"A verdadeira beleza não pode ser exterior, tem de refletir um completo estado de bem-estar e de equilíbrio interior"

Humberto Barbosa e Tomás Barbosa, pai e filho e ambos nutricionistas, lançaram o livro "Fórmula Simplificada para Atingir a Longevidade num Corpo Belo e Saudável". Na obra apresentam os quatro fatores que nos permitem viver mais, sem esquecer os fatores emocionais que contribuem para uma vida mais longa. Em entrevista ao DN, o diretor da Clínica do Tempo confirmou que o filho será seu sucessor à frente do negócio.

Qual a fórmula para atingir a longevidade que enunciam no livro?
Humberto Barbosa (HB) -
A fórmula da longevidade descrita no livro é baseada em quatro fatores essenciais, que na realidade são cinco: alimentação saudável, prática regular de exercício físico, controlo de stress e equilíbrio emocional. E há um quinto fator que é muito importante para a nossa saúde, que é a questão de eliminarmos o excesso de gordura. A doença que mais mata gente no mundo inteiro não é o cancro, são as doenças cardiovasculares devido ao excesso de gordura. Foram publicados agora os dados sobre as mortes em Portugal, morreram o ano passado de cancro, que é o que toda a gente tem medo, 27 mil e tal pessoas. Doenças cardiovasculares, devido ao excesso de gordura, 32 mil e tal. Por isso, incluímos na nossa fórmula da longevidade a eliminação do excesso de gordura corporal.

Para além das causas físicas que impactam a nossa longevidade, destacam também dois fatores relacionados com a saúde mental - o controlo do stress e o equilíbrio emocional.
HB -
Durante muitos anos, os cientistas não ligaram muito às emoções. E ligavam muito, por exemplo, à racionalidade. Alguém era considerado inteligente se tivesse um QI acima dos 140. Isso é que era importante. Mais tarde descobriu-se que mais importante do que resolver um puzzle em dez segundos, é ter inteligência emocional. Aquela inteligência que nos permite, perante uma situação adversa, não produzirmos excesso de cortisol baseado no nível elevado de stress em que ficamos. Aí reclassificou-se a questão da inteligência e passou a dar-se mais importância à inteligência emocional do que à inteligência racional.

Em relação às emoções também se descobriu que as pessoas emocionalmente equilibradas, que têm bons ambientes familiares e estão compensadas emocionalmente - com a sua cara-metade, com um animal, no ambiente de trabalho - são pessoas que vivem também mais anos e com mais saúde. Porque isso é que a questão das emoções faz parte da nossa fórmula da longevidade. O principal é a alimentação porque nós somos aquilo que comemos, há uma relação direta entre aquilo que comemos e a saúde que temos. A seguir a questão do exercício físico - importantíssimo - e depois, equilíbrio emocional e controlo de stress. Essas duas estão interligadas.

Agora que começamos a entrar no fim da fase pandémica da Covid-19, o livro também pretende ajudar quem se tornou mais sedentário durante os períodos de confinamento?
Tomás Barbosa
- As pessoas tornaram-me mais sedentárias e continuaram a comer tanto ou mais do que quando faziam alguma atividade física. Daí nos depararmos com um aumento de peso substancial nas consultas que temos tido com novos pacientes. Todos aumentaram um bocadinho mais de peso e se tornaram menos saudáveis. O livro tem algumas dicas de tipos de alimentação saudável, de receitas saudáveis. E praticando a fórmula simplificada para atingir a longevidade vão ingerir menos calorias do que aquelas que metabolismo basal queima. E, por sua vez, vão acabar por perder peso e tornarem-se mais saudáveis.

Em termos emocionais, notam que as pessoas que vêm à consulta após estes períodos de confinamento estão menos equilibradas?
TB -
Sim. E vingam-se na comida. Fazendo um paralelismo: quando praticamos exercício físico, libertamos endorfinas, serotonina - a hormona da alegria e do bem-estar. Só que quando comemos alimentos que nos dão prazer emocional como, por exemplo, chocolate, açúcar, também libertamos dessas hormonas. Então as pessoas acabam por se vingar um bocadinho mais na comida para compensar a prática de atividade física - o que é errado porque acabam por engordar e deixam de ter hábitos saudáveis. Vemos a diferença em pacientes que vinham cá há um ano, deixaram de vir, e depois quando apareceram novamente, tinham aumentos substanciais de gordura. E os próprios tinham essa noção devido ao excesso de consumo de gorduras e açúcares refinados. São aqueles alimentos que nos dão prazer no momento mas que não fazem bem.

