Refrescando a memória de uma mãe com amor e histórias

É de amor que se fala nesta coluna, a mais lida do "The New York Times". Histórias verdadeiras, contadas pelos leitores. Leia-as no DN aos domingos

A minha mãe está a perder as capacidades mentais a pouco e pouco. Este facto, bem como todas as trágicas repercussões ao longo do tempo, ocupa grande parte das minhas conversas com as minhas quatro irmãs e com muitos dos meus amigos que estão a passar por problemas semelhantes com os pais deles.

Recentemente, o geriatra da minha mãe disse-me que houve um aumento significativo da demência nas pessoas com 60 anos ou mais (a minha mãe tem 81), particularmente entre as mulheres, e ninguém sabe realmente o motivo. Mais tarde, a brincar com uma das minhas irmãs, disse-lhe que, como as mulheres têm de suportar tantas injustiças ao longo da vida, talvez seja um alívio esquecer tudo.

Mas estou apenas a ser sarcástica. Esta história não é sarcástica.

Eu tenho uma grande família e, no Dia de Ação de Graças, éramos 35 pessoas sentadas à volta de várias mesas na sala de jantar da minha mãe, e nem sequer estávamos todos.

Em tempos, a minha mãe adorava receber uma multidão, desempenar o papel da anfitriã perfeita, fazer que cada convidado sentisse que a sua presença era fundamental. Atualmente, qualquer reunião que vá além das suas cinco filhas deixa-a num estado de confusão e, frequentemente, retira-se para o quarto. Durante a celebração da Ação de Graças, ela puxou-me de lado e perguntou em pânico: "Jenny, quem são estas pessoas e o que estão todas a fazer em minha casa? Sinto-me tão estranha por estar aqui com todas estas pessoas que não conheço".

Tranquilizei-a, dizendo-lhe que também sentia a mesma coisa. Na verdade, fiquei aliviada por ela se lembrar do meu nome e saber que estava na sua própria casa. Eu vivo em pânico que chegue o dia em que ela não o saiba. Voltámos para a festa, e eu, tal como uma assessora de um político, fiz aquilo em que me tornei perita: dava-lhe pistas subtis sobre a pessoa com quem ela estava a falar, o sítio onde se encontrava, o dia, o mês, o ano, etc. Por vezes, também perdia a paciência com ela, confiando na probabilidade elevada de que ela não se recordasse desses momentos.

A minha mãe, por sua vez, é brilhante a fingir. Depois de uma vida inteira a fingir de todas as maneiras possíveis como uma forma de resiliência, ela continua uma especialista, compensando a sua perda de memória com habilidade e graça. O facto de o meu pai de 85 anos e o irmão dele de 92 anos, com os seus cérebros aguçados, estarem na mesa de Ação de Graças rodeados das suas mulheres atuais e das suas ex-mulheres dizia muito sobre a perícia que as mulheres desenvolveram para acomodar os homens e, sem dúvida, o patriarcado.

A minha mãe foi uma mãe tradicional que ficava em casa, costurava as roupas das filhas e supervisionava todos os assuntos domésticos, embora abrigasse um desejo secreto de ser escritora. Como tantas mulheres da sua geração, em vez de perseguir o seu sonho, ela casou-se com ele. Embora o meu pai trabalhasse numa companhia de navegação, as suas ambições literárias eram prioritárias e ele tornou-se um escritor profissional.

Depois de os meus pais se separarem, em 1969 - tinha eu 7 anos -, a minha mãe começou um negócio próspero como fotógrafa de retratos e de casamentos. (Ela disse--me recentemente que, embora nunca tivesse escolhido divorciar--se, estava feliz porque de outra forma nunca teria sido forçada a descobrir o que era capaz de fazer.)

Após o divórcio, a minha mãe tornou-se ativa na filial local da Organização Nacional de Mulheres, foi cofundadora de uma associação de escritores dedicada a analisar os papéis de género nos meios de comunicação infantis e foi coeditora de dois livros importantes sobre estereótipos sexuais em livros infantis e no horário nobre da televisão: Dick and Jane as Victims [Dick e Jane como Vítimas] e Channeling Children [Direcionando as Crianças].

Durante a minha infância, era ela quem sustentava a família, a mãe que trabalhava; o seu segundo marido era um pai que ficava em casa e que trouxe os seus cinco filhos para a família. Na época, a situação doméstica era tão incomum que a revista People publicou um artigo sobre a nossa família. Com o meu padrasto, ela teve uma quinta filha, Joan, 11 anos mais nova do que eu.

Enquanto crescíamos, a nossa mãe irradiava ambição, capacidade e força. Mas acima de tudo ela irradiava amor por nós, acabando por nos empurrar para o mundo para brilharmos por conta própria.

E agora, as minhas quatro irmãs e eu estamos aterrorizadas com a perspetiva da chegada do momento em que a nossa mãe não nos vai reconhecer e, tal como acontece com a inevitabilidade da chegada do assassino num filme de terror, sabemos que esse dia está próximo. Três dias depois do Dia de Ação de Graças, ele chegou para a minha irmã Joan.

