"Tem-se avançado muito na compreensão do cancro"

Especialista em cancro da mama e diretor do serviço de oncologia do Hospital da Luz, José Luís Passos Coelho dá conta dos progressos recentes e do que espera do maior congresso internacional na área da oncologia, que começa amanhã em Portugal

Uma das áreas em destaque neste congresso será o cancro da mama. Quais as linhas de investigação mais recentes sobre a biologia desse tipo de cancro?

As linhas de investigação têm vários aspetos diferentes, todos eles extremamente importantes. Um tem que ver com a questão da compreensão da doença. Tradicionalmente, o diagnóstico de uma doença oncológica, nomeadamente o cancro da mama, baseia-se num exame anátomo-patológico, pedido por uma biopsia, normalmente confirmado depois numa cirurgia, e estabelece-se depois um diagnóstico. Até há 15 ou 20 anos nós tratávamos os cancros da mama de uma maneira mais ou menos uniforme, sabendo que a maioria deles tinham importante sensibilidade a tratamento hormonal, havendo um número à volta de 20% ou 30% que não tinham. Hoje conseguimos perceber que um cancro da mama são várias doenças e já as temos arrumadas em três grandes grupos: a maioria é na doença hormono-sensível; a doença em que aquilo que a determina é um aumento de um determinado número de genes (HR2), que tem um tratamento específico, e ainda um terceiro grupo que não corresponde a nenhum destes tipos, algumas vezes associado a um risco familiar. Relembro a propósito um artigo muito importante do professor Castro Caldas (que vem ao simpósio do Hospital da Luz) e de outro português, o professor Samuel Aparício, que está em Vancouver - num consórcio de investigação em que conseguiram estudar os genes deste tumores e integrá-los não nestes três grupos "clássicos", mas em cerca de dez grupos, com cursos clínicos diferentes, características e hipóteses de terapêutica diferentes.

Quer dizer que tem havido grandes progressos nos últimos anos?

Tem-se avançado muito na compreensão da doença e na sua classificação. E isso tem aberto a possibilidade de alterar as hipóteses de terapêutica. Hoje, a grande área de investigação é perceber, dentro das células tumorais, quais são os componentes que não funcionam bem. Uma célula tumoral é como se fosse uma célula normal, mas quase como uma fábrica ultrassofisticada, com múltiplas linhas de produção, cada uma delas de grande complexidade, que ainda por cima "conversam" umas com as outras, em que uma e consequentemente mais linhas de produção passam a ser anormais. Hoje, cada vez mais conhecemos essas alterações, nas linhas "doentes", e é possível criar, desenhar medicamentos como se fossem chaves que entram na fechadura que nós queremos alterar.

É possível criar essa terapêutica à medida de cada um?

Também é verdade. Mas aqui é num âmbito mais alargado. O que conseguimos é saber quais as "fechaduras" que estão "avariadas" e criar medicamentos para essas fechaduras, em sentido figurado. O que acontece hoje é que não temos um número de doentes suficiente para testar o número enorme de moléculas que estão a ser desenhadas para estas alterações. No caso do cancro da mama, ao contrário do que acontecia há dez anos, em que optávamos pela quimioterapia - que tem alvos de tratamento menos específicos, ou seja, atua em vários, e muitas vezes até independente do tipo de tumor em causa -, passámos a ter esse medicamento contra o HR2, bem como pequenas moléculas que atuam nesses alvos terapêuticos mas do lado de dentro das células, bem como uma série de outros alvos terapêuticos para os quais temos fármacos. Isto não é uma miragem. Temos feito muito caminho. Do cancro da mama, por ser o tumor maligno mais frequente nas mulheres - a probabilidade, à nascença, de uma mulher vir a ter cancro da mama é de uma em sete -, temos um grande manancial de informação. Desde há 20/30 anos, há um grupo de bioestatística, sediado em Oxford, que conseguiu que todos os investigadores que se dedicam ao tratamento curativo do cancro da mama lhe transmitissem os dados clínicos individuais de todos os doentes incluídos no ensaio de tratamento pré e pós-operatório a nível mundial. É uma base de dados enorme, onde se aprende muito.

Na linha da frente das investigações está o português Castro Caldas, que estará no congresso desta semana. O que espera da sua intervenção?

Ele é uma das pessoas que mais têm publicado artigos científicos em revistas de enorme prestígio mundial, que são sobretudo da compreensão e classificação do cancro da mama nos vários subtipos moleculares. O que lhe pedimos foi que viesse fazer uma atualização sobre a terapêutica destes resultados.

É razoável considerar hoje o cancro da mama como uma doença crónica?

Normalmente o cancro da mama é uma doença aguda, porque é curável na maioria dos doentes. E quanto mais precoce for o diagnóstico, maior é a probabilidade de cura. Nos países europeus, como o nosso, mais de 70% dos casos de cancro da mama são curáveis, com cirurgia associada muitas vezes a radioterapia e a terapêutica médica - seja hormonas e/ou quimioterapia. Só quando reincide e aparece noutras partes do corpo, e é uma doença tratável, é considerada como uma doença crónica. Ao longo dos últimos anos, a sobrevivência e a qualidade de vida dos doentes tem vindo progressivamente a aumentar.

Nota um aumento de mulheres mais jovens com cancro da mama ou não há dados que o confirmem?

Muitas vezes fazem-me essa pergunta. Eu creio que não há dados estatísticos que o suportem. O que temos é uma tendência cada vez maior entre as pessoas mais velhas, por uma razão muito simples: o cancro é uma doença do envelhecimento, o cancro da mama não é diferente, aparece predominantemente depois dos 50, e como temos cada vez maior percentagem de mulheres e homens com mais de 50, temos mais casos. No caso das mulheres jovens, põem-se outras questões, porque têm uma maior probabilidade de ser um cancro de transmissão hereditária. E se assim for, há opções preventivas, quer cirúrgicas - o caso mais mediático é o da Angelina Jolie - quer médicas que se podem fazer.

Qual é a incidência do cancro da mama nos homens?

Muito baixa. É uma doença muito rara, o que não quer dizer que não exista. Manifesta-se da mesma maneira como nas mulheres, é tratado essencialmente da mesma maneira.

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