A Cigarrinha e A Formiga partilham a rua na venda das fardas e da retrosaria

Concorrentes e amigas têm negócios na Estrada da Luz, desde o tempo em que do outro lado era só barracas. As linhas, as fitas e os botões partilham as prateleiras com a roupa interior. Já os uniformes voltaram aos colégios

A Cigarrinha foi a primeira a abrir portas na Estrada da Luz, há 42 anos. Era uma loja de roupa de criança antes de se especializar nas fardas e bibes para colégios. Veio depois a retrosaria, a proprietária achou graça ao nome da loja da vizinha e chamou à sua A Formiga. Trabalham lado a lado e encantam mais do que cantam. Não se queixam nem do trabalho nem da freguesia, só esperam estar muitos mais anos à frente do balcão a atender as clientes, muitas das quais já são amigas.

As duas lojas ficam na rua principal do bairro, a que liga Sete Rios a Carnide. Ainda se lembram dos carris, já não do elétrico. Recordam que era tudo barracas do outro lado da estrada, onde hoje estão as Torres de Lisboa, para onde o DN veio morar há uma semana. Tudo o resto era campo até ao Estádio Universitário de Lisboa, na outra ponta da 2.ª Circular. Os primeiros clientes eram dos prédios que subiram a colina até ao Estádio da Luz, muito antes de o bairro se alargar para o Campo Grande.

"Eu e o meu irmão éramos pequenos quando a minha mãe abriu esta loja. Vendia roupa mimosa para crianças. Mais tarde, como tinha as costureiras, começou a fazer bibes, depois as fardas. Hoje é o nosso negócio, temos uns apontamentos de roupas de mulher, mais para as senhoras do bairro", conta Helena Henriques, 42 anos, assistente da TAP há 28. Tem o apoio de seis funcionárias, duas das quais estão na casa há quase 20 anos, Carla Correia de 35 anos, e Maria João Rebocho, de 50.

A Carla entrou para a empresa com 16 anos, é a gerente e o braço direito de Helena desde que os seus pais faleceram. Nem nessa altura pensou em trespassar o estabelecimento. "Corre bem, tem altos e baixos, mas é um negócio estável". Fecharam antigas casas do ramo, abriram outras, aumentou a concorrência, mas a empresa tem aumentado os clientes e os colégios que os contactam. "Há alturas em que as pessoas estão mais contidas, por exemplo, se compravam cinco camisas, uma para cada dia da semana, hoje compram duas. Mas falta sempre qualquer coisa", diz Helena. "Agora está melhor, as pessoas já estão a gastar mais dinheiro outra vez", acrescenta a Carla. E as fardas voltaram a ser usadas. "Houve um período em que se defendia o fim dos uniformes com a justificação de que não promovia a individualidade, autonomia e independência das crianças. Atualmente, há a vontade de institucionalizar o uniforme para haver uma maior igualdade, para que as crianças não estejam a comparar as roupas e os sapatos", explica Helena.

A proprietária de A Cigarrinha interrompeu a conversa com Clara Benedito, 66 anos, para contar a história da sua empresa. Veio à A Formiga comprar, no fundo são concorrentes, clientes e amigas.

Clara é mais conhecida por Clarinha, tantas vezes é assim chamada que há quem pense que esse é o nome da retrosaria. Veio de Angola após o 25 de Abril, sem trabalho e sem perspetivas de o arranjar. Acabou por se especializar em retrosarias. "Esta loja tinha sido de um cunhado e antes era de roupa de cama. Este meu cunhado tinha uma fixação por retrosarias e, como viemos de África, sem emprego e sem nada, ele foi montando retrosarias que, depois, a família ia tomava conta." Têm mais três no centro da cidade". Está a fazer 40 anos, Clara pegou na sua há 26, para ficar.

"A tendência das retrosarias é para fechar, mas eu gosto muito disto e quero ficar aqui até poder e, felizmente, não me faltam clientes. Gosto muito desta zona, temos aqui tudo, é a minha segunda casa." Uma das razões do sucesso é a adaptação aos tempos. "O negócio transformou-se, antigamente todas as mulheres cosiam. Tinha mais artigos de retrosaria, hoje compro poucas quantidades, muda tudo em seis meses, não é como antigamente em que um artigo levava anos a ser substituído. Tenho pijamas, robes, roupa interior, meias. Vou investindo mais nestas coisas e menos nos aviamentos", explica Clara. "Aviamentos" são os botões, fitas, linhas, etc. Têm ainda a parte de arranjos de roupa.

Clara diz ter clientes de todas as idades. Desde as "mocinhas de 20/30 anos - para arranjar roupa ou comprar tecidos -, passando pelas mulheres de 40/50 anos, até às que têm 60/70 - para comprar meias e roupa interior e também para falar. "Vivem sozinhas, gostam de conversar e eu gosto de as ouvir. Quem atende sabe que é assim, se formos pessoas abertas, acabamos por ser confidentes. Muitas das clientes são minhas amigas."

O DN está a publicar uma série de reportagens dedicadas à sua nova vizinhança, junto às Torres de Lisboa.

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