A camisa fica vestida

Não vais despir-te?", perguntou ela pegando na bainha da minha T-shirt com as duas mãos. O tom com que fez a pergunta não era sexy; não havia um sorriso atrevido no seu rosto nem um arrulhar doce nas suas palavras, apenas frustração.

As luzes do teto estavam apagadas, mas eu sabia que o foco de luz que vinha do candeeiro da minha secretária seria suficiente para ela ver as pálidas marcas vermelhas no meu peito, que vinham a desvanecer-se há tanto tempo que tinham voltado a ser brilhantes.

Nunca ninguém me tinha feito aquela pergunta de forma tão direta. Quando se tratava de manter a minha camisa vestida, eu tinha escapado sempre fazendo-me de desentendido ou atribuindo o facto à precipitação da paixão.

"Eu tenho cicatrizes", consegui dizer, o mais sem rodeios que pude.

Eu nasci com um problema cardíaco raro para o qual não existe cura, apenas uma série de tapa-buracos e panos quentes. Aos 15 anos já tinha passado por quatro operações de coração aberto, assim como dezenas de procedimentos menos invasivos, além de estar no meu quarto pacemaker.

Com 23 anos, já passei cerca de 20 mil horas da minha jovem vida no hospital. Durante muitos anos não era suficientemente saudável para viver fora do hospital por mais de algumas semanas de cada vez.

As cirurgias deixaram muitas cicatrizes. Uma atravessa toda a minha clavícula direita numa diagonal, é a entrada para o meu segundo pacemaker aos 12 anos, depois de a bateria do primeiro ter morrido tão de repente que a minha mãe recebeu uma mensagem do hospital que dizia: "Tem de vir cá. O dispositivo do Jameson está no modo de fim de vida."

Mais duas cicatrizes atravessam horizontalmente a minha barriga. A da esquerda foi executada de forma tão descuidada que criou uma bolsa de pele por cima. Depois, há a atração principal: uma linha de 30 cm que se estende desde as clavículas até pouco acima do umbigo.

Esta foi retalhada tantas vezes, por instrumentos cirúrgicos que lhe passaram por cima uma e outra vez como um cortador de piza, que várias zonas assumiram diferentes cores, texturas e espessuras.

A parte inferior é de um vermelho brilhante, com altos, e tem um aspeto feio. O terço superior é uma linha reta e, não tendo sido perturbada há vários anos, mais pálida do que o resto. Em pouco tempo vou poder usar um decote em V, sem que ninguém desconfie.

Mas isto não é tudo. Há também as estrias, causadas pela forma como o meu abdómen inchava com líquidos não digeridos (uma espécie de barriga de cerveja devida a falha cardíaca) que eram drenados todos os dia através de diuréticos e cateteres para fluidos.

E, depois, a cereja no topo do bolo logo acima da minha anca direita, uma caverna negra do tamanho de um dedo de quando eu tinha um tubo para esvaziar o meu estômago de resíduos.

"Isto vai fechar em cerca de um mês", disse a enfermeira no dia em que o tubo foi removido. Tal não aconteceu. "Pode demorar alguns meses." Nada ainda. "Vai acabar por fechar por si só." Nunca o fez.

Quando solto, o tubo ficava pendurado até à cintura e repuxava dolorosamente a pele no lugar de onde saía, por isso, todas as manhãs eu prendia-o à pele, numa construção elaborada de gaze e adesivo para o manter no sítio.

Eu tinha o tubo durante o meu primeiro ano de faculdade quando conheci a primeira rapariga que beijei, que se tornou depois a primeira rapariga com quem tive sexo numa base regular - mas nunca sem a camisa.

O meu primeiro beijo foi um desafio. Eu estava sentado com os amigos no chão alcatifado de um quarto do dormitório. Tínhamos estado a beber cerveja e Smirnoff Ice, e eu sentia a cabeça à roda. O meu fígado fraco e o meu coração danificado não conseguiam processar e redistribuir o sangue e os fluidos corporais corretamente, o que significa que, com certeza, não conseguiriam processar o álcool de forma eficiente.

Nem sequer pestanejei quando alguém sugeriu um jogo de Verdade ou Consequência, sabendo que quando chegasse a minha vez escolheria Verdade, como sempre. Mas não chegou a isso. Becky escolheu uma rapariga e essa rapariga escolheu Consequência. E logo o dedo esticado de Becky percorria o quarto como um radar, ordenando: "Eu mando-te beijar..."

Conforme ia passando por nós, ela retardava o movimento e fazia que o seu dedo se demorasse nas pessoas para quem apontava.

A rapariga fez uma careta quando o dedo de Becky finalmente parou em mim mas, depois, encolheu os ombros.

Eu não disse nada, encostado contra a cómoda que estava atrás de mim. Ainda pensei em mencionar que esse beijo, aos 18 anos, seria o meu primeiro, mas eu sabia que anunciá-lo seria pior do que apenas deixar acontecer.

