A medicina como última morada para cinco mil portugueses

Faculdades registam cada vez mais inscritos a quererem dar o corpo para que médicos e alunos aprendam.

"O meu corpo tem alguma coisa diferente dos outros. Há já muitos anos que os médicos me disseram que tinha um mioma e me perguntaram como tive dois filhos. Acho que deve ser estudado. De todo o modo, ele não presta para nada, para que serviria, para estar debaixo da terra?" Adelaide completou em fevereiro 102 anos e foi há nove que decidiu apanhar o autocarro e dirigir-se à Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Nova, em Lisboa, para garantir que o seu corpo, quando morresse, seria usado em nome da medicina. "Os médicos têm de estudar, eles precisam". No lar lisboeta onde se encontra há mais de dez anos, muitos idosos assinaram esta opção. Como eles, mais de cinco mil portugueses guardam a carta a ditar o seu destino para o final de vida.

Adelaide sente-se mais cansada, diz, a recuperar de uma infeção respiratória que levou ao seu internamento. Nessa altura, os médicos aproveitaram para pedir umas análises e exames. "Para quê? Eu já disse que não iam encontrar nada. Nunca encontram". Até há pouco calcorreava o lar, ajudava outros idosos a comer e até dava as suas escapadelas. Agora nem tanto. "Já me sinto mais cansada, nem tenho ido ao teatro ou à ginástica". Mas apesar de o coração estar mais cansado, o que a transtorna mais é mesmo ter dores nas pernas e problemas de circulação.

Todos os dias fala com os dois filhos e mantém alguns pequenos prazeres como o café - que guarda no seu roupeiro - ou o queijinho. Vai à missa e ao Terço, gosta de companhia e de falar, até porque a televisão lhe diz pouco. Sobre a ida para o lar, onde já dava uma ajudinha, diz que "ninguém a mandou. Vim quando quis. Era um sábado, nem fui jantar. Fiz as mudanças, trouxe fotografias e pouco mais."

A decisão de doar o corpo à ciência foi igual. "Foi uma amiga que me falou nisso e eu fui logo lá, nem esperei. Depois contei à família. O meu filho até perguntou "a mãe sabe o que está a fazer?" E eu respondi que cada um sabe do seu corpo. Eu ainda tenho juízo".

Altruísmo e falta de recursos

Há seis faculdades a desenvolver programas de doação cadavérica, embora com algumas diferenças. Para o fazer, basta contactar as faculdades. A família idealmente deve ser informada, para ter conhecimento deste desejo e para o cumprir. "O processo é sigiloso e a doação ocorre depois de cumpridos os atos religiosos [para quem o quiser]. O corpo depois para no tempo", diz João O"Neill que dirige o departamento de anatomia da FCM, o que regista maior atividade nesta área.

O corpo é embalsamado e neste organismo, com uma "técnica única, o cadáver pode durar meses ou anos, mas temos dado vazão com o número de cursos". No final, a família é informada. Como em todas as faculdades contactadas, as despesas com a cremação, enterro e transporte, são cobertas.

O motivo principal das doações é ajudar a ciência a progredir, dizem os responsáveis dos departamentos de anatomia, já que além de haver dissecção de cadáveres nas aulas de anatomia, os corpos são usados na formação pós-graduada. Há aqueles que, por vezes, e porque o otimismo pode durar uma vida, "contactam-nos porque sabem que estão doentes e querem evitar problemas vindouros" diz um responsável do Instituto Abel Salazar, mas aqui não fazemos investigação". João O"Neill discorda. Aprendemos sempre coisas novas. Por vezes encontramos situações raras que tratamos como se estivéssemos na prática clínica".

Mas há quem queira minorar o sofrimento da família ou garantir que os familiares não gastarão fortunas num funeral. Mais raro, e em época de crise, sobretudo, há quem o faça porque a família não tem dinheiro para as despesas do funeral.

A Faculdade de Ciências Médicas deu início ao programa de doação cadavérica há 35 anos, com um único corpo. Este ano, a lista já vai em 2591 inscritos. "Recebemos 300 a 350 doações por ano e até já tivemos de restringir a nossa área de influência a 100 quilómetros", refere João O"Neill.

