Secretário-geral da ONU: um sonho de que Guterres não desiste

Ex-alto comissário para os refugiados, agora em Lisboa a "gozar a família", continua a não excluir candidatura a secretário-geral da ONU. Os obstáculos, porém, são fortes

Simplificando, é assim: não há ninguém que consiga ser secretário-geral da ONUsem ter o "sim" simultâneo de cinco país: EUA, Rússia, China, Reino Unido e França - os países membros permanentes do Conselho de Segurança. Se um deles vetar qualquer escolha, nada feito.

A unanimidade destes cinco em torno dos candidatos é indispensável para depois o processo avançar em direção ao órgão onde formalmente se faz a eleição, a Assembleia Geral das Nações Unidas. Todo o ano de 2016 será passado em movimentações diplomáticas para definir o(a) candidato(a) ou a short-list de candidatos que irão a votos. Em janeiro de 2017 deverá entrar em funções o(a) sucessor(a) do sul-coreano Ban Ki Moon . O que está em causa é um mandato de cinco anos, que pode ser renovado por mais cinco (no caso de Moon isso aconteceu).

Entrevistado há dois dias na RTP, Guterres não fechou a porta. Disse que o processo "é muito complexto". "É cedo, não depende de mim, pode até acontecer que não seja possível."

Para já o que quer fazer é "gozar a família", estando a iniciar um "período de reflexão". "Tenho várias hipóteses a pensar, preciso de ponderar em relação ao futuro qual a melhor forma de poder aproveitar as capacidades que tenho".

Ao fim de dez anos como chefe do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) - sucedeu-lhe o italiano Filippo Grandi -, Guterres regressou a Lisboa. Tem para já à sua espera (desde 2013) o cargo de administrador não executivo da Fundação Gulbenkian (cujo mandato termina em 2018).

Para a corrida a secretário-geral da ONU, Guterres enfrenta dois importantes problemas: por um lado, não é originário da região que deverá indicar o eleito (Europa de Leste); por outro, há fortes pressões para que desta vez o titular do cargo seja uma mulher (nunca foi, em 70 anos de história da organização).

Em meados de dezembro passado, o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral deram o pontapé de saída no processo de escolha do novo secretário-geral e, numa decisão sem precedentes, recomendaram explicitamente que a escolha recaia sobre uma mulher.

Dentro destas duas "condicionantes" - ser uma mulher e ser da Europa de Leste - já avançaram duas candidaturas formais: Vesna Pusic, atual ministra dos Negócios Estrangeiros da Croácia, e uma antiga presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Srgjan Kerim, da Macedónia.

Entretanto, a Bulgária está para anunciar que nome apresentará, o Montenegro avançou com o seu MNE, Igor Luksic - que a Sérvia já disse que não apoiará - , e a Eslovénia também apresentou o seu ex-Presidente Danilo Turk.

Um dado significativo neste xadrez é o facto de a Presidente da Lituânia, Dalia Grybauskaite, ter decidido anunciar que se ia retirar da corrida. Observadores notaram imediatamente que Grybauskaite se retirou para evitar o veto da Rússia à sua candidatura.

Ora é aqui, na posição da Rússia, que se poderá abrir a janela de oportunidade para o antigo primeiro-ministro português. E voltamos ao facto de qualquer lista de nomeados ter de passar previamente pelo cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e de precisar de acordo entre ambos.

Um observador diplomático ouvido pelo DN disse que qualquer candidato de Leste terá de merecer luz verde prévia da Rússia - uma espécie de potência tutelar na região. Mas, por outro lado, todas as soluções apoiadas pela Rússia tenderão a merecer uma enorme desconfiança dos EUA. Assim, para desembrulhar o impasse, pode ser que se tenha de abandonar a obrigatoriedade de ser uma personalidade do Leste europeu - criando-se então o espaço para Guterres, que tem a seu favor os seus dez anos como alto comissário para os refugiados e portanto o seu conhecimento da máquina das Nações Unidas.

Seja como for, uma coisa Guterres já decidiu: para ele a política em Portugal acabou. "Esse capítulo encerrou", disse na entrevista de anteontem à RTP.

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