Conheceram um aumento da procura pelas consultas agora que começamos a retomar a atividade?
HB -
Sentimos. Durante a pandemia - como o Tomás já referiu - as pessoas comiam mais, vingavam-se, muitas vezes para compensar algumas ansiedades próprias da pandemia. Também tinham uma maior proximidade com o frigorífico, que passou a estar à distância de cinco metros. Mas quando vêm às nossas consultas, tudo isso é reequilibrado. E o nosso programa chama-se programa de reeducação alimentar e comportamental com modelação corporal. Ou seja, quem vem cá, quem nos procura, procura-nos por duas razões: uma, querem ser mais belos e querem eliminar gordura. Não por questões de saúde, não porque é a doença que mais mata em Portugal - a doença que mais mata em Portugal são as doenças cardiovasculares devido ao excesso de gordura - mas porque têm um casamento daí a dois meses e têm que caber dentro do vestido. Temos essas pessoas e depois temos outros que nos procuram por questões de saúde - sabem que é necessário eliminar o excesso de gordura, e querem adquirir hábitos de vida mais saudáveis. Independentemente, da motivação que traz alguém à nossa clínica, mesmo que seja meramente estética, explicamos que para se ser mais belo tem de se ser mais saudável. Porque a verdadeira beleza não pode ser apenas o exterior, ela tem de refletir um completo estado de bem-estar e de equilíbrio interior.

Durante o confinamento, um dos negócios que conheceu maior desenvolvimento foi a entrega de refeições ao domicílio. Nem sempre essas refeições são as mais equilibradas em termos nutricionais. Que conselho pode dar a quem queira perder esse hábito?
TB -
Um dos desafios que me foi proposto pelo meu pai neste livro foi, fazer receitas saudáveis, no espaço de uma hora. Mas não é uma hora a cozinhar. É uma hora incluindo sair do trabalho, chegar a casa, cozinhar, comer. E a maioria das receitas são de snacks muito simples, práticos e em que 15, 20 minutos conseguimos ter os macronutrientes essenciais para termos um dia cheio de energia. Agora, as entregas das marmitas em casa... Hoje em dia há soluções saudáveis para tudo. Há comidas péssimas, como há comidas muito boas. Portanto, cabe também à pessoa procurar aquilo que está no plano nutricional. Não há nenhum restaurante num shopping, nessas plataformas digitais de refeições, onde não haja pratos saudáveis.

HB - Nunca podemos culpar a oferta que existe desse tipo de alimentos, os restaurantes, as empresas que entregam comida. Não são os culpados. As culpadas são as pessoas que escolhem as coisas erradas. Porque nos menus estão sempre lá as duas opções. Ao lado do prato cheio de gordura saturada também está o prato saudável e equilibrado. É preciso saber fazer essa escolha.

Voltando ao livro, os direitos autorais vão ser doados à Fundação Champagnat - Casa da Criança de Tires. Porque escolheram essa instituição em particular?
HB -
O nosso trabalho relacionado com a vertente de apoio a instituições sociais começou há muitos anos. Durante 26 anos apoiamos a mesma instituição, uma cooperativa no Seixal que se chamava Pelo Nosso Sonho. Custeávamos todos os serviços clínicos, as necessidades clínicas das crianças que acolhiam e que não eram cobertas pelo Serviço Nacional de Saúde. Há dois anos essa instituição fechou por falta de apoios estatais. E a outra instituição de que gostávamos muito mas com a qual nunca fizemos nenhuma colaboração porque a nossa atenção estava concentrada no Seixal, era a Casa da Criança de Tires que acolhe os filhos das reclusas do estabelecimento prisional. Quando visitamos a instituição fez-se luz na nossa mente e descobrimos que ali havia uma instituição gémea da que apoiamos anteriormente - em termos de apoio, de amor, de honestidade. Em termos do carinho e da atenção que davam aquelas crianças. A diferença é que em vez de terem cento e tal e crianças, apoiam cerca de 15, entre os 2 e os 12 anos. Porque antes dos 2 anos as crianças ficam com as mães na instituição prisional. E decidimos apoiar, também chamando à atenção dos portugueses para esta instituição. Já tínhamos tido várias propostas para escrever um livro sobre longevidade e aceitamos a proposta da editora Marcador, na condição que o livro fosse sobre longevidade mas também longevidade num corpo belo e saudável, para termos as duas vertentes. Colocamos como condição que os royalties ficassem contratualmente materializados como entregues diretamente pela editora à instituição. E para ajudar também as pessoas que compram o livro, que não só estão a contribuir diretamente para a instituição mas em troca vão receber duas coisas: vão aprender a atrasar o seu relógio biológico e a viver mais anos com mais saúde. E vão ter uma consulta de nutrição ortomolecular na Clínica do Tempo. Todas as pessoas ganham: ganha a instituição, ganham as crianças e ganham as pessoas que compram os livros. E nós também ganhamos porque vamos sentirmo-nos felizes a oferecer, não só o nosso dinheiro mas o nosso tempo nessas consultas.

