"A pandemia veio reforçar a importância de os mais velhos conseguirem ser autónomos mais tempo"

Quando o tema é o envelhecimento saudável, "o foco não está em querer que as pessoas vivam até aos 150 anos, mas sim que tenham um período de dependência cada vez menor no final da vida", salienta Cláudia Cavadas, a vice-reitora da Universidade de Coimbra, que admite a aposta da instituição em assumir a liderança da investigação neste campo

Escolhido pelas Nações Unidas com o tema para esta década (2021-2030), face aos urgentes desafios levantados pelo acelerado envelhecimento da população mundial, o conceito de envelhecimento saudável esteve nesta semana em discussão num fórum coorganizado pela Embaixada do Reino Unido em Lisboa e pela Universidade de Coimbra, cuja vice-reitora, Cláudia Cavadas, falou ao DN sobre os caminhos da investigação nesta área.



O envelhecimento é o principal desafio das sociedades modernas?
É um desafio, mas não gosto de pensar nele como um desafio negativo. É preciso desmistificar um pouco e não contribuirmos para promover o chamado idadismo, o preconceito de idade. Em termos biológicos, é realmente um desafio. Cada vez se sabe mais sobre a componente da biologia do envelhecimento, cada vez temos mais investigadores nas áreas mais básicas da investigação à procura do que acontece no envelhecimento, porque é que há pessoas que envelhecem mais depressa do que outras, se alguns órgãos envelhecem primeiro do que outros, onde é que começa o envelhecimento. Isto é a ciência básica e só isso já é um desafio. Depois é perceber como é que a sociedade pode responder a este desafio, e aí entramos numa área muito interessante que vai encaixar com todas as áreas científicas. Não só já a componente biomédica, mas também áreas como a informática, como é que podemos ajudar estas pessoas na transição digital, na comunicação, como é que as cidades podem tornar-se mais amigáveis para a vida dos mais velhos... enfim, um desafio transversal.

E é um desafio que pode levar à disrupção dos modelos sociais atuais?
Repare, o desafio começa até no próprio nome, envelhecimento, que tem uma componente pejorativa. Cada vez mais, até na área da biomedicina, usamos mais o termo longevidade.

É importante redefinir o próprio conceito de envelhecimento?
Acho que sim. Não sei qual será o melhor termo. Mas é também por isso que falamos atualmente de envelhecimento saudável... talvez devêssemos falar em longevidade saudável. Na verdade o envelhecimento não começa só quando há a deterioração de algumas funções do organismo. O envelhecimento começa desde o início de vida. Redefinir o conceito de envelhecimento é muito importante. Não o colar tanto à idade, porque há pessoas de 80 e 90 anos com capacidades físicas e cognitivas melhores do que outras pessoas com 60. Por isso é que é importante diferenciar o envelhecimento cronológico do envelhecimento biológico. Não são exatamente o mesmo. O cronológico está refletido num número, no cartão de cidadão, mas pode não corresponder ao biológico, que é ditado pelo perfil das nossas células, dos nossos tecidos, dos nossos órgãos. E aí é que entra a componente saudável, o estilo de vida, a alimentação, o sono, o exercício físico, a convivência social. Tudo isso pode influenciar na tal longevidade mais saudável que é o objetivo principal.

O envelhecimento começa a ser definido pelo que fazemos na infância?
Cada vez mais. Em relação à forma como o nosso organismo vai degenerando, mais rápido ou mais lento, há uma componente que está nos genes e há uma componente associada ao estilo de vida, que não está nos genes mas está na vivência familiar, na educação, na literacia em saúde. E o envelhecimento saudável é um processo que anda de mão dada com uma vida saudável ao longo dos anos, não podemos olhar para o envelhecimento como uma fronteira estática que se alcança com determinada idade. Por exemplo, já se sabe desde 1930, através de uma experiência que foi feita com ratos, na altura, que uma alimentação com menos calorias prolonga a vida saudável. Um grupo de ratos alimentados com menos 30% de calorias, em relação a outro grupo, viveu em média também mais 30% do tempo. A alimentação, a restrição calórica, foi das primeiras coisas a serem associadas ao envelhecimento saudável. Depois temos a componente genética, o exercício físico, o estilo de vida e agora estamos a descobrir mais sobre uma área muito importante que é o sono. Mas também, mais recentemente, a componente social. Há estudos muito interessantes: pessoas com todos os fatores de risco, que se calhar não têm uma alimentação muito saudável, mas vivem muito tempo, mais de cem anos. Por isso estão a ser estudados os centenários para perceber porque é que eles duram tanto tempo.

