Aos 15 anos "ou morria do tratamento ou me curava"

Nuno Madureira tem 39 anos e fez transplante já há 23. Três anos antes a mãe tinha morrido com a mesma doença. Elogia dedicação do serviço que faz agora 30 anos de vida

Com 16 anos, Nuno Madureira passou um mês no isolado do mundo. As visitas chegavam-lhe "através de um vidro e por telefone". O que até acabou por não ser assim tão difícil porque "é um mundo à parte ali dentro. Os enfermeiros são quase família, estão horas e horas connosco e isso ajudava a passar o tempo". Nuno estava a recuperar de um autotransplante de medula e entretanto já passaram 23 anos. O guarda-redes de 39 anos é um dos 1665 doentes transplantados na Unidade de Transplantes de Medula do IPO de Lisboa, que agora comemora 30 anos e é um dos 30 testemunhos de sucesso contados no livro que assinala este aniversário.

Hoje, além da apresentação do livro 30 Anos, 30 Histórias, vai ser também lançada a Agenda Solidária IPO 2018, cujas receitas vão reverter para a nova Unidade de Transplantes de Medula (UTM). As obras para aumentar a capacidade da unidade para 12 quartos devem arrancar ainda neste mês e estar concluídas em abril de 2018 (ver entrevista na página ao lado). Têm um custo de um milhão de euros.

Desta forma espera-se dar resposta ao aumento da procura para este tipo de intervenção, que é a única hipótese de cura para muitos doentes. Como provam histórias como a de Nuno.

O guarda-redes do Amora descobriu que tinha um linfoma, três anos depois de a mãe não ter sobrevivido à mesma doença. Tinha 15 anos e depois dos primeiros sintomas acabou transferido para o IPO e ficou logo dois meses internado. "Depois de janeiro até ao transplante em setembro passava sempre umas semanas internado e uma semana em casa", recorda ao DN o profissional de marketing.

Hoje, Nuno tem a consciência de que teve uma doença muito grave, mas na época o pai e a restante família optaram por não lhe contar tudo. "Não tinha bem a noção, não sei se pela idade, mas quando cheguei ao IPO, vindo do Garcia de Orta, fiquei com a mesma equipa médica que tinha tratado a minha mãe, e não queriam ser eles. Conhecia-os de visitar a minha mãe e eu é que quis que eles ficassem. Só soube depois de fazerem os exames que o médico chamou o meu pai a dizer que eu tinha dois meses de vida e que ia dar-me uma dose que ou me salvava ou morria do tratamento e que o meu pai tinha de assinar um papel de autorização."

Nuno acabou por fazer o autotransplante e nunca mais teve complicações. Vai ao IPO agora de dois em dois anos e sabe que essa rotina é para manter. Os filhos gémeos - Clara e Afonso - foram uma das suas conquistas à doença. "Na altura não fazia a ideia de que podia não conseguir ter filhos. No meu caso e da Rita [a mulher] tivemos de recorrer a uma clínica."

Aos 8 anos, os gémeos sabem que o pai esteve muito doente, mas Nuno tem dúvidas de que eles "tenham a noção da gravidade". "Ouviram a história e passou."

Uma história que Nuno Madureira está sempre disponível para contar. Embora "já raramente" se lembre do linfoma, vê-se muitas vezes confrontado com o desconforto das pessoas quando sabem pelo que passou. "Não penso nisso todos os dias. Mas também não tenho problema nenhum em falar, embora note que as pessoas às vezes têm receio de perguntar como é que as coisas eram."

Nuno tenta passar o seu testemunho como sinal também de esperança. "Quando falo com pessoas que estão doentes ou conhecem alguém com a mesma doença sinto que isso é um motivo de esperança para elas. Sinto-me bem ao saber que estou a ajudá-las a acreditar que é possível."

A doença também o ensinou a ver a vida de maneira diferente. "Obrigou-me a não me chatear com muita coisa. Fiquei uma pessoa muito mais calma e mais moderada."

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