Manter a sala de reuniões fora do quarto

Exclusivo DN/The New York Times

Terminei o meu casamento depois de quase 12 anos. Ele era um bom homem, com bom coração, que não mentia, não me enganava, nem me desconsiderava. Era responsável e amável e amou-me o melhor que podia, ou até onde eu permitia.

Naquela época, eu trabalhava em marketing empresarial e estava mais interessada em subir no setor financeiro do que em criar uma relação íntima com o meu marido. Trabalhava longas horas e ganhava bom dinheiro. A minha vida profissional era a minha identidade. Sempre me senti como se estivesse à procura de alguma coisa e mal a alcançava continuava à procura, sempre insatisfeita mas também nunca verdadeiramente feliz.

Seguia no encalço da próxima promoção ou do próximo trabalho, tornando-me diretora aos 30 anos e diretora executiva de marketing aos 40. Enfrentava colegas do sexo masculino que suspeitava ganharem muito mais do que eu, embora eu normalmente trabalhasse mais horas e fosse a única entre os meus pares com um MBA.

A cada nova conquista, pensava: "Talvez isto seja finalmente suficiente." Mas depois a adrenalina baixava deixando-me sozinha e desconectada novamente, com a culpa acrescida de pensar: "Se não consigo ficar feliz com tudo isto, será que conseguirei alguma vez ser feliz?"

Muitas vezes eu era a única mulher à mesa das reuniões. Tinha de ser forte, mas não em demasia. Tinha de ter grandes expectativas das minhas equipas, mas manter-me simpática, porque o meu grupo precisava de superar os outros para que eu pudesse sentir-me digna do meu lugar à mesa de mogno. Tinha de ser capaz de dizer o que pensava sem desrespeitar ninguém.
Mas há uma coisa engraçada em ser-se mulher e executiva num setor dominado por homens. Somos fortes, focadas e controladoras no escritório o dia todo, mas não há nenhum interruptor mágico para desligar quando chegamos a casa todas as noites. Assim, eu levei essa mesma energia forte, focada e controladora para o meu casamento.

Aposto que isso fazia que fosse muito divertido para o meu marido deitar-se a meu lado.

Eu dava ordens. Gostava de corrigir sarcasticamente o meu marido, achando que o meu humor iria atenuar a picada. Assumia a pressão de ser o principal ganha-pão do lar, mas depois ficava ressentida com isso.
Eu sempre fui uma perfeccionista no trabalho e o mesmo acontecia na minha vida doméstica. Era sempre eu que cozinhava, fazia as compras e planeava tudo. Geria o nosso calendário social e marcava as nossas férias. Não havia quase nenhuma decisão que não tivesse a minha marca.

Costumava dizer que o Natal não aconteceria sem mim, porque eu escolhia e comprava todos os presentes (houve um ano em que contei 76), embrulhava-os, fazia um número interminável de biscoitos de Natal e planeava e preparava os jantares festivos.

Sentia-me sozinha por causa do pesado fardo que carregava. Mas ninguém me pediu para fazer tudo isso. O meu marido não tinha essas expectativas sobre mim. Eu fiz isso a mim própria e, depois, ficava ressentida com ele por não ajudar ou assumir aquilo que eu achava que deveria ser a parte dele. Nunca pedi ajuda. Na minha cabeça, pedir ajuda era um sinal de fraqueza.

Nunca expressei as minhas próprias necessidades. Certifiquei-me apenas de que conseguia aquilo que queria.

Nunca me permiti mostrar-me vulnerável com o meu marido, porque não percebi que essa era uma exigência para uma relação íntima e de união. Naquela época, eu nem sabia o que era uma relação íntima e de união. Só pensava em termos de tarefas e realizações.

Exausta, comecei a desinvestir no nosso casamento, convencida de que o que tínhamos era bom. Afinal, as nossas vidas pareciam muito boas vistas de fora.

Depois comecei a reparar noutros casais de uma maneira que nunca tinha reparado antes, a notar como uma mão pousava suavemente sobre uma perna, uma cabeça ou um ombro. Vi a proximidade de duas pessoas que pareciam trocar carinhos sem esforço.

Eu queria essa proximidade e ligação. Mas aquilo parecia-me tão distante de mim. Não era algo que eu alguma vez tivesse sabido o que era. Comecei a pedir isso no meu casamento, mas depois de todos os nossos anos juntos, o meu marido não sabia como mas dar e, francamente, eu não sabia como recebê-las. Portanto, as nossas tentativas eram apenas estranhas. E eu já não me sentia bem com o que tínhamos.
Depois de nos separamos, fui em busca desses sentimentos evasivos de conexão e intimidade.

Encontrei a intimidade, mas também o desgosto de amor.

Encontrei o carinho por várias vezes, mas também o incumprimento e a irresponsabilidade.

Encontrei a conexão, mas também a indisponibilidade emocional.

