitas, de forma personalizada, a pensar nos miúdos, ou nos adultos, que estão ali para aprender. "É uma forma de me valorizar a mim próprio e aos alunos", algo que hoje "falta muito" no mundo laboral. "As empresas não valorizam os seus trabalhadores, impõem horários prolongados que impedem as pessoas de estar com a família e com os filhos, e as pessoas andam infelizes, vejo isso por todo o lado."

Devia ser exatamente ao contrário, na sua opinião. "As empresas deviam dar mais valor aos seus trabalhadores. Se as pessoas estiverem felizes no ambiente laboral trabalham muito melhor, com mais imaginação e criatividade." Essa é, afinal, mais uma lição que ele gosta de ligar à bicicleta: na sua própria empresa, Rui Ramos pratica o que defende.

No seu caso, além de atividade de fim de semana, a bicicleta é também o seu meio de transporte preferencial no dia-a-dia. "O tempo de deslocação é o mesmo por causa do trânsito, torna-se muito mais económico e não contribuo para a poluição." O único senão é mesmo "a falta de civismo dos automobilistas na estrada", diz. E, aí, não poupa as palavras. "Os automobilistas não respeitam a distância de segurança nas ultrapassagens, que é de um metro e meio, e passam a distâncias mínimas, de 50 centímetros, sem respeito pelo ciclista e sem pensar que um toque mínimo pode significar a morte para aquela pessoa", diz, explicando que ele próprio já esteve "em risco por várias vezes", por causa de situações desse tipo. "O código da estrada mudou, mas e eu não senti nenhuma diferença enquanto ciclista", garante. "Há uma enorme falta de respeito pelo outro e é preciso que isso mude, é preciso mais civismo na sociedade portuguesa", salienta.

A propósito, refere o caso da Holanda. "Na estrada, os ciclistas são tão importantes como os automobilistas. Porque haveria de ser de outra maneira? A Holanda é um exemplo de civismo, e os bons exemplos devem ser seguidos."

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