A nova escola das Forças Armadas. Treinados para combater e salvar vidas

As Forças Armadas têm uma nova escola que treina os soldados do Exército, Força Aérea e Marinha para estarem aptos a socorrerem camaradas feridos. Mas quer ir mais longe: formar também jovens para apoiar a sociedade civil em situações de catástrofes

Inês Castro tem apenas 19 anos, uma voz doce que se ouve quase num sussurro por debaixo da máscara e é soldado de Arcos de Valdevez. Está na última semana de formação para socorrista do Exército, num teste final que tem lugar no Hospital das Forças Armadas (HFAR) em Lisboa.

Com a soldado Beatriz Costa, 20 anos, do Porto, tem de mostrar as suas capacidades nas técnicas de cuidados a um doente em ambiente hospitalar. Na cama, a simular um doente ferido em combate, já em recuperação, está Daniel Milhinhos, 24 anos, de Leiria. Estão concentrados nas suas tarefas e nem a presença dos jornalistas do DN, nem sequer a da diretora da escola, os distrai.

Os três militares fazem parte de um grupo de 18 jovens do Exército que tem estado há oito semanas - a duração do curso - em regime de internato na recém-criada (fevereiro de 2021) Unidade de Ensino, Formação e Investigação da Saúde Militar (UEFISM), a sofisticada designação da instituição que substituiu as anteriores escolas dos Ramos, com destaque para a histórica Escola de Saúde Militar do Exército.

Completada a missão hospitalar, os olhos de Inês Castro brilham quando lhe perguntamos o que gostou mais do curso, que está prestes a terminar. As suas memórias remetem-na para cerca de duas semanas atrás, quando esteve no polo de Coimbra da UEFISM debaixo do fogo simulado de um combate a resgatar um ferido.

"É muita adrenalina ter de ir buscar uma vítima com hemorragias, à qual tivemos de fazer uma amputação, para a transportar rapidamente a um helicóptero, no meio de fogo e fumo"

"É muita adrenalina ter de ir buscar uma vítima com hemorragias, à qual tivemos de fazer uma amputação, para a transportar rapidamente a um helicóptero, no meio de fogo e fumo", relata, como se estivesse a contar um filme.

Salvar sob forte stress

A diretora da UEFISM, a coronel médica da Força Aérea Maria Salazar, acena em apoio. "Os soldados socorristas têm de saber trabalhar em todos os tipos de situação. Criamos ambientes de stress para trabalharem debaixo de grande tensão, com obstáculos de toda a espécie para os cansar, sons, gritos (algumas vezes de crianças), escuridão, fumos, derrocadas. Têm de ser capazes de reagir, pensar e agir. Nas suas mãos pode estar salvar uma vida", sublinha esta oficial que no ano passado liderou uma equipa do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) que realizou ações de sensibilização e formação em lares de idosos por todo o país, no âmbito do combate à covid-19.

Maria Salazar tem como subdiretora outra médica militar, a capitão-de-fragata da Marinha, Filipa Albergaria (ver perfis em baixo) e como diretor de ensino o veterano enfermeiro do Exército, major José Resende.

Os três Ramos aqui representados simbolizam uma mudança de paradigma no ensino da saúde militar, antes repartida por cada um deles, neste momento unido no UEFISM aliando conhecimentos e experiências de todos, partilhando formadores e soldados.

A formação na UEFISM arrancou a 16 de março, no Módulo de Formação e Simulação, do Centro de Saúde Militar de Coimbra , com a primeira ação, na área do socorrismo em combate

A formação na UEFISM arrancou a 16 de março, no Módulo de Formação e Simulação, do Centro de Saúde Militar de Coimbra , com a primeira ação, na área do socorrismo em combate, ministrada a 24 militares que se encontravam em aprontamento para integrar a 9.ª Força Nacional Destacada na Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana (MINUSCA).

Treinados para combater mas também para salvar vidas em situações extremas, o que experienciaram os jovens Inês, Beatriz e Daniel, já experienciaram cerca de outros 70 jovens nos quatro cursos de socorristas para o Exército entre março e julho. Ao todo, as Forças Armadas têm ao serviço cerca de 300 socorristas.

A tentar recuperar o tempo de quase um ano de paragem por causa do confinamento, Maria Salazar não tem tido mãos a medir. "Normalmente, a antiga escola de saúde fazia em média quatro cursos anuais. Este ano, o Exército quer que façamos 11", afirma a coronel médica.

Metralhadora e kit médico ao ombro

"Neste novo modelo é muito importante a dinâmica que se criou na formação, com a articulação entre os três Ramos. Podem ser chamados militares de diversas especialidades para dar os cursos", assinala a coronel médica.