Eu tinha deixado de colocar o fardo da minha felicidade na minha carreira para passar a colocá-lo num homem e no seu amor, o que era apenas mais uma versão da mesma mentira. Eu estava a tentar criar uma relação de sucesso da mesma maneira que tinha criado uma carreira de sucesso: através da ação e da força. Mas a minha mentalidade para assumir a responsabilidade pelas coisas e fazê-las não estava a funcionar no que respeitava ao amor.

Então parei. Parei de namorar. Parei de mentir a mim mesma e comecei a tentar perceber como me tinha metido nesta situação. Porque uma coisa era clara: ninguém mais era responsável.

Afinal, eu soube quem era o meu primeiro marido no dia em que o conheci: um homem estável e seguro que não me magoaria. Ignorei a nossa relativa falta de paixão ou espontaneidade e, por mais de uma década, essa troca da paixão pela segurança serviu-me.

Eu fiz essa troca. Foi obra minha.

Fui eu que fui em busca de amor em todos os lugares errados, tentando transformar os homens em quem eu precisava que fossem para que pudesse sentir-me mais confiante, segura, mais fosse o que fosse. Fui eu que provoquei isso.

Chegar a essa conclusão ajudou-me a mudar - mas não completamente.

Mais de um ano após o meu divórcio, conheci Derrick, através de um site de encontros online. Vivíamos a uma hora de distância um do outro, mas começámos a conversar. Ele próprio acabara de sair de um casamento de 18 anos. Derrick era calmo e respeitador, mas também forte e confiante. Era bombeiro e paramédico, adorava o que fazia, e eu conseguia perceber pela maneira como ele falava do seu trabalho que era bom na sua profissão.

Quando decidimos encontrar-nos, certifiquei-me de que o fazíamos de acordo com os meus interesses, convidando-o a vir ter comigo. Sushi numa tarde de domingo pareceu-me um começo seguro, e foi. Foi um sucesso e começámos a encontrar-nos regularmente e, às vezes, passando vários dias juntos.

Ele era gentil e paciente enquanto eu lutava para lhe abrir o meu coração. Eu tinha aceitado um novo emprego e decidido que era hora de trocar a minha casa por um apartamento no centro da cidade. Quando Derrick vinha ter comigo, ajudava-me a limpar e a fazer as malas. Um dia, cheguei a casa e vi que ele tinha restaurado o baú de enxoval que tinha sido da minha avó. Foi o presente mais atencioso que alguém já me tinha dado.

Estava a apaixonar-me por ele mas não tinha abandonado completamente as minhas antigas atitudes. No meu novo emprego, estava mais uma vez a trabalhar muitas horas, em parte porque sentia que precisava mas também porque era a única maneira de trabalhar que conhecia. Derrick e eu encontrávamo-nos quando eu podia, o que funcionava razoavelmente bem.

Até uma noite, cerca de três meses mais tarde, quando saí para tomar uma bebida depois do trabalho com os meus novos colegas. Presumi que seria apenas uma bebida e que estaria de volta a casa por volta das seis da tarde, hora a que tinha combinado encontrar-me com Derrick para irmos jantar.

Uma bebida passou a duas e, de repente, eram 7.30 da noite. Quando cheguei a casa, um pouco alegre de mais com todos os cocktails, ele estava a fumegar silenciosamente.

"Onde estiveste?", rosnou.

Eu sabia que precisava de entrar em modo de desculpas, mas continuava a achar que o que tinha acontecido não justificava ele ficar chateado. Afinal, eu tinha agido assim dezenas de vezes com o meu ex-marido. "Os colegas de trabalho convidaram-me para ir tomar uma bebida", disse. "Estou a tentar estabelecer uma relação com eles. Acabei por perder a noção do tempo."

A resposta de Derrick foi: "Eu não serei desrespeitado nesta relação, por muito que goste de ti. Se te vais atrasar, tens de pegar no telefone e ligar-me. Nunca me passaria pela cabeça ser tão desrespeitoso contigo".
Fiquei siderada mas, ao mesmo tempo, estranhamente aliviada: "Tens razão. Sinto muito."

Um sentimento de impunidade pode ser destrutivo de várias e surpreendentes maneiras. O que eu não sabia era como podia ser destrutivo para o amor. Eu sentia-me muito importante como nova diretora de marketing da minha empresa. Certamente eu tinha pensado, o meu namorado bombeiro podia esperar uma hora ou duas por mim sem se queixar. Mas se ele o tivesse feito será que ainda estaríamos juntos hoje?

Diz-se que ensinamos às pessoas como nos devem tratar. Naquela noite, Derrick ensinou-me como o devia tratar. E, ao fazê-lo, ele também me ensinou - talvez pela primeira vez na minha vida - como amar.
Sharon Pope, escritora e treinadora de vida em Columbus, Ohio, é autora de Why Isn"t This Marriage Enough?

Exclusivo DN/The New York Times

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