Santa Maria e S. João são onde se espera mais por consultas de oncologia

Diretor de serviço de Santa Maria diz que o hospital está sem capacidade para doentes oncológicos e já teve de adiar tratamentos

Os dois maiores hospitais do país, Santa Maria e São João, são também os que apresentam piores tempos de espera para primeiras consultas de oncologia. De acordo com os prazos publicados no portal do Serviço Nacional de Saúde, um doente muito prioritário tinha de esperar 19 dias no final do ano passado para ser visto por um especialista em Oncologia Médica em Santa Maria. Apesar de estar dentro da lei (que prevê consultas até 30 dias nestes casos), o hospital lisboeta é dos que apresentava maiores dificuldades de resposta nesta área, praticamente igual aos 20 dias de Aveiro, ambos apenas abaixo dos perto de dois meses de espera no principal hospital do Porto. Dados que vão ao encontro das declarações do diretor do serviço de Oncologia de Santa Maria, que em entrevista à TSF confessou que a unidade que dirige está sem capacidade para tratar os doentes com cancro que os têm procurado, o que já obrigou a adiar tratamentos.

Luís Costa disse que tem aumentado a procura por causa da lei que abre a hipótese de o doente escolher o hospital onde quer ser tratado e queixou-se de falta de espaço e de meios humanos. "Estou quase a abrir [lista de espera] porque não tenho médicos para tantos doentes nem tenho espaço. (...) Começámos na semana passada, não conseguimos tratar os doentes que estavam previstos e tivemos que adiar [os tratamentos] uma semana", afirmou o médico à TSF.

O responsável da Oncologia do Hospital de Santa Maria reconheceu que nunca houve qualquer situação de falta de medicação, mas diz que tem pouco espaço e meios humanos para tratar tantos doentes, sublinhando que todos os tratamentos nesta área são urgentes e que uma eventual lista de espera "não deixa ninguém sossegado".

Declarações que geraram alarme tanto entre especialistas, como nos partidos com representação no Parlamento. Da parte da Liga Portuguesa Contra o Cancro, o seu presidente, Vítor Veloso, manifestou-se muito preocupado com a hipótese de o Hospital de Santa Maria vir a ter uma lista de espera para tratar doentes oncológicos. "O adiamento de tratamentos e o aumento das listas de espera de cirurgia [oncológica] pode fazer a diferença entre uma cura e uma sobrevivência pequena e com má qualidade de vida", sublinha Vítor Veloso. Preocupações partilhadas pela Ordem dos Médicos. "Criar listas de espera em Oncologia é correr o risco de perda de vidas", o que o presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem considera "inadmissível e cujas responsabilidades são totalmente do Ministério da Saúde".

Críticas que se estenderam aos partidos políticos, da esquerda à direita. CDS e Bloco de Esquerda anunciaram que enviaram ontem mesmo perguntas ao ministro da Saúde sobre a situação de Santa Maria. Os bloquistas reclamam um concurso para a contratação dos médicos especialistas recém-formados, enquanto os centristas desafiam Adalberto Campos Fernandes a "resolver os problemas e deixar de ser Centeno ou sair para que outro resolva os problemas". Pelo PSD, o vice-presidente da bancada Adão Silva considerou igualmente inaceitável a situação denunciada no Hospital de Santa Maria e lembrou que, no passado, foram relatados problemas em outras unidades de tratamento oncológico, como na pediatria de São João, no Porto, ou no IPO de Lisboa.

Hospital garante contratações

Em reposta à entrevista de Luís Costa, o administrador do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN) assegurou ontem que os tempos de espera na oncologia são cumpridos e que os problemas apontados pelo diretor do serviço foram resolvidos na quarta-feira. No caso concreto da oncologia médica, um dos serviços que cresceu mais em termos de recursos, Carlos Martins disse que foram contratados mais cinco médicos e que recentemente houve mais uma contratação autorizada. Ainda na quinta-feira chegaram mais três autorizações de especialistas. "O que nós temos é uma situação que nos orgulha a todos, ou seja, não ultrapassamos nenhuma mediana, mal era, estamos a falar de oncologia", afirmou Carlos Martins propósito das listas de espera, sendo o tempo médio de espera de 20 dias, salientando que houve um "crescimento assinalável", uma média de 15%, nas primeiras consultas nos últimos dois anos.

Informações confirmadas pelo DN ao consultar o Portal dos Tempos de Espera, onde ao olhar para os 15 maiores hospitais com a especialidade Oncologia Médica também é possível perceber que ainda assim Santa Maria e o São João eram dos que apresentavam prazos médios mais dilatados para consultas muito prioritárias no final de novembro de 2017: 19 e 50 dias, respetivamente, o que parece confirmar o peso da lei da liberdade de escolha na capacidade de resposta dos maiores hospitais do país. Em resposta ao DN, o Centro Hospitalar de São João informou que, a 30 de abril, tinha três doentes enviados para a consulta de oncologia que vieram dos cuidados de saúde primários, todos com consulta marcada o mês de maio. Quanto à mediana do tempo de espera, considerando os doentes enviados dos centros de saúde e de consultas hospitalares, é nesta altura de 17 dias.

No final do ano passado, ao nível de Santa Maria estavam Aveiro (20 dias) e Setúbal (19 dias), enquanto os institutos de oncologia de Porto e Lisboa tinham entre 10 e 12 dias de espera.

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