Sem financiamento transportes públicos vão "desaparecer"

Segundo a Associação Nacional de Transportadores Rodoviários de Pesados de Passageiros, o transporte público tem sido penalizado por "décadas instabilidade legislativa e confusão institucional"

A Associação de Transportadores Rodoviários de Passageiros (ANTROP) alertou hoje que o negócio do transporte público "vai desaparecer" se não houver "coragem para assumir uma rutura" através da diferenciação positiva e do financiamento do sistema.

"Nesta altura de mudança institucional e legislativa temos que ter a coragem de assumir uma rutura, com a diferenciação positiva do transporte público e o financiamento do sistema de transportes. Não para nos sustentar - até porque nós é que andamos há décadas a sustentar a mobilidade no país - mas para nos criar condições para desenvolvermos o negócio. Depois, quem se aguentar, aguenta-se. Mas a continuar assim é o negócio que está em causa", afirmou o presidente da ANTROP, Luís Cabaço Martins.

Falando durante um seminário sobre transporte rodoviário organizado no Porto pelo jornal Transportes & Negócios, sob o tema 'Alargar Horizontes', Cabaço Martins apontou a questão do financiamento do transporte público de passageiros como fundamental e recusou o princípio por alguns defendido da autossustentabilidade do sistema.

E, embora admitindo que, atualmente, "em Portugal já não se fala em autossustentabilidade" do sistema de transporte público, o presidente da ANTROP afirma que "também não se faz nada": "Na Europa a taxa de cobertura [dos custos operacionais por parte do financiamento público] anda pelos 53%, mas em Portugal é praticamente zero, o que paga [o sistema] é [o custo d]os bilhetes", sustentou.

Para Cabaço Martins, há potencial para melhorar o atual sistema de transporte público de passageiros, mas "a resposta passa pela qualidade", o que implica custos e, portanto, "não se faz com autossustentabilidade".

"É preciso garantir o serviço não só às maiorias, mas também às minorias, assegurar uma cobertura horária e espacial, frequências adequadas, um serviço estável e fiável e tempos de viagem competitivos. São precisos também preços acessíveis, bilhética integrada, intermodalidade a funcionar e informação sobre a oferta. Só que isto não se faz com autossustentabilidade", disse.

Na opinião do presidente da Associação Nacional de Transportadores Rodoviários de Pesados de Passageiros, o sistema de transporte público português "tem valor e potencial", mas tem sido penalizado por "décadas instabilidade legislativa e confusão institucional", que levaram a uma desorganização no setor, "com planeamento inexistente e muito trabalho avulso e inconsequente e inútil, com muito desperdício de recursos".

"Como é que se pode falar em serviço público um país em que se destruíram todos os suportes do tarifário social, em que todos os operadores de transporte têm vindo a reduzir a sua oferta dadas as dificuldades, em que se diz que o transporte público deve ser autossustentável, em que não há efetiva promoção do transporte público? Temos valor e potencial mas uma infraestrutura que nos impede de avançar", lamentou perante uma plateia de operadores de transporte rodoviário.

Paralelamente, disse, "tirando algumas zonas pedonais nos centros históricos, multiplicam-se os sinais errados à população e não há uma única medida de restrição do uso do transporte individual quando, isso sim, seria promoção do transporte público".

"Continuamos a dar tiros no pé e a não ser alternativa ao transporte individual. Por isso, vivemos quebra de procura de passageiros, o que leva a uma redução da oferta, a uma perda de qualidade e à insustentabilidade dos operadores", reiterou, concluindo que: "É necessário introduzir medidas que promovam o transporte público e que criem a sua sustentabilidade. Essa única via para uma solução de futuro".

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