Ana Vasconcelos: "O ato sexual pode originar sentimentos de posse"

O facto de existirem relações sexuais pode explicar uma maior incidência da violência no namoro nos maiores de 17 anos.

Ana Vasconcelos, pedopsiquiatra, considera que a saída de muitos pais do País, o desemprego e condições económicas desfavoráveis podem causar instabilidade nas famílias, com consequências no comportamento dos jovens. Quem é vítima ou vê violência em casa, mais facilmente se torna agressor.

A grande maioria das participações sobre violência no namoro são entre jovens com mais de 17 anos. Porquê?

Penso que pode ter a ver com o facto de existirem ou não relações sexuais. Até aos 17 anos há menos frequência de namoros com relações sexuais. O ato sexual pode estimular os sentimentos de posse. Pode originar mais atitudes mais impulsivas como sentimentos relacionados com a posse, que suscitam paranoia, ideias de ciúme, comportamentos agressivos.

A maioria dos casos reportados são entre ex-namorados. Os jovens não aceitam bem o fim das relações?

Ultimamente, há um maior conhecimento da sensação de bem estar e de saúde mental das pessoas, que inclui também os jovens. Portanto, tudo o que são experiências de desamparo e abandono são muito mais vividas, de uma forma emocionalmente pesada. Quando as pessoas se separam - e até muitas vezes estão de acordo - há homens e mulheres que não aguentam o sofrimento quando sabem que ex-marido ou ex-mulher arranjou outro companheiro. Isto faz reavivar conflitos que não ficaram bem ultrapassados e pode levar a essas atitudes violentas.

As vítimas de violência no namoro são potenciais agressores?

Isso é uma história bastante antiga: agressor foi agredido. Uma pessoa que fica sobre a memória traumática de um gesto de violência para com ela, quer seja da parte dos progenitores, quer seja da parte de um companheiro, pode efetivamente ficar tão possuído nesse universo da violência que ele próprio transforma-se em agressor. A isso chama-se identificação ao agressor. A pessoa fica acompanhada, na sua tristeza e ansiedade, daquele tipo de agressão, que quase se torna familiar. Quando tem de se defender, vai buscá-la.

E quando assiste a situações de violência doméstica em casa?

Acontece a mesma coisa. Há uma identificação ao agressor. Se em casa é o tipo de comunicação que vê, é o modelo que têm.

Desde 2013 que as participações de violência no namoro não param de aumentar...

Cada vez mais vejo na minha clínica jovens cujos pais ou mães foram trabalhar para fora. Neste momento, há muitas famílias onde os homens tiveram de sair. Pode haver alguma relação com uma desfuncionalidade familiar. São hipóteses que ponho. Toda a instabilidade que há nas famílias devido ao desemprego e às condições económicas pode ter impacto na adolescência, em que a passagem ao ato é muito maior e a necessidade de encontrar bodes expiatórios também. Isto tem de ser relacionado politicamente. Não pode haver relações simplistas, numa situação com tanta complexidade.

Qual o papel dos pais?

Não se esquecerem que têm de dar valores formativos aos filhos. Por vezes estão eles próprios tão desesperados, que se esquecem do seu papel de educadores.

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