Vigília frente ao parlamento exige inquérito às adoções ilegais ligadas à IURD

No Porto realizou-se uma iniciativa semelhante

Cerca de duas centenas de pessoas juntaram-se em frente à Assembleia da República para exigir a criação de "uma comissão parlamentar de inquérito, isenta" sobre os casos de adoções ilegais envolvendo a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

Ana Piedade, do Movimento da Verdade, que organizou a vigília, disse à agência Lusa, que este movimento que recolheu até ao início da manhã de hoje 3.000 assinaturas "online", quer "a criação de uma comissão parlamentar de inquérito, isenta, para investigar estas adoções a fundo".

Ana Piedade afirmou que há inquéritos internos a decorrer na Segurança Social e na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mas o que exigem "é uma comissão independente, com especialistas, uma equipa multidisciplinar, que analise estas situações e apure responsabilidades".

O advogado Garcia Pereira, que participou na vigília, nesta questão das adoções ilegais que envolveram elementos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), "o Estado falhou em toda a linha", e defendeu que "a verdade não prescreve".

O causídico, em declarações à Lusa, manifestou dúvidas se os crimes prescreveram.

"Eu não dou por assente que tenha havido prescrição de procedimentos criminais, porque a lógica na prescrição criminar é que nos crimes continuados é que esse prazo apenas se inicia no último ato que tenha sido praticado", argumentou.

"Se estivermos perante condutas continuadas no tempo, esse caso está sempre em aberto", prosseguiu o advogado, para quem "a descoberta da verdade é um dever ético, muito mais que jurídico".

Garcia Pereira afirmou que "há a responsabilidade de averiguar como essas coisas foram possíveis".

"Como é que documentos completamente falsos puderam funcionar como bases de decisões judiciais, como é que temos tribunais que proferem decisões que transitam em julgado e não são executadas, e podem obter-se decisões contraditórias como essas. Como são elaborados os relatórios pela Segurança Social, como é que o Estado envia crianças para um estabelecimento, que está em condições de total ilegalidade, durante sete anos", questiona.

"Está tudo mal nessa matéria", considera Garcia Pereira.

A questão está errada desde o início, defende o advogado, acrescentando: "como é que, assim que os pais e as mães, assim que têm dificuldades na educação e sustento dos filhos, em vez de os apoiar, a primeira ideia é retirá-los aos seus e às suas mães. Isso é completamente errado".

O advogado considera que o Estado "falhou ao longo de anos a fio, e em muitos serviços, desde os tribunais á Segurança Social".

"Acho muito importante que os cidadãos se mobilizem para exigir que isto seja averiguado até ao fim, porque a verdade não prescreve, e é imperioso evitar que coisas destas se posam repetir, além de que tirar filhos a uma mãe provoca danos que são absolutamente irreparáveis", disse.

Para Garcia Pereira, uma comissão parlamentar, apenas composta por deputados é "incapaz" de proceder a uma investigação, considerando "indispensável" a participação de cidadãos comuns, como os que se reuniram hoje frente ao parlamento, e que deve investigar "até ao fim, doa a quem doer".

No Porto realizou-se uma iniciativa semelhante.

A TVI exibiu uma série de reportagens denominada "O Segredo dos Deuses", na qual noticiou que a IURD esteve alegadamente relacionada com o rapto e tráfico de crianças nascidas em Portugal.

Os supostos crimes terão acontecido na década de 1990, com crianças levadas de um lar em Lisboa, que teria alimentado um esquema de adoções ilegais em benefício de famílias ligadas à IURD que moravam no Brasil e nos Estados Unidos.

A IURD já refutou as acusações de rapto e de um esquema de adoção ilegal de crianças portuguesas e considera-as fruto de "uma campanha difamatória e mentirosa".

Segundo informações avançadas pela TVI, a IURD tem atualmente nove milhões de fiéis, espalhados por 182 países, 320 bispos e cerca de 14 mil pastores.

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