Vítimas não receberam apoio porque não entregaram candidaturas a tempo

Ministério da Agricultura deu prazo de um mês, mas "com as perdas familiares. Um mês não dá para a pessoa levantar a cabeça", diz um dos afetados pelos fogos

Nuno esteve internado por causa do incêndio de outubro de 2017 e João perdeu os dois sobrinhos no fogo. Os dois habitantes de Oliveira do Hospital ainda hoje estão à espera de uma resposta do Ministério da Agricultura para receberem apoios.

Para além das dificuldades de agricultores com redução dos apoios na sequência dos incêndios de outubro, há também histórias de quem não conseguiu apresentar candidatura a tempo.

João Carlos Lopes e Nuno Matias, de Oliveira do Hospital, são dois desses casos de pessoas que, sem viverem da agricultura, registaram prejuízos, mas não foram a tempo de apresentar candidatura.

No dia do incêndio, Nuno Matias teve um acidente, quando fugia do fogo. O carro bateu e teve de ser internado até 27 de novembro, com queimaduras de segundo e terceiro grau em 24% do corpo.

Nuno explorava um terreno da tia, em Oliveira do Hospital, com olival e vinha, que era usado por toda a família, e que ardeu por completo.

"O meu pai não tinha cabeça para fazer a candidatura e a minha tia vive em Mirandela e também tinha dificuldade em fazer isso", explicou à agência Lusa o habitante de Oliveira do Hospital.

Nuno explicou a situação à Direção Regional de Agricultura e Pescas (DRAP) do Centro, mas, sublinha, até agora não recebeu nenhuma resposta.

"Até agora, nada", vinca.

A 15 de outubro, João Carlos Lopes viu o mundo virar-se "de pernas para o ar".

Perdeu dois sobrinhos, que eram "da casa", viu a fábrica onde trabalhava ser consumida pelas chamas e perdeu parte de uma exploração familiar de bovinos.

Embora tivesse feito a relação de prejuízos da exploração a 14 de novembro, as circunstâncias não permitiram fazer a candidatura a tempo.

"Ficámos três meses sem telefone e deram-me informação de que iria ser contactado para fazer um projeto, visto que ultrapassava os 15 mil euros, mas disse que se fosse os 5 mil eu aceitava, que isto era para eles [os sobrinhos] e eles já cá estão não. Essa informação nunca veio e, com a morte dos miúdos, um deixou dois filhos menores e estive a tentar procurar a salvaguarda deles. O tempo passou - não demos conta - e quando pensámos no porquê de não haver nada, a resposta foi: Já passou o prazo", contou à Lusa o homem de 58 anos.

Enviou reclamação para a DRAP e para o ministério, mas a única resposta que recebeu foi da direção regional a dizer que o prazo de candidaturas era até 30 de novembro.

"O Ministério da Agricultura, até hoje, ainda não respondeu", vincou.

Dos 11 bovinos que tinha, já vendeu seis para arcar com as despesas e não sabe se não terá que vender os restantes, já que, com a perda do trator, não consegue retirar o estrume do local e os animais acabam por viver "numa lama", em condições que estão longe das ideais.

"Mais vale desistir", nota.

O Ministério da Agricultura, sublinha, devia estar a ver o que se passou, "porque um mês foi um prazo tão curto, com todas as situações que se passaram, com as perdas familiares. Um mês não dá para a pessoa levantar a cabeça. É triste", concluiu.

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