Sócrates lamenta que investimento público já não seja prioritário

Ex-primeiro-ministro foi o centro das atenções na inauguração que Costa equiparou à da Ponte sobre o Tejo, há 50 anos

"Quero, na pessoa do senhor engenheiro José Sócrates, cumprimentar e saudar todos aqueles que desde 2007 até hoje contribuíram para que esta obra tenha sido concluída."
Foi assim que António Costa iniciou ontem o seu discurso na inauguração do túnel do Marão, obra de 5,7 quilómetros e 400 milhões de euros com que se torna finalmente possível a ligação por autoestrada (A4) entre o Porto e Bragança, diminuindo o tempo de viagem entre as duas cidades em cerca de 20% (45 minutos).
Também o presidente da Câmara de Vila Real, Rui Santos, do PS, iniciou o seu discurso com um agradecimento ao ex-primeiro--ministro e ex-líder do PS: "Obrigado, José Sócrates, por ter, contra muitas opiniões, avançado há sete anos para a construção deste que hoje inauguramos."
Sócrates - que ontem pela primeira aceitou um convite do atual governo para uma cerimónia oficial - foi a estrela principal do evento, ao qual assistiram cerca de cem outras personalidades, de presidentes de câmara a deputados.
Dizendo que o convite que recebeu foi um sinal de "decência e da grandeza democrática", o antigo primeiro-ministro disse que a conclusão da obra terá como consequência "o reencontro do país consigo próprio", quebrando o isolamento de Trás-os-Montes face ao resto do país. Falando aos jornalistas, criticou a classe política no seu todo por ter deixado de ter "coragem" para pronunciar "duas palavrinhas muito importantes: investimento público". Para fazer crescer a economia, "o investimento privado não chega", garantiu.
Ao discursar, António Costa sublinhou que o túnel irá fazer que o PIB de Trás-os-Montes convirja com o do resto da região norte. Realçou a importância da obra, comparando-a mesmo com a inauguração em 1966 da Ponte sobre o Tejo em Lisboa: "Nenhuma outra infraestrutura tinha sido tão relevante para vencer a barreira natural. Há 50 anos o Tejo, hoje o Marão. Vencer esta barreira do Marão tem um profundo significado."
Ao mesmo tempo, sublinhou que o combate ao abandono do interior não passa só por obras públicas. "É cada vez mais importante devolvermos às regiões o poder para definir a sua própria estratégia de desenvolvimento", frisou. E isso implica dar "um novo impulso à descentralização" para as autarquias locais e com "a democratização das CCDR [Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional]".
Rui Santos, pelo seu lado, garantiu que os efeitos na criação de emprego já se fazem sentir. "Mais de cem postos de trabalho foram criados por uma empresa e temos pedidos para instalação de outras empresas que querem investir. Finalmente a capital transmontana faz parte integrante do mapa de Portugal", concluiu o presidente da Câmara de Vila Real.
Um dos presentes na cerimónia foi Alípio Lopes, durante anos presidente da Junta de Freguesia de Alijó, que disse ao DN que foi à inauguração para cumprimentar o seu "amigo Sócrates". "Foi o governante que mais contribuiu para o desenvolvimento da Trás-os-Montes. Tenho muito orgulho nele, pois além de conterrâneo é um amigo. Ele desbravou Trás-os-Montes, ao contrário de outros que se dizem transmontanos, como o antigo primeiro-ministro Passos Coelho, que nem sequer se dignou estar presente nesta cerimónia - ele sabe o mal que fez aos transmontanos."
Ouvido pelo DN sobre a ausência de Passos, Sócrates disse que "que fica muito mal a um ex-primeiro-ministro declinar o convite para a inauguração de uma obra que contribui para o desenvolvimento". Noutras declarações, diria que Passos "tarda em compreender o simbolismo desta obra" porque "isto é mais do que uma obra pública, é mais do que um túnel, isto é um reencontro do país consigo próprio e com uma identidade regional que há muito tempo estava afastada do desenvolvimento".
O túnel terá portagens entre os 1,9 e os quatro euros, o que "até nem está caro", como disse ao DN Jorge Caetano, um empresário dos transportes da região.
À tarde o túnel foi das entidades oficiais mas durante a manhã pertenceu aos populares, através de caminhadas e provas de marcha e atletismo. João Marcolino foi um deles e estava feliz: "Trabalhei nesta obra desde o seu início e estou feliz pela sua conclusão e agradeço especialmente ao Eng.º Sócrates, por quem tenho um carinho especial. Eles bem querem tramá-lo. Mas se ele for a julgamento pelo que o acusam vão ser todos comidos de cebolada, vão ver."
Concluir a A4 representará também, segundo todas as expectativas, uma descida muito acentuada da sinistralidades rodoviária. Sócrates falou aliás disso: "Além do mais, o túnel salva vidas" (em 2005 morriam em médias 22 pessoas por ano nas ligações Amarante-Bragança e doravante espera-se que essa média desça a zero).

300 milhões em investimentos

Na cerimónia, o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, anunciou investimentos de mais de 300 milhões de euros nos distritos de Vila Real e Bragança. "Estamos a contratualizar os planos de desenvolvimento urbano para toda a região norte, em particular da região de Trás-os-Montes e Alto Douro, de cerca de 160 milhões de euros", disse, acrescentando depois uma referência a "investimentos importantes com as comunidades intermunicipais dos dois distritos, de Vila Real e de Bragança, de mais de 170 milhões de euros".

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