A nossa mãe tinha ido jantar com Joan e os sogros desta em Brooklyn. Elas estavam sentadas à mesa, uma ao lado da outra, rodeadas pelos restantes membros da família quando a mãe se virou para Joan e disse: "Então, recorde-me lá como nos conhecemos?"

Surpreendida, Joan respondeu: "Mãe, eu sou sua filha."

"Bem, então porque não fui eu que te criei?", perguntou ela hesitantemente.

"Mas foi a mãe que me criou." Sem saber o que fazer, Joan desculpou-se dizendo: "Deixe-me ir buscar-lhe um copo de água." Joan tinha esperança de que o lapso da mãe talvez tivesse sido causado por demasiado vinho e pouca água.

Muitas vezes, as minhas irmãs e eu consolávamo-nos com o pensamento de que a nossa mãe, nas circunstâncias certas - sem álcool, com uma hidratação adequada, muito sono e um ambiente familiar -, estava bem e com a memória quase intacta. Durante o feriado de Ação de Graças, pensou Joan, a mãe tinha ficado muito cansada por ter muita família junta e durante muitos dias.

Joan levantou-se da mesa e entrou na cozinha a chorar. A mãe foi atrás dela. Joan não queria que a mãe visse como ela estava perturbada e foi para um quarto. A nossa mãe seguiu-a.

"Não chores, por favor", pediu a mãe quando ficaram sozinhas. "Estás a chorar porque achas que eu não te amo?"

"Não," respondeu Joan, "eu sei que a mãe me ama".

"Estás a chorar por mim?", perguntou a mãe.

Joan não disse nada.

A nossa mãe pegou na mão de Joan e segurou-a firmemente. "Isto sou eu a ficar velha", disse ela. "Não é fácil nem agradável. Mas se eu consigo passar por isto, tu também consegues. Por favor, fica com a certeza de que eu te amo. E prepara-te, porque esta é quem eu sou agora."

Joan soluçou, ainda de mão dada com a nossa mãe.

"Não é que eu não te ame", disse a mãe. "Eu amo-te incondicionalmente. Apenas escapaste da minha memória. Estas coisas acontecem. E esta coisa vai acontecer uma e outra vez, mas eu amo-te. Amo-te muito."

As lágrimas de Joan caíam-lhe pelo rosto em catadupas. Sentia-se horrivelmente por fazer que a nossa mãe se preocupasse, por fazê-la sentir-se envergonhada do cérebro que lhe falhava. "Eu sei que a mãe me ama", disse ela.

"Querida, neste momento eu não sei o teu nome, mas tens de acreditar que eu sempre saberei exatamente quem tu és. Faz uma coisa por mim: conta-me tudo. Eu quero saber todos os pormenores - onde nasceste, onde fizeste a escola e a faculdade, a tua profissão, se és casada. Tens filhos? Vamos voltar para a mesa e vais-te sentar ao meu lado e contar-me tudo."

Desde que Joan me contou esta história que o desgosto dela é também o meu, mas porque não aconteceu comigo diretamente, a pergunta que me atormenta é como a de um sobrevivente: Porquê Joan? Porque não eu?

As minhas irmãs e eu somos tão próximas que nos apoiamos umas às outras quase diariamente. Atribuo este dom da unidade à minha mãe. Então porquê Joan? Há explicações racionais, como o facto de Joan viver em Los Angeles ou de - em termos de memória - ela ter sido a última e, portanto, a primeira a se desvanecer. Mas nenhuma delas me satisfaz.

A nossa mãe sempre teve um amor especial por Joan, não maior, apenas diferente. Talvez por ela ser a mais nova, a única filha daqueles dois pais e, como tal, em certo sentido, uma filha única, embora tenha nove irmãos. Talvez seja por ela ter sido, e ainda ser, uma ponte entre as duas famílias. Ou porque, quando criança, ela era muito séria e sempre um pouco adoentada. Ou porque o pai de Joan, quem tomava mais conta dela, morreu enquanto ela ainda estava na faculdade.

A nossa mãe sempre foi muito protetora de todas nós, mas um pouco mais de Joan. Atribuo ao seu amor especial por Joan o facto de a mãe ter conseguido construir uma personalidade mágica e mística para Joan naquele momento tão difícil para ambas, o ter conseguido falar aquelas coisas e, apesar das falhas de memória, ter sido capaz de cavar fundo e reencontrar o seu brilho característico.

Naquela noite, em Brooklyn, Joan fez o que a mãe pediu e contou-lhe a história da sua vida.

A nossa mãe poderia ter esquecido qualquer uma de nós e, um dia, é certo que isso acontecerá. Mas a sua metalucidez no meio da terrível confusão, impulsionada por um amor poderoso, mostrou--nos um caminho a seguir. Ela confirmou-nos o poder extraordinário do amor de uma mãe, como se esse amor fosse uma força, tal como a gravidade, que governa quem somos e como nos comportamos como seres humanos durante a nossa órbita na terra.

Jenny McPhee é romancista e tradutora. A sua nova tradução de Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg, será publicada em abril.

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