"A grande prioridade do país deve ser a união"

Maria Teresa Caetano foi professora e é presidente da Associação Pão e Paz.

Por volta do meio-dia, a rua dos Penedos enche-se de gente. Uns de pé, outros sentados no passeio à porta da Associação Pão e Paz. São famílias carenciadas de Évora que procuram a comida que hão de levar à mesa lá em casa. "Hoje foi tão complicado. Parecia que não dávamos conta do recado", diz com voz exausta Maria Teresa Caetano, presidente da instituição. "Temos colaboradores e voluntários de férias e eu não estou nada bem", justifica do alto dos seus 76 anos, exibindo uma mobilidade reduzida à espera que uma cirurgia lhe devolva melhores dias para continuar a ajudar os 120 utentes da casa que criou em 2001.

Há 16 anos que a antiga professora de história do ensino secundário faz um trabalho quase de "formiguinha", armazenando tudo o que pode. Roupa e sapatos estão divididos em sacos, enquanto latas de conserva com comida e embalagens de massas enchem as prateleiras das instalações da Pão e Paz. É para chegar ao maior número de carenciados da cidade.

Não admira que a associação que dirige funcione como uma espécie de barómetro da economia nacional, em que a generosidade é maior ou menor consoante as taxas de emprego e consumo sobem ou descem.
Também por isso, Maria Teresa Caetano nem quer ouvir falar nos efeitos da passagem da troika por cá, que tantos muros ergueu a quem anda habitualmente de mão estendida. "Nunca mais. Todos aprendemos muito com essa experiência tão austera e tão confusa", diz, encarando hoje a vida dos portugueses com mais otimismo. "Noto que o governo está a fazer algum esforço para melhorar a economia", diz, embora não poupe críticas aos partidos políticos pelas discussões alegadamente confusas que lançam frequentemente na sociedade.

Contudo, tem a certeza de que com calma e paciência Portugal há de recuperar dos tempos de crise. "Num país pobre como somos não será possível melhorar tudo ao mesmo tempo", avisa, recorrendo à velha tese, segundo a qual "falar é muito fácil, mas construir o que necessitamos é muito mais difícil", diz por experiência própria, sem perder de vista "a prioridade que o país deve dar à união". E já olha com "tristeza" para 2017 como um ano de "muito sofrimento" para Portugal. Reporta-se à seca que está a fustigar os campos do seu Alentejo e aos trágicos fogos que roubaram vidas ao país. Receia pelas consequências que por aí vêm nos tempos mais próximos.

É nos piores momentos que a fé lhe salta ao caminho. Com uma vida ligada à Diocese de Évora, Maria Teresa decidiu abrir a Pão e Paz em 2001, após um acidente grave de viação - quatro anos antes - que a entregou largos meses aos cuidados do Hospital de São José (Lisboa). Correu o risco de ficar paraplégica, mas nunca se entregou às dores. Está mais preocupada com aquela que é hoje a principal carência dos utentes da Pão e Paz: "Alguns andam com os pés no chão e a precisarem de sapatos entre os números 40 a 42. Temos tanta dificuldade em arranjar." Espera voltar com força a cuidar dos "seus" pobres depois da cirurgia e quer contribuir para ajudar Portugal a ser um país mais integrador.

"Com muita tristeza, não podemos esquecer o muito que ainda existe de discriminação étnica e social para com algumas etnias, ciganas e outras", lamenta. Encontra mesmo neste aspeto o contraste amargo perante o que designa de "país maravilhoso" que é Portugal, onde se encontra "gentes, na sua maioria, simples e simpáticas para com todos os que nos visitam. De tal maneira, que muitos estrangeiros escolhem este país para viver. Não só pela sua beleza natural mas sobretudo pela afabilidade dos portugueses", justifica, alargando este olhar aos refugiados.

Acha que Portugal deve escancarar as suas portas às famílias que fogem da guerra e da fome, começando por lhes ensinar a nossa língua, "tratando-os como irmãos que somos. Não o devemos explorar", apela, alertando que "muitos deles têm tanto para dar. Não só com muitos conhecimentos que a vida lhes proporcionou mas também em muitas atividades", diz, insistindo que o país "não deve fazer dos refugiados escravos", enquanto aponta a União Europeia como um exemplo da importância das relações entre povos.

Admite que quando Portugal aderiu à União Europeia teve a convicção de que o salto seria tão grande que o país não iria suportar. "Pareceu-me até um disparate", confessa, admitindo que o passar do tempo lhe mostrou que "Mário Soares tinha antevisto, com alguma clareza, o que nos viria por aí", diz. Hoje pensa de outra maneira. "Sem a União Europeia estaríamos com maiores necessidades, a sua ajuda tornou-se imprescindível para Portugal", insiste. Fala do empurrão financeiro que tem chegado de Bruxelas, mas junta-lhe a "aprendizagem" que tem sido feita à boleia do convívio com outros povos. "Passámos a perceber o bom que eles têm e o bom que em diálogo podemos proporcionar uns aos outros."

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