"A pandemia fez-nos perceber que não há saúde sem uma boa saúde mental"

É uma das prioridades na atuação da Fundação José Neves, que leva o nome do líder da Farfetch. Ao DN, o presidente executivo Carlos Oliveira fala na importância de colocar o bem estar pessoal e a saúde mental na ordem do dia, no segundo país da Europa com maior prevalência de doenças psiquiátricas. O guia agora lançado quer ajudar os portugueses a lidar melhor com o assunto.

A incidência crescente das doenças mentais em Portugal e no mundo, num quadro deixado mais exposto por dois anos de pandemia, faz da saúde mental um tema urgente a enfrentar pelas sociedades atuais. Para a Fundação José Neves (FJN), criada em 2020 pelo fundador da Farfetch, esta é uma área fundamental na promoção do desenvolvimento pessoal, um dos pilares de atuação da fundação. Por isso, para apoiar os portugueses na promoção da sua saúde mental, a FJN lança esta quarta-feira (16) o "Guia para o desenvolvimento pessoal: como investires no teu bem-estar?", distribuído com a edição impressa do DN e que pode também consultar aqui.

O que levou a Fundação José Neves a lançar este Guia para o desenvolvimento pessoal, focado no bem-estar e saúde mental?
Este guia vem na sequência de uma série de guias que a fundação tem lançado em diversas áreas em que atua. Lançámos antes um guia para jovens e pais sobre como escolher o que estudar, depois um guia para adultos sobre como aprender ao longo da vida e agora lançamos este guia de desenvolvimento pessoal. Estes guias têm como objetivo serem ferramentas relativamente curtas e simples, de leitura fácil e que possam atingir os portugueses que tenham alguma preocupação sobre estes temas, ou que não tenham nenhuma preocupação mas que pela facilidade de leitura e de acesso a estes conteúdos possam sentir que este guia de alguma forma os possa ajudar. Este guia é uma parceria com a Escola de Medicina da Universidade do Minho e nasce relacionado com o quarto pilar da fundação, que é o pilar do desenvolvimento pessoal. Nós acreditamos que é preciso desenvolver competências para conhecermos e manipularmos o mundo que nos rodeia, mas para sermos seres completos e estarmos neste mundo de uma forma mais equilibrada precisamos também de nos conhecermos a nós próprios. E daí, neste quarto pilar, temos já outros programas, designadamente o 29K FJN, que é uma aplicação móvel que permite um conjunto de interações para melhorarmos o nosso bem-estar e a nossa saúde mental, e este guia veio exatamente nesta linha, dirigido aos portugueses, àqueles que já de alguma maneira têm alguma perspetiva sobre o seu bem-estar e saúde mental, mas em particular a pensar naqueles que nunca pensaram no assunto e não têm sequer as bases para este desenvolvimento.

A saúde mental tem de ser a próxima grande prioridade social saída da pandemia?

Sem dúvida. Está na génese da fundação o tema do autoconhecimento e desenvolvimento pessoal e, por correlação, o bem-estar e saúde mental. Naturalmente que esta pandemia - e nós apresentámos o arranque da fundação já após o início desta pandemia - permitiu identificar ainda mais esta enorme necessidade de se colocar na agenda e na ordem do dia o tema da saúde mental. Por estarmos num país que é um dos maiores consumidores de ansiolíticos da Europa, é também o segundo país da Europa com maior prevalência de doenças psiquiátricas, um em cada cinco portugueses sofre de uma perturbação mental e este é mesmo o segundo tipo de doenças mais registado em Portugal, cerca de 12%, apenas ultrapassado pelas doenças cardiovasculares. Portanto, é de facto um tema de uma enorme prioridade, num momento em que se estima que cerca de 20% da população mundial vive com problemas de saúde mental, sendo a ansiedade e a depressão as perturbações com maior incidência. E, ainda para mais, sendo este um tema tabu em Portugal. Há uma enorme barreira cultural ainda ligada ao tema da saúde mental e aquilo em que nós acreditamos é que é preciso falar sobre o assunto, mostrar que isto é normal, que acontece a todos, que temos momentos em que estamos melhor ou pior, mas que há também linhas que depois de ultrapassadas são muito difíceis de recuperar sem uma ajuda profissional, psiquiátrica ou psicológica. E em Portugal, normalmente, já se atua numa fase muito tardia e daí também a necessidade de se avançar para o uso de medicamentos, enquanto que se estas situações forem detetadas em fases mais iniciais podem ter tratamentos menos complexos, muitas vezes geridos pelas próprias pessoas, ou com uma ajuda mais leve. A fundação faz aqui esta parceria com a Universidade do Minho por entendermos que a base científica e a base médica são fundamentais para estes temas. E este guia tenta precisamente, por um lado, apresentar dados de contexto e o estado em que estamos e, depois, explicar que o bem-estar é fruto de uma prática diária que muitas vezes está nas mãos da própria pessoa, na forma como lê e interpreta o mundo e como gere as suas emoções.