Ela avançou de gatas e caiu para a frente, começando o beijo quase antes mesmo de chegar até mim. Os seus lábios fecharam-se em torno dos meus como uns parênteses, tocando, mas não estabelecendo uma ligação.

Passámos as semanas seguintes a encontrarmo-nos em vãos de escadas, a escondermo-nos debaixo dos lençóis, escapulindo-nos e mantendo o nosso segredo escondido dos amigos - tudo isso falando raramente, principalmente tocando-nos, sem nunca estabelecermos uma ligação.

Quando acabou (os dois sentados na borda da fonte em Washington Square Park, sem olharmos um para o outro), eu não quis admitir a mim mesmo que a sensação com que fiquei na boca do estômago foi de alívio. Alívio por a coisa não ter ido tão longe que tivesse de lhe mostrar tudo. Ela viu cerca de 10% e já foi muito. Nunca viu as cicatrizes. E sabia ainda menos sobre o que elas significavam.

Demorou muito, quase todos os meus 23 anos, para eu aprender quanto devia dizer, a quem contar, o que mostrar de mim mesmo. Aprendi a avaliar exatamente o quanto as pessoas querem saber, quanto se preocupam em saber e quanto isso é importante para elas.

Sempre que informo as pessoas sobre o meu diagnóstico, costumo ouvir uma enxurrada de perguntas e, em seguida, elas param e dizem: "Espero que não te importes que eu faça perguntas. Não temos de falar sobre isso, se tu não quiseres."

"Tudo bem", respondo. "Vamos falar sobre o assunto até tu quereres."

Não é que as pessoas percam o interesse; simplesmente chega sempre o momento em que precisamos de seguir em frente e falar normalmente sobre coisas normais, de modo a que o equilíbrio da nossa conversa seja reposto.

Mas havia algo nas minhas cicatrizes que eu sentia como precioso. Durante quase toda a minha infância eu tive um pouco de peso a mais, principalmente no estômago, e, todos os anos quando chegava o verão encontrava maneiras de ficar de camisa vestida sob o sol quente, na praia ou na piscina, nas férias ou em festas.

Dizia aos meus pais que era por causa das cicatrizes (embora eu estivesse realmente envergonhado com o peso), e depois dizia-lhes que era por causa do peso (embora estivesse realmente envergonhado com as cicatrizes).

O que se passa com o lado físico é que eu posso falar tudo o que quiser sobre o que passei, o que sentia ao crescer com uma doença crónica e não conhecer outra situação, sobre a ciência, os diagnósticos, as consultas e tudo o que pode ser medido.

Mas os cortes, os furos e as linhas desbotados que salpicam o meu corpo são o que tenho mais aproximado de uma prova daquilo por que passei. Um dia, as cicatrizes vão desaparecer. Mas é impossível reverter os cortes na pele.

E eu ganhei-os. Então, talvez uma parte de mim acredite que para alguém os ver vai ter de ganhar esse direito. Mostrá-los-ei quando souber que eles são importantes para essa pessoa. Mostrá-los-ei quando quiser que essa pessoa veja todas as minhas cicatrizes, tanto à superfície como debaixo dela.

Eu nunca me apaixonei. Estive em situações semelhantes. Já amei pessoas, mas esse amor nunca foi recíproco. Nunca tive sequer uma relação, nunca chamei minha a uma rapariga e nunca ouvi ela chamar-me seu.

Nunca encontrei alguém que se importasse o suficiente para segurar a minha mão nas salas de espera ou para ouvir sobre as piores partes de tudo, sobre todas as coisas que eu nunca cheguei a experimentar ou sobre o que me lembrava de quando entrava em assistolia.

Mas, como muitas pessoas na faixa dos 20 anos, tenho-me visto enrolado em camas com pessoas que não conheço muito bem, partilhando os nossos corpos antes de termos partilhado muitas outras coisas. Assim, enquanto estou ainda a descobrir o que vai dar, às vezes tenho de improvisar.

Como com a rapariga que ficou frustrada por eu não despir a camisa. Conheci-a no Tinder. Ela estava na cidade por um mês apenas, de visita a Nova Iorque, numa pausa da faculdade. Conversámos online durante alguns dias antes de nos encontrarmos para tomar uma bebida e acabarmos no meu apartamento.

Depois de 20 minutos de aquecimento, ela afastou-se e olhou para mim sob a luz fraca vinda do canto do meu quarto. E foi então que perguntou: "Não vais despir-te?"

Soube que ela seria capaz de ver mais do que eu estava pronto para mostrar. "Eu tenho cicatrizes."

Ela limitou-se a pestanejar.

"E então?"

Escritor e cineasta em Nova Iorque, está a escrever um livro sobre como é crescer com um problema cardíaco congénito e uma doença crónica. Exclusivo DN/The New York Times

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