Redefinir o conceito de envelhecimento é muito importante. Diferenciar o envelhecimento cronológico do envelhecimento biológico, porque não são exatamente o mesmo.

Os fatores sociais podem ter um peso tão ou mais importante do que os fatores físicos ou biológicos?
Começam a aparecer esses indicadores. Por isso se diz também que a solidão mata, não é? É engraçado olhar para algumas dessas coisas que se dizem há muitos anos e a que os cientistas por vezes não conseguem dar uma explicação científica. Por exemplo, os próprios livros religiosos, todos, da Bíblia ao Corão, falam de fatores como a alimentação e a privação da alimentação, na Quaresma ou no Ramadão. Todos têm a componente do sono. São fatores cuja importância social está documentada, mas só agora começam a ser cientificamente estudados, ou a ser dada mais atenção à associação desses fatores com o conceito de uma vida e de um envelhecimento saudáveis.

A covid-19 veio expor da forma mais cruel esta temática e a forma como a sociedade trata os seus mais velhos?
Esta pandemia veio expor tanta coisa, e essa é uma delas. Por um lado mostra a fragilidade biológica dos mais velhos, que todos conhecemos mas foi exponenciada brutalmente pelos números de mortes, e por outro lado mostra também a capacidade que a sociedade tem ou não de acolher os seus mais velhos. Esse é um grande desafio. E reforça esta necessidade que temos de trabalhar para que as pessoas consigam ficar autónomas por mais tempo, menos dependentes dos outros, da assistência... é o que nós todos queremos. Quando falamos em investigação transversal nesta área, é este o foco que todos temos de ter: não é querer que as pessoas cheguem aos 150 anos, é se calhar que cheguem na mesma aos 80, mas que o período de dependência nessa parte final seja o mais pequeno possível. Esse é que é o grande desafio: como é que podemos encurtar o tempo de vida de má qualidade? Em Portugal é muito grande ainda. Por exemplo, no caso das mulheres, elas vivem mais, mas têm 20 anos com algum tipo de limitação, sem a saúde completa. E é para aí que devemos trabalhar, para reduzir a um mínimo esse tipo de dependência.

E nesse sentido a pandemia trouxe algumas lições?
Expôs os números e a fragilidade, desde logo. E mostrou-nos também a importância de algumas condições associadas a grupos de risco, por exemplo. A obesidade, as doenças pulmonares... Isto é importante, a consciencialização de que há doenças que trazem associados riscos significativos de mortalidade e a importância de as prevenir. Em relação às pessoas mais velhas, e com o drama que assolou os lares, mostrou sobretudo a importância de garantirmos condições para que possam viver de forma autónoma nas suas casas até ao fim, ou o máximo de tempo possível.

Que papel cabe à academia, às instituições de ensino, na promoção do envelhecimento saudável?
Quando olhamos para a academia, temos de olhar para todos os pilares de atuação da academia: o ensino - pré-graduado e pós-graduado -, a investigação e a inovação. E depois a componente ligada à sociedade. É muito importante esta abordagem integrada e multidisciplinar. Desde as humanidades à física, não há nenhuma área científica em que não possa haver nenhum contributo para este tema. Por isso é importante que possa integrar os programas de ensino pré e pós-graduado, incentivar esta área de estudo nos mestrados e doutoramentos. Depois, a investigação que for produzida, que chega aos jornais científicos, há a obrigação de a fazer chegar à população em geral de forma acessível. É preciso investir na comunicação em ciência sobre estes temas. Por fim, o passo para a inovação. Ou seja, transformar algum deste conhecimento em produtos, serviços, startups... e isso também já está a acontecer. Depois há um outro desafio: evitar que isto se torne uma espécie de ciência soft, que se confunda com uma qualquer banha da cobra. Estabelecer bem o limite entre o que é científico e aquilo que se comunica, porque todos os dias se cura a doença de Alzheimer, ou isto e aquilo, e a realidade não é assim. Há que ter algum cuidado com aquilo que se comunica.

