A despedida de "afetos" do homem que nos falava da Saúde

Diretor-geral da Saúde despediu-se do cargo numa última intervenção onde não faltou a família, os amigos e os "ex-patrões" - os ministros da Saúde

Esperou os convidados à porta, cumprimentou todos e só depois deu entrada no auditório que ia acolher a sua última intervenção pública. Na despedida, como durante os 44 anos de serviço público, Francisco George manteve a marca que o destacou: a capacidade de comunicar. No caso de ontem comunicar "afetos", mais do que pandemias, surtos ou vacinas. Na plateia ouviram-no sete ex-ministros da Saúde, o atual, o presidente da Assembleia da República, médicos e amigos, os bastonários das ordens dos médicos e dos enfermeiros. Foram incluídos, naquilo que o diretor-geral da Saúde classificou de "manifestação de solidariedade".

O "frenético" e "comunicador sensato" representante da Saúde Pública dos últimos 12 anos, despediu-se por limite de idade - completa hoje 70 anos - perante os elogios de todos os seus "ex-patrões". Correia de Campos declarou não se arrepender de o ter nomeado diretor-geral. Ana Jorge falou da sua capacidade de gerir crises, como a da gripe A com que foram confrontados, Paulo Macedo sublinhou o seu contributo para a elaboração de normas clínicas e a explicação das mesmas junto dos profissionais. Já o atual titular da pasta da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, deixou a garantia de que a voz do diretor-geral da Saúde vai continuar a ser necessária junto dos portugueses. "Habituámo-nos todos, os portugueses em geral, a considerar Francisco George um dos nossos, uma espécie de alguém que regularmente vemos em nossa casa", considerou.

Muitos dos ministros eram já seus amigos antes dos cargos que todos assumiram, outros ficaram amigos para lá das funções exercidas. Também o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, teve de dividir o seu discurso entre o oficial e o pessoal. Amigo desde a adolescência - "tinha 13 anos quando ouvi falar dos manos George [Francisco e o irmão gémeo João], grandes defensores da causa republicana e democrática" -, apontou os "gostos, amizades e valores" que ambos partilham. Falou da "incursão partidária que não correu bem" e que felizmente levou Francisco George a canalizar o seu "talento para a saúde pública". Ainda houve tempo no seu discurso para se referir a um dos defeitos do diretor-geral que agora se reforma. "As tuas palmadas nas costas quando cumprimentas alguém podem ser vistas pelos mais fracos como um defeito e obrigam muitas vezes a uma distância de segurança", brincou.

Condecoração e prémio

O médico tinha marcado uma sessão de "prestação de contas" na sua universidade. Acabou por se encontrar numa homenagem, em que houve música clássica, fado e música tradicional portuguesa. Também saiu do auditório condecorado pelo Presidente da República, também seu amigo de infância e colega de escola. Marcelo Rebelo de Sousa não esteve presente (cancelou a agenda para visitar os distritos mais afetados pelos incêndios), mas no discurso que enviou anunciou a atribuição a Francisco George da Grã-Cruz da Ordem de Mérito, pela sua "devoção à causa pública". Uma condecoração que o agraciado vai juntar ao Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique, que lhe foi entregue em 2006, por Jorge Sampaio - curiosamente, foi aí que se cruzou pela primeira vez com Paulo Macedo, que viria a ser seu ministro. Foi anunciado também a criação do prémio de saúde pública Francisco George, que vai distinguir investigações de jovens cientistas, na área.

Francisco George falou uma hora sobre o a sua dedicação à causa pública. Falou encostado ao palanque, num tom informal, e mostrou-se comovido. Sublinhou que o mérito do seu trabalho "também se deve à pequena equipa da DGS, sublinho o pequena, mas com grande capacidade de produção". Por isso, gostaria que em vez da sua fotografia no fundo, estivessem as caras da sua equipa.

Muitas vezes elogiado pela sua capacidade de comunicar a saúde pública, Francisco George agradeceu aos jornalistas. "É uma aliança natural entre a saúde pública e a comunicação social. Sem ela não chegamos à população."

A despedida pública foi "emocionante e um orgulho", nas palavras da filha Alexandra, a emocionada da família.

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