SNS quer doentes a elaborar o seu próprio plano de saúde

Ministério da Saúde pretender criar um sistema mais eficiente. Para isso, quer utentes mais informados e capazes de tomar decisões que permitam controlar melhor a doença

Um Serviço Nacional de Saúde (SNS) mais centrado no doente a ponto de ser este a elaborar o seu próprio plano de saúde é um dos conceitos que estão a ser desenvolvidos pelo grupo de trabalho criado pelo Ministério da Saúde para as reformas de proximidade, coordenado pelo ex-diretor da Escola Nacional de Saúde Pública Constantino Sakellarides, e que será apresentado e debatido numa conferência nos dias 18 e 19. O objetivo é simples: tornar o SNS mais eficiente e acessível, com utentes mais informados e responsáveis, capazes de controlar e melhorar a sua saúde.

Mas para isso é necessário apostar em três áreas: mais informação, estando para isso prevista a criação de uma biblioteca virtual, depois uma melhor gestão de percursos, ou seja, dotar profissionais e doentes com ferramentas próprias para que todos possam saber onde são tratados, por quem, como ou o que pretendem melhorar, etc., finalmente a requalificação dos espaços de atendimento, tornando-os afáveis e decentes. No final, o Ministério da Saúde espera que os resultados alcançados se traduzam em menos gastos, com a redução de exames e medicação desnecessária. Esta mudança, que assenta num conceito que já está a ser desenvolvido noutros países, como no Reino Unido, poderá levar dez anos a ficar concluída e começará a ser testada com os médicos de família e com alguns dos seus utentes.

Segundo explicou ao DN Constantino Sakellarides, a biblioteca virtual que ficará disponível no Portal do SNS pretende dar aos utentes a informação necessária para que evitem situações de risco e sejam capazes de tomar decisões partilhadas com o médico. Os primeiros conteúdos para consulta vão ficar disponíveis dentro de duas semanas. Dentro de seis meses esperam ter uma nova plataforma capaz de enviar informação às escolas, aos centros de saúde, aos hospitais e às associações de doentes. "Estamos a colocar informação associada ao bem-estar das pessoas. Temos de ter conhecimentos específicos para os momentos críticos com que nos deparamos ao longo da vida. Haverá informação sobre alimentação saudável, gravidez, testamento vital, bullying, prevenção de quedas. Damos informação que vai favorecer a tomada de decisões. É aqui que esta se junta à gestão de percursos."

O que existe agora são normas para tratar cada doença. Mas uma pessoa pode ter várias. Foi por isso que o sistema de saúde inglês criou uma norma de como tratar estes doentes, que passa por fazer planos individualizados de cuidados, e é isso que está a ser discutido em Portugal. Quem é o principal gestor do percurso do utente? "O próprio, que precisa de um cogestor que o ajude a percorrer o SNS. Será o profissional de saúde com quem mais contacta, o médico ou o enfermeiro de família. A lógica é assegurar que todos os que tratam o doente o fazem com profundo conhecimento dos seus antecedentes. Isso só é possível com um plano que é feito entre o doente e o contacto habitual."

E o que é este plano? Será um compromisso em que constará a história de doença da pessoa e ao mesmo tempo os objetivos a que se propõe alcançar para controlar e melhorar a sua saúde. Pode passar pelas queixas constantes, pelas principais preocupações, pelas doenças diagnosticadas, pela redução do colesterol ou da diabetes, não aumentar de peso, etc. Com o médico ou cogestor (o contacto habitual no SNS), o doente definirá um número limitado de compromissos, o que deverá fazer para atingir resultados e em que prazo. Sempre que outro médico tiver de alterar o plano, porque uma das doenças piorou, o cogestor saberá que isso aconteceu. Tal como saberá as ineficiências do sistema: se por exemplo um exame não for feito dentro do prazo, irá surgir um alerta. "Estamos a criar uma plataforma informática e até ao final do ano ter os primeiros planos estabelecidos. As primeiras experiências serão feitas com médicos e utentes voluntários", adianta. Os primeiros a beneficiar serão os utentes com várias doenças, que vão mais ao médico, os que têm mais dificuldades económicas.

O último passo desta mudança é a qualificação dos espaços de atendimento: "Há espaços que são inaceitáveis e grande parte das vezes não é preciso um grande investimento para terem um aspeto decente", justifica Constantino Sakellarides. A juntar a isto há o aspeto relacional. Por isso, vão ser desenvolvidas ações de formação para que os profissionais percebam o papel que têm. "Iremos ver se os espaços foram pensados para passar conhecimento. Há informação que pode passar nas televisões da sala de espera. O que volta ao primeiro ponto: dar informação aos utentes", aponta.

É trabalho para uma década para o grupo consultivo para esta reforma integrado também por Luís Campos, Rui Santana, Humberto Martins, José Luís Biscaia e Manuel Lopes.

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