Só existem nove oncologistas para o Algarve e Alentejo

Nas duas regiões mais a sul do país existem mais de 13 especialidades sem médico. Como a cirurgia vascular. Ministério quer captar clínicos para reforçar ou criar novos serviços

Os hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) do Alentejo só têm três oncologistas e os do Algarve seis. As duas regiões no conjunto têm uma população residente a rondar um milhão. E não é a única especialidade em falta nas duas regiões: há apenas cinco neurocirurgiões, um cirurgião pediátrico e um endrocrinologista e zero cirurgiões vasculares. O retrato é publicado pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e excluiu clínicos contratados através de empresas. O Ministério da Saúde explica que estão a tentar captar médicos para reforçar ou criar serviços para oferecer mais especialidades à população. Das 736 vagas carenciadas, lançadas em julho, 550 já têm clínicos admitidos.
De acordo com o documento "SNS Recursos Humanos", os hospitais públicos têm nos quadros 26 504 médicos, dos quais cerca de nove mil são internos. O Alentejo (com meio milhão de residentes) e o Algarve (com cerca de 450 mil) são as duas zonas com menos profissionais, mesmo quando a comparação é a distribuição por 100 mil habitantes. E isso tem espelho no número de especialistas em algumas áreas.
Caso da oncologia - os hospitais do SNS têm apenas 135 contratados em todo o país -, mas também da anestesiologia (24 para o Alentejo e 20 para o Algarve quando a região norte tem 440), ortopedia ( 20 no Alentejo e 15 no Algarve) ou ginecologia/obstetrícia ( 18 no Alentejo e 26 no Algarve). Mas há especialidades em que não existe sequer um médico em qualquer das duas regiões. São exemplos cardiologia pediátrica, cirurgia cardiotorácica, cirurgia maxilofacial, cirurgia vascular ou medicina nuclear. No total são 13 especialidades no Alentejo e 11 no Algarve nesta situação.

Se em vários casos, explica o Ministério da Saúde ao DN, há "especialidades não têm médicos porque no âmbito das Redes de Referenciação - há várias em revisão atualmente - não se prevê que existam nestes hospitais", outros há em que "a tentativa de captar médicos para estes hospitais tem como objetivo criar ou reforçar os serviços que lá existem". "Nestas regiões existem hospitais centrais que deveriam oferecer mais especialidades do que as que atualmente oferecem", admite o ministério.

Em julho, foram lançadas 736 vagas para especialidades consideradas carenciadas em vários hospitais do país. Alentejo e Algarve foram contemplados com quatro vagas para oncologia , mas também é percetível a intenção de reforçar especialidades com muita falta nas duas regiões: anestesia, medicina interna, psiquiatria, ginecologia/obstretícia, ortopedia. E há ainda o objetivo de criar resposta em áreas que não têm nenhum médico: duas vagas para o hospital de Évora e o mesmo número para o Centro Hospitalar do Algarve em cirurgia vascular, um endocrinologista em Évora e ter dois neurocirurgiões na mesma unidade.

Os concursos ainda estão a decorrer mas em 38 das 41 especialidades já há lista de médicos admitidos. No total, 550 que terão agora de escolher o local onde querem ficar a trabalhar e aceitar ou não as vagas disponíveis. "Relativamente às três especialidades em falta - cirurgia plástica e reconstrutiva, cirurgia maxilofacial e cirurgia vascular - aguarda-se pela realização da reunião do júri, agendada para os próximos dias", diz o ministério.

Incentivos ainda em estudo

Jaime Mendes, presidente da secção sul da Ordem dos Médicos, diz que a situação nas duas regiões "é gritante" e prepara visitas em setembro para fazer um levantamento das situações. "Para estas duas regiões penso que têm de se dar incentivos para fixar os médicos. Há profissionais que ficam a trabalhar por empresas, onde ganham mais dinheiro, ou vão para o estrangeiro e para o privado. É preciso uma política diferente. Foram quatro anos a destruir o SNS e será complicado recuperar. E não se vê o sentido que está a ser dado pelo Ministério."

"Todos os anos existem problemas nas urgências e serviços sem capacidade de resposta e parece que ninguém consegue resolver. Isto passa por os nossos governantes dizerem o que querem", diz Miguel Guimarães, presidente da Secção Norte da Ordem dos Médicos, apontando problemas futuros.

"Nas zonas carenciadas vemos problemas de formação porque os serviços perdem especialistas e com isso torna-se mais difícil ter médicos nessas zonas. Tem de se ter coragem para definir as zonas carenciadas, quais as necessidades das populações e de recursos humanos. Tem de ser criada uma verdadeira política de incentivos para a sociedade civil. Só assim é possível criar massa crítica para fixar as pessoas. É preciso um pacto entre os partidos políticos e as instituições ligadas à saúde para resolver a sério a questão. E é preciso com urgência", aponta o responsável, sugerindo horários adaptados ou benefícios fiscais como solução.

Os incentivos para fixar médicos anunciados pelo ministro Adalberto Campos Fernandes ainda não estão fechados. Deverão passar por incentivos à carreira, como progressão mais rápida. A proposta estará terminada nos próximos meses.

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