Todos os anos entram 40 a 60 novos cadáveres na faculdade, fruto desta dádiva, recursos que eram tão escassos antes que não chegavam para as necessidade de formação de quem estudava. Foi por essa razão que se criou uma legislação que enquadra estas matérias, seja na doação, seja na forma como os cadáveres e as peças humanas podem ser utilizadas.

Dulce Madeira, diretora do departamento de anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, lembra que até à lei de 1999, o habitual era usar corpos que vinham da medicina legal ou que não eram reclamados. E isso deixou de ser possível, até porque as pessoas não sabiam disso. A lei definiu quem pode fazer uma doação, os seus moldes e de que forma um corpo pode ser usado e dissecado para formação. O destino final, geralmente a cremação, também vem estipulado na lei.

Mais mulheres a doar

A maior de todas as regras será a impossibilidade de comprar ou vender um corpo. "Já tivemos pedidos um pouco estranhos, de pessoas que perguntam quanto pagamos, mas são raros, geralmente é pelas razões que é suposto". Esta faculdade iniciou o programa em 1980, mas foi em 2000 que teve um incremento progressivo, até rondar as cerca de cem doações por ano.

Depois da FCM, com 2591 inscritos, o departamento associado ao Hospital de São João é o que tem maior atividade, com 1286 inscritos, seguida da Faculdade de Medicina de Lisboa, com 500, ou a de Coimbra com 430. O Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), no Porto, tem uma atividade mais reduzida, com 230 inscritos. A Universidade do Minho não respondeu ao DN, tal como a da Beira Interior, esta última sem atividade nesta área atualmente.

As mulheres são quem mais toma a iniciativa nesta área, que nada tem a ver com a doação de órgãos. Mas a pessoa que se inscreve pode desistir em qualquer momento da sua vida. Geralmente, são idosos ou pessoas acima dos 50 a assina r a dádiva, que pode ser feita pessoalmente, através de telefone, carta ou email," depende das unidades. "Mas é engraçado que há cada vez mais pessoas mais jovens. Temos pessoas com 19 anos, estudantes de medicina", acrescenta Dulce Madeira. Só no serviço do Porto há sete inscritos com menos de 20 anos e 66 com menos de 30.

Francisco Correia, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, diz que a unidade retomou a atividade depois das obras há cerca de dois anos, tendo mais inscrições. "Há muitas pessoas com 20 ou 30 anos. Antes a maior parte não era religiosa, mas isso também começa a mudar, querem ajudar, não querem ir para debaixo da terra".

Nada substitui o corpo no ensino

"Quem consertará uma máquina ignorando as peças de que é feita? Como se podem curar as doenças não conhecendo os órgãos que atacam?" Assis Leite era professor de anatomia da Real Casa Pia no século XVIII e já escrevia assim e pensava . Como hoje, só se aprende verdadeiramente anatomia dissecando, observando e descobrindo. Uma descoberta que remonta sobretudo à Escola de Alexandria, 300 anos antes de Cristo, quando houve estudos de dissecção que trouxeram conhecimento profundo do corpo humano. Este é o método de excelência, mas nem sempre é possível ou tanto como o desejável perante a falta de cadáveres.

O professor O"Neill explica que nem sempre a matéria deve ser o cadáver. "Depende da curva de aprendizagem. Há modelos perfeitos, para fins comerciais, e os fantomas [simuladores] que repercutem grosseiramente o corpo humano, podendo ser usados para massagem cardíaca ou canalizar uma veia".

Os simuladores - também há em Portugal - são evoluídos e dispendiosos, "mas não têm simulações infinitas e baseiam-se na média e não nas particularidades. Simuladores simulam, não são reais. E mesmo os modelos animais não são humanos. E cada pessoa é um caso diferente. Quando fazemos cursos avançados só os podemos fazer com material humano". Todos os anos, os cursos da faculdade envolvem 250 a 300 médicos e 80 a 100 formadores. Só no ano passado houve 15 cursos pós-graduados.

Em Coimbra, o professor e cirurgião António Bernardes diz que a unidade tem 12 corpos congelados e que faz "uma dissecção uma vez por ano nas aulas para 300 alunos, além dos cursos pós-graduados. Faltam cadáveres para incrementar a formação. "Acredito que talvez nem sempre a família cumpra a vontade de quem quer doar, porque recebemos três ou quatro cadáveres por ano". Mas as doações continuam a crescer.

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