Seguro entre amigos recusa estar de volta à política. Só "regresso ao espaço público"

O ex-líder socialista diz que está muito bem como está. Mas houve quem perguntasse se, neste tempo, alguém se pode dar ao luxo de se dispensar de uma vida política ativa

De fato e gravata, cabelo cortado, a mão sempre estendida para o cumprimento acompanhado de sorrisos, António José Seguro confessou que já tinha "falta de treino" para o improviso e reuniu ontem os seus amigos, de quem tinha "saudades", com o pretexto do lançamento de um livro. Nada mais que isso, apesar de se tratar da adaptação de uma tese de mestrado sobre A Reforma do Parlamento Português. O Controlo Político do Governo (ed. Quetzal).

"Não se pode falar em regresso à vida política", explicou-se o antigo secretário-geral do PS, quase 18 meses depois de ter saído da sede no Largo do Rato na noite em que perdeu as eleições primárias socialistas, na véspera de fazer 54 anos. "Quanto muito", acrescentou, é o "regresso ao espaço público através do contributo que o meu livro dá para a reflexão sobre o funcionamento dos parlamentos, um aspeto específico que é o controlo dos poderes democráticos".

Se dentro da sala - cheia de gente, que obrigou à ocupação de um segundo auditório - não mostrou falta de treino no improviso, Seguro também não perdeu a capacidade de evitar as "perguntas marotas". "Estou a gostar muito do que estou a fazer: a dar aulas, a fazer investigação, tenho a minha atividade empresarial, por isso respondo às coisas que entendo, não respondo às que não entendo."

E saudades da vida política, insistiram os jornalistas. "Tenho sobretudo saudades de dar contributos ao meu país. Dei um contributo na vida política, durante 23 anos, e agora estou a dar contributos, ao nível empresarial, numa micro-empresa, formando alunos, esses são os que dou à vida do meu país, como centenas de milhares de portugueses, com o seu trabalho, que fazem com que o país progrida." E esse é o seu desejo: "Que o país possa progredir e os portugueses possam viver melhor." Mas sem dizer se o Governo de António Costa está a contribuir para essa melhoria. "Não me vão desviar para essas conversas."

Uma e outra vez, por entre muitas pessoas que se acotovelavam em direção ao local onde Seguro iria autografar a obra, nada fez demover o ex-líder socialista. "Isto não é nenhum regresso à vida partidária, isso posso dizer com total clareza. Aliás, há muito mais vida do que a partidária e para além da vida partidária. Sou um homem livre." Andará por aí, sim, mas a falar do livro.

A insistência não foi exclusiva dos jornalistas. Lá dentro, a assistência saudou com palmas a frase na qual Viriato Soromenho-Marques (que apresentou o livro) disse, logo a abrir, desconhecer se havia "alguma intenção por parte do António José Seguro de, com isto, marcar um regresso à vida política ativa".

O professor universitário notou que esta resposta dependerá da pergunta feita, e essa pergunta, que se pode fazer hoje, "não apenas ao António José Seguro, mas a qualquer um de nós, é saber se vivemos um tempo em que nos possamos dar ao luxo de dizer que nos dispensamos de um participação ativa na vida política". Mais aplausos.

Do livro falaram também os politólogos e arguentes da tese Manuel Meirinho e André Freire. No auditório da Universidade Autónoma de Lisboa - onde foi aluno e professor e voltou para ser docente depois de deixar a liderança do PS - foram muitos os amigos, entre rostos conhecidos e anónimos que foram ao encontro de amigos com Seguro, de vários quadrantes políticos, um Parlamento ali replicado.

O antigo Presidente da República, Ramalho Eanes, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues ("Ex.mo senhor presidente da Assembleia da República... Já há muito tempo que não utilizava esta saudação", disse Seguro), os ministros João Soares e Caldeira Cabral, e outros socialistas como Jorge Coelho, Francisco Assis, Alberto Martins; do PSD, Marques Guedes, Aguiar-Branco, Matos Correia, Duarte Pacheco ou Santana Lopes; Nuno Magalhães, Mota Soares e Diogo Feio, do CDS; e António Filipe (PCP) e Luís Fazenda (BE).

O editor Francisco José Viegas também desconhece se Seguro volta à política, "onde terá certamente uma geringonça à sua espera". Ontem foi um hemiciclo completo.

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