O seu filho Tomás ajudou a escrever o livro, está na capa... Apesar de os seus outros dois filhos também já trabalharem consigo, isso significa que o Tomás vai ser o seu sucessor à frente da Clínica do Tempo?
HB -
O Tomás não vai ser o meu sucessor, não. Porque sucessor é algo que acontece no futuro. E ele já está bem presente, no presente. Em brincadeira, uma vez disse-lhe: a Clínica do Tempo se fôssemos estilistas, durante muitos anos era como se fossemos Giorgio Armani e passamos a Dolce e Gabbana, porque são dois. Ou seja, atempadamente houve a preocupação de dar continuidade ao nosso trabalho. Porque a longevidade nós não a queremos só para nós, enquanto pessoas humanas. Também a queremos para o nosso projeto. E, se em termos de longevidade, os últimos dados publicados indicam que em Portugal as mulheres têm uma esperança média de vida de 83 anos e os homens 78 anos... O projecto da Clínica do Tempo não tem que viver 78 anos e não tem que morrer no dia em que eu morrer. E por essa razão, nós vamos conseguir dar uma longevidade ao projecto, vamos perpetuar o nosso conceito desta maneira. O Tomás já está a dar continuidade ao trabalho. Neste momento, a importância do Tomás dentro da clínica é exatamente igual à minha, nós fazemos as mesmas coisas - dividimos tarefas, tanto fazemos primeiras consultas, como segundas, como entrevistas... Uma vez faço eu, outra vez faz ele, outras vezes fazemos em conjunto. Hoje, se eu decidisse fazer a volta ao mundo e afastar-me durante um ano, a Clínica do Tempo funcionava na mesma. A única diferença é que o Tomás tinha que duplicar o seu trabalho - nada que um rapaz de 33 anos e com esta configuração física e mental não possa fazer.

Mas vai fazer essa volta ao mundo? Vai fazer uma pausa para desfrutar da sua longevidade?
HB -
É algo que está nos meus projectos fazer mas aquilo que nós queremos muito, se nós fizermos e praticarmos o bem o nosso dia a dia, se formos pessoas equilibradas, o Universo faz essas coisas acontecerem. E nos últimos anos, fizemos uma verdadeira volta ao mundo porque recebemos clientes de todos os cinco continentes, de toda a parte do mundo. Anualmente recebemos clientes de mais de 53 países e ao convivermos com eles durante algum tempo, estamos a dar ali uma volta ao mundo porque conhecemos os costumes dessas pessoas, desses países, sabemos como é que eles celebram os aniversários e os Natais, que tipo de comida é que comem lá. Estamos a dar uma volta ao mundo sem sairmos daqui da Parede [risos]. Agora a volta ao mundo, ir fisicamente, vai depender aqui do trabalho, da nossa disponibilidade. E vai depender também depois de os meus netos poderem vir a fazer este trabalho. O Tomás também já está a trabalhar nesse sentido [já tem uma filha com 2 anos] e temos essa parte assegurada porque eu tenho cinco netos e pelo menos um deles será nutricionista.

Já se tornou uma profissão familiar? Um dos netos terá obrigatoriamente de seguir por aí?
HB -
Pelo menos um, pelo menos um! [Risos.]

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