Têm dados de quanto a pandemia veio agravar o problema e qual o impacto real dos problemas relacionados com a saúde mental?
Não temos dados apurados que sejam rigorosos nesta fase, são dados com alguma complexidade para que possamos dar neste momento, para além dos que são já conhecidos e de que lhe falei atrás. Um em cada cinco portugueses sofre de perturbações mentais. É o segundo tipo de doenças mais registado em Portugal. E, obviamente, todos temos a noção de que a pandemia veio por a nu estas dificuldades, por diversas razões, desde alterações dos padrões de vida a que estávamos habituados a alterações nas dinâmicas de socialização, aumento de situações de stress emocional a que as pessoas estiveram expostas, etc. Há uma perceção generalizada de que tudo isso tem implicações ao nível da saúde mental. Aliás, há especialistas que comparam o impacto desta pandemia na saúde mental com aquele provocado por uma guerra. Portanto, isto implica que as pessoas se apercebam, possam acorrer a ferramentas e que as ajudem a não ultrapassar as tais linhas vermelhas. É neste patamar que a fundação tenta estar: oferecer essas ferramentas aos portugueses, para que as pessoas entendam a importância do tema, que se desmistifique, que se fale com normalidade sobre o bem-estar, a saúde mental, as emoções e as formas como elas nos podem perturbar ou ajudar a refocar. E percebermos que há uma parte deste trabalho que pode estar nas nossas mãos.

A pandemia teve pelo menos esse lado positivo de despertar consciências para a importância da saúde mental ou continua a ser difícil falar de saúde mental? E em ambiente profissional é mais difícil?
Sim. E de percebermos que não há saúde sem uma boa saúde mental. Normalmente associamos muito a saúde às questões físicas, apenas, e não é possível estar bem de saúde sem ter também uma boa saúde mental. Continua a ser difícil falar destes temas em contexto profissional, mas em bom abono da verdade, nos últimos meses, têm havido passos no sentido de tentar normalizar este assunto e de perceber que há formas de lidar com isso sem chegar à fase de medicações e intervenção médica.

De que forma este guia pode então apoiar os portugueses na promoção da sua saúde mental? Que ajuda prática podem as pessoas encontrar?
Por um lado esta noção de que o bem-estar é fruto de uma prática diária. E este guia pode ser um recurso para uso continuado. Tem ferramentas comprovadamente eficazes e identifica diversos tipos de exercícios ou formas de atuar, do ponto de vista emocional, profissional, relacional que podem de facto ajudar os portugueses a estarem mais atentos ao que cada um de nós está a sentir, a criar nova relações, a reforçar as que são importantes, a expressar sentimentos, a construir rotinas que promovam este bem-estar, a separar entre vida pessoal e profissional, que foi uma dificuldade agravada pelo teletrabalho durante a pandemia. Deixamos também um conjunto de seis recomendações essenciais, estratégias de autoconhecimento... é um misto de conjunto de princípios com alguns exercícios práticos que permitem ter um contacto com esta realidade e perceber que há algo que podem fazer quanto a isto. Digamos que é um guia muito prático, com um conjunto de exercícios e estratégias que visam ajudar as pessoas a lidar com as suas emoções de uma forma saudável, que liga muito bem com o outro programa da fundação que é o 29K FJN. O nosso objetivo é que este estigma da saúde mental seja mitigado e disponibilizar uma série de instrumentos para isso.

É direcionado para ambiente profissional ou para todas as faixas da população?
Este guia pretende ser transversal, precisamente por acharmos que nesta fase é preciso que o maior número de pessoas possa tomar contacto com esta temática, com estas realidades, com estas estratégias. Não quer dizer que no futuro não possamos ter alguns temas mais específicos, como acontece na aplicação 29K FJN.

O nosso país é o segundo da Europa com maior prevalência de doenças psiquiátricas. Um em cada cinco portugueses sofre de uma perturbação mental. O novo Governo deveria colocar a saúde mental na prioridade na próxima legislatura?
Sim. Eu diria que o Sistema Nacional de Saúde tem que obrigatoriamente reagir, de uma forma muito acelerada, àquilo que é o segundo tipo de doenças mais registada em Portugal. Se a primeira, que são as doenças cardiovasculares, tem cada vez maior atenção e resposta do nosso sistema de saúde, já as doenças do foro mental não têm seguramente o mesmo tipo de tratamento e esta pandemia é muito reveladora dessa necessidade. Até para podermos ter menos pessoas a chegarem ao Estado a precisar de tratamento médico.

O que gostaria de ver o Estado fazer nesse sentido?
Haveria muitas coisas, mas acho que não cabe à Fundação estar a dar conselhos nessa matéria. Não é esse o nosso objetivo. O que queremos de facto é chegar às pessoas e dar-lhes ferramentas para se valorizarem também nesta área. Podemos fazer mais por nós próprios do que muitas vezes imaginamos, também em matéria de saúde mental.

Nesse sentido, é importante humanizar os problemas e ver uma série de exemplos de figuras públicas que têm vindo a público admitir e falar sobre problemas de saúde mental, desde atletas de alta competição a figuras da alta finança, como foi o caso de Horta Osório?
Sem dúvida. No lançamento da Fundação tivemos precisamente o dr. Horta Osório a falar abertamente sobre o seu exemplo. E tão importante quanto isso foi como isso o levou a implementar enquanto líder e gestor programas de saúde mental nos bancos por onde passou. São exemplos muito reveladores. Por isso também temos no nosso programa a Catarina Furtado, a Fátima Lopes, a Paula Amorim, o Luís Portela, o próprio José Neves, a Cristina Alves a darem a cara por alguns dos cursos e a mostrarem que alguns dos problemas por que cada um de nós passa também os passam estas pessoas com as quais temos algum tipo de ligação, seja por serem figuras públicas seja por as admirarmos nos seus trabalhos. É precisamente uma parte do programa 29K FJN, essa humanização destes temas. Todos temos, sem exceção, de lidar com eles. Por vezes no glamour das redes sociais e do mundo virtual parece que tudo está bem e tudo corre bem, mas isso é uma irrealidade.

Consulte aqui o "Guia para o desenvolvimento pessoal: como investires no teu bem-estar?" da fundação José Neves

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