Vacina da BCG deixa de ser dada a todas as crianças

Portugal reduziu a taxa de incidência da tuberculose e cumpriu as metas da Organização Mundial da Saúde para mudar a vacinação

Só as crianças que pertencem a grupos de risco vão passar a receber a vacina da BCG, que é dada à nascença para proteger da tuberculose. Uma mudança que acontece porque Portugal conseguiu reduzir a taxa da doença, agora abaixo das 20 pessoas por 100 mil habitantes. Mas não é a única que o Programa Nacional de Vacinação (PNV) vai ter: as crianças com problemas graves de saúde vão ter direito, de forma gratuita, à vacina de meningite B, a vacina da tosse convulsa passa a ser recomendada às grávidas e do vírus do papiloma humano (que provoca cancro do colo do útero) vai ser antecipada para os dez anos e terá mais proteção a outros tipos do vírus HPV.

É uma das principais mudanças a ser anunciada segunda-feira, quando o novo Programa Nacional de Vacinação, que entra em vigor a 1 de janeiro de 2017, for apresentado. A vacina da BCG já não será para todas as crianças. "Estamos no momento histórico de fazer a transição da vacinação universal para a de grupos de risco. A doença hoje nada a ver com o passado e cumprimos os requisitos que a Organização Mundial da Saúde considera necessários para a transição", diz ao DN a subdiretora-geral da Saúde.

As alterações começaram a ser avaliadas em 2013. A decisão final - aceite pelo Ministério da Saúde - foi tomada depois de ouvidas mais de 50 entidades e especialistas, desde pediatras a pneumologistas. Os dados provisórios relativos ao ano passado apontam para 2089 casos de tuberculose, dos quais 1925 são novos casos, com uma taxa de notificação de 18,6%, a mais baixa de sempre. "A vacina não fez mais do que acompanhar a evolução da doença", acrescenta Graça Freitas, explicando quem são as crianças consideradas grupo de risco: "Estarem incluídos em família com risco acrescido [por exemplo com casos de tuberculose] ou a viver em comunidades com taxa de incidência superiores ao resto do País. Existem polos muito bem identificados. São Lisboa, Setúbal e Porto".

O acompanhamento e deteção das crianças a vacinar será feita pela rede de vigilância e de vacinação dos centros de saúde. Graça Freitas assegura que a mudança nada teve a ver com as inúmeras falhas de BCG sentidas sobretudo no último ano, que obrigou a uma mudar de laboratório. "A partir deste ano zero sabermos quantas serão. Para precaver, comprámos vacinas suficientes para quase todas as crianças nascidas. Temos 64 mil doses a serem colocadas nos centros de saúde. Temos canal aberto para o Japão se precisássemos de mais doses. A mudança é uma decisão técnica, não tem nada a ver com as vacinas."

Meningite B gratuita

Outra alteração e esta não espera por 2017. A vacina da meningite B, para proteção do meningococo que pode provocar sequelas neurológicas, perda de audição ou alterações cognitivas, vai ser dada gratuitamente já este ano a crianças de risco. "Vamos adquirir a vacina através do SNS e vai estar disponível nos serviços de pediatria ou centros de saúde. Tem de haver uma prescrição do pediatra, que pode ou não ser do SNS. É uma medida de exceção para crianças podem ter uma meningite mais grave. São crianças sem baço ou que não funciona, com défice do complemento ou com terapêutica com inibidores do complemento", explica Graça Freitas. Mantém-se em estudo a possibilidade de a vacina poder vir a integrar o PNV.

Dentro de dias sairá também uma recomendação para que as grávidas, a partir das 20 semanas de gestação, façam a vacina da tosse convulsa. "A estratégia que parece ser melhor para proteger as crianças nos dois primeiros meses de vida, até terem tempo de fazer a vacina da tosse convulsa, será vacinar grávidas. Através da placenta há passagem de anticorpos da mãe para a criança. É segura, com agentes inativados e não tem riscos para a grávida. Até entrar no PNV, a 1 de janeiro, implica uma prescrição e terá de ser comprada pela mãe. É só uma dose e não é cara", salienta.

No caso da vacina contra o HPV, que protege contra o cancro do colo do útero, também se preparam novidades. A partir de janeiro haverá uma vacina nova com maior proteção e a idade recomendada é fixada nos dez anos. "Usamos uma vacina tetravalente [com quatro tipos de vírus] que cobre cerca de 75% dos casos de cancro do colo do útero. Entretanto a indústria fez uma vacina com nove tipos de vírus que dá uma cobertura de mais 20% em relação ao cancro. Teremos uma nova vacina e instituímos uma idade mais restrita para a toma, aos dez anos, quando faz mais efeito, em vez de ser entre os dez e os 13 anos."

O PNV custa por ano cerca de 30 milhões de euros. Com as alterações será mais caro. "O objetivo é ter um PNV melhor e o benefício é superior aos custos", diz Graça Freitas.

4 mudanças no plano nacional de vacinação

Vírus Papiloma Humano: Entrou no PNV em 2008, acompanhada de uma campanha entre 2009 e 2011 que vacinou as raparigas com 13, 14 e 15 anos. Começou por ser em três doses, atualmente bastam duas para garantir proteção contra os principais casos de cancro do colo do útero. Vai ser dada aos dez anos de idade.

Meningite B: Está a ser estudada a sua integração no PNV. Como medida excecional o SNS vai garantir que as crianças com problemas no baço (protetor de células que defendem o sistema imunitário) a recebem gratuitamente perante prescrição de um pediatra. Fora do PNV cada dose custa cerca de 99 euros.

Tétano: Também aqui haverá alterações. "Há provas que a vacina contra o tétano é muito boa e os intervalos de vacinação de dez em dez anos passam a fazer-se de 20 anos. Primeira dose aos 10 anos, depois aos 25 anos, depois 45 e depois 65 anos. Depois dos 65 anos voltam aos 10 em 10 anos", diz Graça Freitas.

Vacina seis em um: A vacina pentavalente que previne a difteria, o tétano, a tosse convulsa, as doenças causadas por Haemophilus influenzae do serotipo b e a poliomielite vai passar a seis em um: vai ter incluída a vacina da hepatite B, que era dada à parte. Permite maior conforto adesão. É dada aos dois e seis meses.

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