Como podemos introduzir em termos práticos esses temas nos programas de ensino, por exemplo?
Essa é uma reflexão importante. Quando é que nós devemos começar a falar nisto? E de que forma? Se um investigador for a uma escola primária dizer que está a investigar sobre o envelhecimento, é um termo que não interessa aos mais novos. Até há pouco tempo tínhamos até muita dificuldade em termos estudantes de doutoramento interessados nesta área. Agora a coisa já está um bocadinho diferente. Sabemos que há formas de transmitir a ciência adequadas a cada público. Mas quando é que esta consciencialização deve começar? Qual o público mais sensível aos temas da saúde? Eu acho que são as grávidas ou os pais recentes. É o momento em que estão mais recetivos às boas práticas, querem o melhor para os filhos, querem que os filhos cresçam saudáveis e sejam autónomos para sempre. Acho que é aí que começa. Explicar-lhes a importância de transmitir e praticar uma vida saudável, explicar em processos simples coisas que podem ser complexas. A chegada da ciência à escola o mais cedo possível é importante. E depois aos mais velhos, porque aprender ao longo da vida também é um fator importante contra o envelhecimento. Trazer as pessoas para dentro da academia, mostrar-lhes o que é feito na investigação, aproximar a ciência da comunidade. E aí esta pandemia também foi muito interessante. Começou a ouvir-se mais os investigadores, houve um corrupio, uma corrida aos cientistas para falarem sobre assuntos relacionados com a pandemia.

A influência socioeconómica reflete-se bem. Na alimentação, por exemplo: os alimentos mais calóricos são mais baratos e logo aí há uma relação direta com um envelhecimento mais ou menos saudável.

A educação é também um fator diferenciador no envelhecimento? E isso reforça a importância, por exemplo, da formação sénior?
Há aqui duas questões, a relação socioeconómica e a formação. A influência socioeconómica é fácil de ver e reflete-se bem. Na alimentação, por exemplo: os alimentos mais calóricos são mais baratos e logo aí há uma relação direta com um envelhecimento mais ou menos saudável. E as condições económicas são o que permite à pessoa usufruir ou não de tempo para a educação, de poder prosseguir a sua formação ao longo do tempo. Portanto, há uma relação entre a educação e o acesso aos alimentos, à informação e à saúde para todos. Aí é que nós não podemos deixar ninguém para trás, é importante que todos tenham acesso. A digitalização veio dar um contributo importante - e esta pandemia veio acelerar essa transição. É um dos objetivos assumidos pela Comissão Europeia, o acesso à digitalização para todos. E esse acesso vai ser importante para a informação chegar a todos e para promover a educação ao longo da vida. Porque o estímulo é muito importante para a manutenção das capacidades cognitivas - lá está, a ideia do "aprender até morrer".

Isso obriga também as próprias instituições de ensino a repensar os seus modelos e a encontrar outras formas de poderem tornar-se mais inclusivas para os mais velhos?
Sim. As universidades e outras instituições de ensino têm de saber chegar a novos públicos, diferentes, que querem saber coisas diferentes. Na Universidade de Coimbra temos 70 programas de doutoramento, temos estudantes de doutoramento dos 24 aos 70 anos. Temos ensino à distância, pequenos cursos de pós-graduação e cada vez mais devemos promover esse tipo de ensino, em formatos mais curtos, mais práticos.

A própria sociedade tem de reinventar-se nesse aspeto? Não é fácil conciliar vida ativa laboral e familiar com uma formação contínua.
Claro, mas temos de apostar em novos formatos, pequenos blocos... temos de ser inovadores na oferta.

Coimbra tem vários projetos e instituições, muitos dentro do ecossistema da universidade, a olhar para este tema - entre eles o novo MIA, Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento. A UC quer ser o hub do envelhecimento saudável em Portugal?
Já é um hub e por isso é que se tornou possível acolhermos o MIA. Por um lado, Coimbra é uma das cidades europeias como referência para o envelhecimento ativo e saudável para a Comissão Europeia. E a própria universidade é parceira de uma rede europeia, a EIT Health, ligada à saúde do envelhecimento. Temos 38 centros de investigação, muitos deles a abordar de formas diferentes o fenómeno do envelhecimento. Portanto, temos aqui um ecossistema ligado a esta temática. É uma aposta declarada, queremos liderar a investigação nesta área e atrair as melhores pessoas para o fazer.

rui.frias@dn.pt

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