No seu gabinete ainda a cheirar a novo, Maria Salazar explica que "a formação na saúde militar inclui a do pessoal de saúde, como médicos e enfermeiros, e a dos militares que não vêm da área da saúde, mas nos quais foi identificada vocação para socorrismo, na recruta".

No final das oito semanas ficam habilitados com seis competências essenciais em cenário de guerra ou outras catástrofes: examinar as vítimas; executar técnicas de socorro; apoiar o socorro em ambiente tático; operar o desfibrilhador; tripular as ambulâncias de emergência; e apoiar os profissionais de saúde.

"Pretendemos trabalhar para dentro, com tropas bem preparadas, mas também para fora, com parcerias com entidades civis para fazer treinos para ambientes de catástrofe, aumentando, por exemplo, a oferta da UEFISM para formações a bombeiros, INEM e outros agentes de Proteção Civil"

Mas a UEFISM não se quer ficar apenas pela formação de soldados aos serviço das Forças Armadas. "Pretendemos trabalhar para dentro, com tropas bem preparadas, mas também para fora, com parcerias com entidades civis para fazer treinos para ambientes de catástrofe, aumentando, por exemplo, a oferta da UEFISM para formações a bombeiros, INEM e outros agentes de Proteção Civil", afiança Maria Salazar.

"O que a UEFISM quer fazer de novo, e vai fazer, são conceitos de qualidade, de transversalidade, de inovação em parcerias - que vai funcionar como uma forma de valorizar os militares para a sua vida, através de uma diferenciação na sua carreira com esta formação especial e certificada", sublinha a diretora.

No que diz respeito à transversalidade, esclarece, "está a ser feita uma revisitação aos cursos dos três Ramos, para reforçar a parte da credenciação e acrescentar algumas componentes específicas de cada Ramo para todos. Ou seja, por exemplo, um enfermeiro da Marinha deve saber também especificidades dos outros ramos, como medicina aeronáutica e de combate. Os cursos não podem ser fechados aos ramos para que possa ser criada uma dinâmica conjunta".

Uma das prioridades da UEFISM é a promoção da investigação em saúde militar: colaborar com universidades, incentivar a investigação associada à atividade específica do contexto militar e colaborar com entidades civis na realização de cursos de simulação.

Com 47 anos e mais de duas décadas de experiência em zonas de conflito real, como o Kosovo e o Azerbaijão, onde acompanhou os militares destacados do Exército, o major Resende assume-se como "um combatente por formação, mas também um enfermeiro com competências próprias em situações de guerra ou outras catástrofes. Somos treinados para o combate e para salvar vidas. Até agora só salvei vidas, nunca matei ninguém", garante. Em cenário de guerra leva "num ombro, a metralhadora, no outro vai o kit de primeiros socorros".

Duas oficiais médicas na liderança

Uma dupla de oficiais médicas, da Força Aérea e da Marinha, foi escolhida entre um universo de 240 médicos para dirigir o novo projeto das Forças Armadas.

Maria Salazar e Filipa Albergaria, médicas e respetivamente coronel da Força Aérea e capitão-de-fragata da Marinha estão na liderança da nova escola das Forças Armadas, a Unidade de Ensino, Formação e Investigação da Saúde Militar (UEFISM).

Salazar é a diretora e Albergaria a subdiretora. Como diretor do departamento de ensino e formação foi escolhido o major enfermeiro do Exército José Resende, ficando assim os três ramos representados.

Maria Salazar, 49 anos, médica formada na Faculdade de Medicina de Lisboa, com a especialidade de Gastrenterologia, esteve à frente do programa das Forças Armadas para as ações de sensibilização em lares, em apoio ao Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS).

Filipa Albergaria, médica formada também na Faculdade de Medicina de Lisboa, na especialidade de Ginecologia, tem uma longa experiência embarcada em navios na Marinha, incluindo missões da Frontex, mas também esteve no terreno numa missão humanitária no Paquistão.

As Forças Armadas têm um universo de 240 médicos (dos quais 70 são internos em formação e 170 especialistas) e 430 enfermeiros, além de cerca de cinco centenas de socorristas, farmacêuticos, veterinários, dentistas, nutricionistas, psicólogos e técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica

As Forças Armadas têm um universo de 240 médicos (dos quais 70 são internos em formação e 170 especialistas) e 430 enfermeiros, além de cerca de cinco centenas de socorristas, farmacêuticos, veterinários, dentistas, nutricionistas, psicólogos e técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica.

Existem 5 oficiais generais médicos: o Diretor de Saúde Militar do EMGFA- 2 estrelas (Major-General); o Diretor do HFAR - 1 estrela (Brigadeiro-General); e os três Diretores de Saúde dos Ramos - 1 estrela (Comodoro e Brigadeiro-General ).

valentina.marcelino@dn.pt

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