'Lixeira' a céu aberto põe saúde pública em risco

O parque do Vale do Forno, em Carnide, Lisboa, é utilizado pelas autoridades como depósito de centenas de viaturas apreendidas que ali ficam durante anos ao abandono, podendo contaminar os solos e contribuindo para a proliferação de roedores.

O Tribunal de Benavente condenou em outubro o Estado a pagar 177 mil euros a um stand de automóveis por devolver em completo estado de degradação 56 viaturas apreendidas num processo judicial e que estiveram abandonadas no parque "no meio de erva de cerca de um metro de altura" e a ganhar "ninhos de rato nos motores" entre julho de 2008 e agosto de 2010.

Passados mais de quatro anos, a agência Lusa constatou que o cenário se mantém. No local, com alguns hectares, delimitados por um muro, permanecem centenas de viaturas ali colocadas pela PSP, muitas em avançado estado de degradação, rodeadas por autênticos esqueletos de ferro e vegetação selvagem.

"Acaba por ser uma lixeira a céu aberto. É um foco de insalubridade onde proliferam insetos e roedores, representando claros riscos para a saúde pública, uma vez que são responsáveis pela transmissão de doenças, podendo mesmo provocar a morte", alertou hoje o presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Saúde Pública.

Mário Jorge Santos chamou igualmente a atenção para o problema de escorrerem óleos, combustíveis e ácidos das baterias para os solos. Nos terrenos são visíveis canas, sinal de que passa água a baixa profundidade.

"Esses líquidos podem misturar-se com os cursos de água, os quais poderão servir para consumo humano ou para rega. Com a contaminação da terra e das hortas as pessoas acabam por ingerir produtos contaminados com metais pesados ou outros. É uma situação que merece um estudo", defendeu o responsável.

A Quercus partilha das mesmas preocupações e alerta para o risco ambiental.

"Estas viaturas estão há anos à chuva, com roedores e degradadas, o que leva os óleos, os ácidos e outros líquidos a infiltrarem-se na terra e a gerar a contaminação dos solos. O óleo é um poluente perigoso, que torna a descontaminação dos solos difícil", afirmou Rui Berkemeier, dirigente da associação ambiental.

O presidente da Junta de Freguesia Carnide referiu que o parque, situado numa das entradas da capital, "não dignifica a cidade nem a freguesia". Paulo Quaresma adiantou que nas proximidades existem hortas com alguns poços, alertando para o risco de contaminação.

Numa resposta escrita enviada à Lusa, o Ministério da Administração Interna (MAI) esclarece que os quatro parques existentes em Lisboa servem "prioritariamente" para recolher temporariamente os veículos removidos da via pública e não à recolha e preservação de veículos apreendidos por ordem dos tribunais.

Sobre as condições do parque do Vale do Forno, em terra batida e sem cobertura, à semelhança do de Telheiras, o MAI declina responsabilidades.

"A câmara é a proprietária dos referidos espaços, estando à sua responsabilidade a manutenção dos mesmos. " PSP cabe a responsabilidade de proteção e de vigilância dos espaços e dos bens neles depositados", clarifica.

Opinião diferente tem o vereador com o pelouro do Ambiente do município lisboeta.

"Não são as ervas que derramam os óleos. Quem tem de guardar e tratar dos carros não é a câmara, mas sim quem os põe lá. Com aquilo tudo ocupado, com viaturas em cima umas das outras, como querem que se faça a manutenção? O problema desse parque são os carros e não os roedores", afirmou Sá Fernandes, acrescentando que essas pragas "estão controladas" na capital.

Contudo, o vereador assume que está preocupado com o parque municipal do Vale do Forno "há muito tempo".

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